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Do difuso e do focado, do sol e do farol

O místico entende-se como uma produção da natureza; uma realização cósmica, como o leito de um rio, o recorte de uma costa rochosa, um estalagmite – essas colunas de calcário que se erigem no solo de uma gruta em função do longo gotejamentos das águas, das reações químicas
entre os elementos contidos nos minerais, na água, no ar; do efeito da temperatura dos ambientes e das forças essenciais – como a gravidade, o magnetismo, as reações atômicas e moleculares. Advinha-se a sagacidade dos anciãos evocando os elementos como terra, água, ar e fogo. É fácil imaginar cada pingo d’água como uma molécula primordial; um conjunto de
gotas formando uma célula; as formações esculturais da rocha, órgãos: a realização dessa totalidade, um estado-de-ser que evolui e se eleva até tocar o teto formando um pilar estalagmítico – um místico estatelado e espantado tocando o céu com a consciência própria.

O místico compreende não ser diverso da natureza que o contém, que a natureza se expande em formações sempre mais amplas, num contínuo universal homogêneo: ele sabe. Ele conhece
porque experimentou, ao longo da sua história, que a evolução progressiva da consciência, de celular a orgânica, pertence a esse sistema como o perfume e a beleza das flores integram e coroam o âmbito e a complexidade das relações. Tudo é um que se dissolve em fronteiras infinitas em todos os azimutes. Om shanti, shanti, shanti om.

O distraído, diversamente, por carência de perspectivas profundas, não enxerga como um sol, na envergadura da totalidade dos raios, mas entrevê as coisas em frestas estreitas de consciência e visão: não conecta, não integra, e passa a ver como flashes de instantâneos. Ele vê aqui uma pedra, lá um coelho, em cima um sabiá e além, um céu radicalmente diverso do plano horizontal. Ele não reconhece, como as águias, que o azul e branco do mar é azul e branco do céu. Ingênuo, ele passeia no mundo, no mar e no céu, como se fosse um farol isolado numa pedra rochosa: olha isso, vê aquilo! Devem ter universos muito estranhos e diversos de mim além desses negrumes distantes! Ele não se compreende, tampouco se reconhece como um
místico.

Farol acusa Esclarecido de ‘antropocêntrico’! Rindo, o místico responde que seria mas acertado acusá-lo de abóbada antropocircunferencial! Que de fato ele, Farol, é o ‘antropocêntrico’ que gira focando em torno de si para ver pouco, fala com as próprias visões como se fosse alienígenas, confundindo coisas com representações, achando-se caído de outro astral, ou
assentado nos arquibancos da arena universal, como um prefeito em seu gabinete! – “Pois se sou focado e rochoso, tu és difuso, totalmente calcário, meu caro!”. E assim continuam se alfinetando, rindo um do outro.

Tenho denominado essa perspectiva incompleta, focal e dicotômica, de eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental e a perspectiva unitária e difusa de eixo perspectiva metafísica cosmo-existencial. O primeiro caso reporta aos aprofundamentos filosóficos típicos do kantismo onde o pensador, iniciado nessa postura de ‘ente separado do todo’, conecta a luz da consciência com as coisas se questionando: mas e além da minha luz, existirá uma ‘coisaem-si’ misteriosa, radicalmente inacessível, outra? Ele responde:

– “Pressuponho que sim, caso contrário tudo estaria no aro da minha consciência, tudo seria ‘maya’, ilusório. Não pode ser, existe, sim, uma coisa-em-si. Aliás, uma suposição cujo fundamento encontra-se corroborado na tradição e na visão comum. O mundo foi criado por um deus que não é do mundo, tão misterioso para nós quanto essa ‘coisa-em-si’ que existe fora
do alcance funcional e necessário da percepção. O mundo se descobre, avançando passo a passo, revelando novidades insuspeitadas, descortinando outros espaços, não se-trata de construções radicais. A existência não pode ser algo como uma ‘categoria aberta do sujeito’, a natureza e seus princípios não pode servir de base para a formação de uma ética naturalmente decorrente: a inteligência obriga a reconhecer, imperativamente, a necessidade de obedecer a
uma norma criada, pressupondo a necessidade do amor, de acordo com a lei divina e revelada”.

No caso da perspectiva cosmo-existencial, reporta aos entendimentos de diversos poetas e místicos; em filosofia, notadamente, Espinosa, os pré-socráticos e, possivelmente, Sócrates reportado por Platão, quando, em 246 dc, o ateniense afirma:

“O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um
princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria
princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa
que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos
exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma
nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que
se unem para toda a eternidade”.

Na perspectiva cosmo-existencial não há dicotomia rigorosa entre o que é do âmbito da consciência e do mundo: estabelecessem-se relações fenomênicas, como atributos unidos,chave e fechadura. A consciência é necessariamente de alguém, e algo, para se apresentar no
plano existencial, aflora na consciência de uma forma ou de outra. O posicionamento é fronteiriço: a totalidade dos existentes fronteiram relações complexas e determinantes na
realização do processo criativo. Imagina-se uma membrana molecular formando-se em algum meio, eventualmente, dobrando sobre si, criando um espaço interior: não faz pleno sentido postular uma ‘radical distinção entre o lado de fora e o de dentro’, não há dois espaços do ponto de vista original, ontológico: trata-se de uma unidade recondicionada pela forma configurada. A estrutura membranosa evocada estabelece distinções, relações e destinos, tanto quanto os demais seres criados, sem por isso originar lugares estranhos, radicalmente diversos:
os dois lados não configuram entidades opositivas e divergentes, a não ser nas interpretações e normas de modelos e narrativas. O justo entendimento desconstrói questionamentos relativos ao solipsismo e à ideia do mundo ilusória, maya, como se referissem a realidades absolutas, ontológicas; são apenas modelos ou modos de compreender, sendo o modo cosmo-existencial mais extenso, sóbrio e profundo – no momento, integrando melhor o que se sabe, logo mais verdadeiro. Nessa postura, o pensador entende-se integrado a tudo quanto existe e possa vir-aser,
estabelecendo relações, descortinando aspectos do fluxo desse fenômeno radical.

Trata-se de um fundamento metafísico corroborado na tradição e visão panteísta, onde o cosmos entende-se como fenômeno autopoiético. O ‘deus criador’ é o próprio Cosmos, incluindo todos os seres em enlaces misteriosos, universo cujo potencial em nada desmerece os valores atribuídos ao deus sobrenatural dos teístas salvacionistas que consideram a vida uma
purgação, um introito para um mundo incriado de ‘energia pura’, sem matéria alguma. A visão panteísta, apesar da modernidade do termo, reporta-se a muitas formas antigas de reverenciar
a natureza. O mundo se descobre como o infante descobre os próprios potenciais, o bebê o corpo, o homem sábio entende a terra como uma mãe e o sol como um pai. A mim parece que a existência é categoria aberta do sujeito que sempre existira, de uma forma ou de outra. Para bem se dirigir e orientar nas coisas da vida, entender que somos uno dispensa a necessidade imperativa de normas elaboradas em escrituras: a verdade grita no presente, na imaginação e historicidade que transmuta sem deixar de se afirmar, até mesmo quando observo um céu de estrelas que brilham num passado presente, lembrando imagens e ideias cujo surgimento não sei locar no tempo – memória ancestral.

 

Ensaio Essencialista 05 – Educando o Essencial

EDUCANDO O ESSENCIAL

Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela. A escola decreta que antes dela não há nada – Paulo Freire

O que se conhece primeiro, serve de metáfora para o que vem depois – Régis Alain Barbier

1. QUADRO DE AVISO

Nesse intento de compreensão sistêmica da educação a partir da razão filosófica, não esmiúço assuntos técnicos, como o estudo das abordagens educativas relativas às faixas etárias; tampouco, debato a necessidade de se fornecer conteúdos específicos em cada fase dos processos pedagógicos.
Como um arquiteto, concentro o meu discurso nas linhas existenciais eco-humanistas e fundamentais a um bom projeto educacional. A necessidade de pontuações firmes, na tentativa de demonstrar como o conservadorismo se organiza e se perpetua ao longo de um vetor de causalidade, iniciado a partir dos planos conceituais míticos e filosóficos, é proporcional ao descomedimento
filocrático1 da sociedade. Embora educadores excepcionais promovam modelos humanistas – ecohumanistas – de educação, as grades de ensino, os currículos estatais, continuam distantes do que deveriam: a pétrea pirâmide societária permanece, como um núcleo estável e impositivo, apesar de
nóxia e anacrônica. Comparo a situação societária atual, global e geral, notoriamente geradora de desassossego, injustiça e abuso, corrupta, à mutação patológica de um estado potencial de boa saúde comunitária. Essa mutação ou situação patológica é crônica, com agudização recorrente. Defino o
estado de boa saúde social como uma polis comunitária, libertária, dialógica e eco-humanista, como uma tribo de amigos: não se trata de um idealismo, mas da evocação modelar de uma situação adequada, fazendo jus aos potenciais sapientes da humanidade, geralmente apregoados, considerados notórios: uma organização social, delineada algumas vezes ao longo da história, onde,
por definição, predomina o respeito às intenções sinceras, aos cuidados específicos no sentido de prezar a vida, a natureza. Do ponto de vista habitacional, neste estado de saúde social, não há tumores urbanos, ácidos e caóticos; não existem áreas extensas de carências e desencontros, escassez celular e fibrose – “as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e ilhadas em vastos terrenos baldios”; (Lígia Fagundes Teles, Histórias do Desencontro, p. 83) – não
existem prédios como carceragens suspensas, penhascos na beira de abismos de solidão e isolamento. Cada casa é um canteiro no jardim; cada praça, uma fonte. O teatro central dos debates sociais é um salão comum e aberto a todos os poetas e filósofos. Não prevalecem reações autoimunes, violentas, não há autoanticorpos, bandidos, contra autoantígenos, parentes; as pessoas não se comunicam como máquinas insensíveis; obtêm alimento em hortas, não em supermercados
com clima de néon e ar frio enlatado.

2. DA INEFICIÊNCIA DAS FILOSOFIAS SUBSERVIENTES

A Filosofia da Educação representa a aplicação do pensamento filosófico aos processos educativos. Uma aplicação passiva de orientações, objetivos, abrangências e direcionamentos diversos na geração de conceituações: 1) orientada em direção ao entendimento dos processos educativos
atuantes no próprio contexto sociocultural gerador do estudo, uma busca homocêntrica; ou, 2) investigando métodos educacionais de outras culturas, uma busca excêntrica, nos moldes da antropologia. Tais buscas acontecem de acordo com o entendimento filosófico operante e peculiar dos pesquisadores: o filósofo educador, necessariamente, tende a definir o que é educar em relação à
natureza da sua própria educação, em uma escala de valores, do que apreendeu; pressupõe-se que as investigações de outras culturas sejam aptas a evidenciarem pontos contrastantes, áreas divergentes, abrindo espaços para renovadas interpretações ou modelos – contudo, pré-juízos, de alguma forma
limitantes, são esperados, quase inevitáveis 2. Uma investigação filosófica da educação, incidindo acriticamente sobre a sua própria esfera formativa, âmbito cultural de origem, com frequência, não passa de um enaltecimento da própria cultura, uma apologia: estudiosos encomiastas,
comprometidos em cargos funcionais, geram uma filosofia da educação eminentemente conservadora, senão presunçosa. Para obtenção de resultados rigorosos e satisfatórios, seria necessário que os investigadores fossem isentos de sectarismos, libertos de afiliações e militâncias, capazes de deslocamentos cognitivos transcivilizacionais, conhecedores das definições profundas,
filosóficas, relativas aos conceitos de educação vigentes em outras culturas e civilizações, fundadas a partir de estruturas míticas e perspectivas metafísicas diversas. Para a obtenção de resultados e compreensões operativas abrangentes, universais, para observar, comparar, experimentar a tudo o que se refere a essa atividade de transmissão e criação cultural, educar, uma máxima flexibilidade e lisura são fundamentais. Um intento teórico, orientado em busca de esclarecimentos ponderados e isentos, versando sobre a filosofia da educação, implica incluir a si mesmo, com consciência, ao iniciar o processo de entendimento filosófico: conhecer-se como fenômeno conhecedor, historicamente nutrido de compreensões mediadas pela cultura, e, de conhecimentos imediatos resultantes da experiência vital. Apenas garante a universalidade do estudo a contemplação lúcida do estado-de-ser humano, seus fundamentos, sua essência, no intuito de defrontar as necessidades existenciais basilares, atinentes à condição humana genérica, como experimentada e conferida à luz do bom senso, com sobriedade, levando em consideração, na análise, as aferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos gerais, reconhecidos sensatos, decantados e louvados em estruturas
culturais e civilizatórias, de tradição humanista e orientação racional.

Iniciamos pelo caminho mais sóbrio, direto e mais econômico: uma busca a partir de si, busca filosófica por excelência. Assumo o âmbito civilizacional vigente, hoje global, como gerador de uma estrutura e métodos educacionais instrumentados como expressões conservadoras, de reforço; tal articulação ideológica é o ponto inicial e de procedência a partir de onde se afirma essa dissertação. Iniciando pela observação, descrição e contemplação, despontam questionamentos ligados aos métodos de ensino: os métodos são centralmente implicados no ato de educar; a ideologia estrutura métodos que condicionam as diretrizes educativas, filtrando e reduzindo aquilo que se transmite. A ideologia vigente desconhece o bom senso que assinala a complexidade e inefabilidade estruturante do estado-de-ser, em favor de um reducionismo abusivo concretizado na
tentativa de se aplicar o método positivo-científico para a investigação e regência de uma ordem de fenômenos não quantificáveis: a totalidade do estudo da ação humana no contexto social – como na sociologia aplicada, psicologia social, pedagogia e economia. A experiência humana não é: 1) idealista, redutível a alguma entidade de ordem subjetiva, nem 2) positiva, redutível a objetos materiais, tampouco, 3) ‘realidade’ entendida como uma relação cristalizada entre estas duas
hipóteses, de fato incognoscíveis, i.e., de um lado o ‘ideal’, do outro o ‘objetivo’, ou positivo: a experiência humana é um fenômeno, uma unidade viva, analiticamente incognoscível, inefável e imponderável na sua essência. Ser ciente de si configura um conhecimento direto, imediato e auto conferido, portanto não convencional, não se tratando, tampouco, de uma observação científica implicando neutralidade da parte do observador, resultados provisionais

3. O ser humano agemotivado por escolhas inscritas em atos e causalidades indetermináveis, em termos de qualidades e quantidades: uma criatividade avessa à categorização. Escolhas insondáveis nas suas profundezas
determinadoras; mas, não por inatismo sobrenaturalista – algo como um “livre arbítrio” – e, sim, devido a uma imensa complexidade: o surgimento da capacidade de escolher como fenômeno intrínseco à complexidade e autoconsciência. A atitude cientificista, ensaiando delimitar os processos educacionais embasando a análise em dados pré-definidos, implica a negação da insondável e ímpar criatividade humana, o desrespeito à natureza primordial e única do estado-deser.
O educador, seguidor de tal orientação metodológica, coloca-se numa situação ilógica: a premissa reducionista não garante uma antecedência predicativa maior, a não ser que o educador positivista se enxergue como espécie diversa, um super sujeito dotado de uma inteligência fundante e superior – o ato da redução racionalista como ato supremo de inteligência. A abordagem cientificista, normativa, exclusa, por redução, do âmbito cognitivo pleno da razão natural e inteligência das interações, implica: 1) empobrecimento por diminuição da diversidade; 2) redução dos potenciais e iniciativas a um nível consensual estatístico médio; e, do ponto de vista das
aplicações; 3) acentuação e possível generalização da amplitude e intensidade de atos educativos elitistas e selecionados, uma forte tendência para o fortalecimento de uma ação educacional massificada, objetivista e rústica. Esquemas educacionais alienados e alienantes, propensos a induzir desinteresse, empobrecimento dos valores, talentos individuais, diversidade e criatividade. Efeitos reforçando o desenho societário vigente, a manutenção conservadora, homogênea, dos esquemas
societários filocráticos já implantados, o status quo. Caso se entenda por educação o que de fato significa, um processo desenvolvente e criativo, a renovação e transmissão cultural através do diálogo, compartilhamento, do ‘e’ ‘ducere’, lucidez irradiada a partir de si mesmo, maiêutica: tornase evidente não ser possível algo como uma “educação estatal” ou uma “educação teológica sectária”. A dita educação de estados ou igrejas se caracteriza como instrumento teórico, confirmador do enquadramento geopolítico de indivíduos, com eficiência e intensidade proporcional e relativo ao PIB; um processo orientado na implantação e cultivo, através de ministérios específicos, burocratas, funcionários associados, intenções, finalidades e elitismos pré-definidos em concílios ou conselhos fechados.

O ato educador só pode emanar de uma relação de admiração frente à insondável criatividade e originalidade humana; de respeito à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser; de um método valorizando e fortalecendo a capacidade de escolha do aluno – escolha entendida como fenômeno intrínseco à complexidade e à autoconsciência. O ato educador, sensato, tem como objetivo, a partir do início da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos
peculiares e singulares. Não ilustrando, e comprovando, nos seus fundamentos, essa natureza dialógica espontânea, fluida; o ato dito educativo, não é educador, mas simples demonstração e manifestação de prepotência e autoritarismo.

3. DOS PRÉ-JUÍZOS INQUIETANDO E SITIANDO OS HORIZONTES PEDAGÓGICOS

A saga infantil elabora-se por toda a vida, seja permanecendo nos limites balizados pela cultura e estrutura socioeconômica, ou, divergindo: aqueles que se expressam, poetas, filósofos e artistas, elaboram esta experiência. O círculo espiralando dos cromossomos às galáxias, chegando aos pensamentos, vem e vai, a partir do mesmo negrume de inefabilidade, gerando espanto e dúvidas.
Profundo ceticismo, a partir de onde, a razão, integrando em sincronia os esboços mnemônicos e os da imaginação, desenha significados e coerências, tal qual ao perceber as figuras criadas pelo sistema de integração visual, extraindo padrões, observando texturas e formas aleatórias nas paredes, no chão, na grama ou nas nuvens. O indivíduo pode, ao menos em parte, ampliar ou mudar
os potenciais evocados na infância, para plantar e cultivar o que bem desejar, todos os sentidos e perspectivas existenciais possíveis: zênite, nadir ou globo universal – o que não se refaz, se supera e reinventa. Muitos acompanham as normas, acentuam os traços da catedral societária, invocam a grandeza dos representantes de ideais, ou hipóteses, vislumbram personagens infinitamente supremos onde outros só enxergam negrumes misteriosos. Outros, mais orbi de que urbi, deixam aos césares, reais e míticos, o que lhe referem, sem ingerência: compreendem as esferas naturais, geometrias orbitando no vazio, como força e matéria divinais.

As diligências culturais, os aspectos específicos da cultura e as providências comunitárias, os dados da experiência vivencial definem, com intensidade, categorias existenciais e fundadoras: marcas batismais, aplicadas na infância por intermédio de parentes, imediatos transmissores de usos e costumes, ou por agentes culturais, sacerdotes ou educadores, políticos, a serviço das culturas.
Cogitans, atributos culturais mais abstratos, ligados aos domínios míticos regendo religiosidades, e naturans, modelos de relações relativas ao ambiente, ao habitat, à vida familiar, originam dois declives coligados, mas diversos. Motivo bivalente promovendo aliagens, seja com acentuação da esfera estável e genésica, familiar e comunitária, ou intensificação dos reflexos e relações societárias, das sombras mutantes no fundo da caverna mítica evocadas por Sócrates, narradas por Platão. O modelo comunitário e familiar poderá ser: orbi, naturalmente inserido e contextualizado, assentado num habitat típico, em sintonia com o ethos eco-humanista; ou, urbi, uma vivência mais artificial, burguesa 4, dissociada dos enraizamentos relativos ao ethos original, posições instrumentadas em escalas classistas relativas a privilégios, capacidades funcionais e produtivas. O modelo cultural poderá ser gerador de práticas sacramentais e dimensões espiritualistas, com frequências antipódicas: estruturas normativas, regidas por representantes hierarquizados, instalados em igrejas, evocando domínios imaginados sobrenaturais, mediando rogações; ou ritos mais naturalistas, proporcionando encontros frontais e espontâneos com a natureza, reconhecida sagrada, todos os seres. O vigor, integração, ou alienação, da configuração nativa, e, do outro lado, a intensidade e qualidade das normas culturais, são fatores entrelaçados na administração do destino do estado-de-ser: fenômenos envolvidos na criativa manutenção da existência, ou no seu depauperamento. Cada indivíduo se posiciona: acompanhar os determinismos infantis ou divergir; não se trata de seleções intelectualmente lógicas, escolhas racionais; essas matérias são selvagens, extracurriculares e sub-reptícias, a bifurcação a ser vencida depende de uma apreciação íntima, intuitiva, parcialmente consciente.

Apenas o ser humano dotado de intuição cognitiva madura, liberto de medos e receios pode, deveras, decidir e se posicionar frente às alotipias e graves ambivalências sitiando o núcleocivilizatório como vozes sussurrantes: – És um ser vindo de planos sobrenaturais, criatura acidentalmente, caída na matéria, em busca de resgate e redenção; ou apenas uma criatura naturalmente assentada no seu habitat, povoando a esfera planetária? És um predador universal,
como um gafanhoto migratório, ou uma entidade bem aninhada e locada no seu ethos essencial? Uma vez postas as dúvidas, hesitando, imaginam-se similia e similibus soluções, afirmadas por inúmeros agoureiros e guias, acreditadas por muitos, estabelecendo-se jogos dramáticos, indecisões sem remédios, a não ser: obedecer sem questionar, divergir ou desistir da problemática, cuidando do pão cotidiano. Impressões psíquicas aplicadas na infância emulam tendências, mas não determinam o destino. Ou o medo de deixar de ser, ou não ser, se alivia em expressões de culpas, proselitismos ou facciosismos, em esperanças ditas e reditas como missas, do alto das tribunas, garantias apocalípticas bem badaladas; ou essa angústia, toda humana, tende a serenar, se aquietar: o pavor de deixar de ser curando-se pelo pavor de sempre ser, salvando os valores reais, saboreados no decorrer dos dias, o presente infinito. Nas junções, nos enlaces dessas circunstâncias, configuram-se epopeias: trata-se, de uma decorrência radical, de raízes; o genésico, o que está na origem, e as atitudes gestam um termo. Vetores apontam para o reconhecimento consensual de interpretações sociológicas e históricas, vindos debaixo das umbrelas cognitivas dos doutos, ou então, vivazes como uma encarnação de princípios atuantes, impulsionam maioridade e liberdade. Os ditames pedagógicos das estruturas societárias superestratificadas obstam a justa compreensão da universalidade e enraizamentos cósmicos do estado-de-ser, mas não travam com força irrestrita, o seu reconhecimento, a educação encaminha um destino, não compele. As âncoras batismais ou comunitárias, suas nuanças, a natureza peculiar do estado-de-ser individualizado criança interferem
na indução do destino. Garantido, é que a vontade, a sensibilidade e criatividade da criança – e adulto, sabendo guardar em si o infante cultivando a arte de perguntar e ser curioso – sempre desafiará os rigores das pré-definições, automatismos, tradições e do logicamente decorrente.

A capacidade de ser sensível ao Belo, à vitalidade e natureza da condutividade estética – entendida como a capacidade conectiva dos que visionam os alinhamentos das sequências causais – revelando circularidade, são fatores regidos pelo grau de intensidade e presença natural da configuração nativa; círculos, girando além das perspectivas filosóficas, perfazendo unicidade. Unicidade alimentando e gestando essas perspectivas profundas e familiares, onde padrões sinérgicos despertam, para apresentarem-se na existência, realmente, balizando as confluências e o destino, entre o estado-de-ser singular e o universal, sossegando, unificando. A observação de dicotomias, o estabelecimento de distinções contrastadas e rigorosas, fracionando o todo em delimitações, números e letras, fatores regidos pela vigência e rigor da configuração cultural como habitualmente apresentada nas escolas normativas, geram dúvidas, inquietudes.

4. DAS FORMAS DE EDUCAR – EDUCAÇÃO ANUNCIATIVA E ARGUMENTATIVA

A educação societária – aqui denominada educação anunciativa – possui seletividade e desígnio específico, geradora de problemática inerente: ela é aplicada a partir de uma estrutura hierarquizada, suspensa além do que é específicamente humano, acima da razão, um pressuposto que não pode ser efetivamente contornado à luz de conceitos pedagógicos assentados em juízos filosóficos exatos e prudentes. Apesar de revestida dos argumentos da pedagogia contemporânea, a educação societária geral mantém a estrutura teleológica típica do tomismo. Para o funcionário educador da República, o conceito de humanidade é selado de acordo com as normas decantadas ao longo da epopeia histórica, ou de acordo com um dogma irracional incorporado nas igrejas oficiais ou de massa.

Abaixo desse conceito supremo e definidor, enfatizado ou pressuposto em silêncio aquiescente ou cordato, o ser humano, instalado num contexto histórico e socioeconômico definido, pode ser ‘educado para algo’, como objeto ou recurso da nação. Na esfera societária, a educação é antes de tudo um cuidado, como a atenção que o jardineiro dispensa às plantas, um zelo que se aplica com a
participação do educando, no intuito de atualizar potenciais inatos, entendidos como sementes dignas de se cultivarem. O que é julgado bom para florir é normalizado de acordo com uma deontologia: é a realização de um ideal, o cumprimento de um tratado de deveres pré-definidos –
uma pedagogia

5 . Não se trata de favorecer a germinação espontânea de uma ética, brotando livre,
florindo da natureza; há uma tutorização, restrição forte, bem supervisada, aplicada de um patamarsuperior, não se trata de uma interlocução respeitosa, encontrando riquezas e desafios nas leituras e representações criativas e genuínas, até mesmo únicas, dos educandos. Educar é formar, realizar atos dentro da pessoa com a participação ativa do educando, é uma operação pré-definida, aplicada com
a colaboração necessária, para atingir o interior; o sucesso se demonstra em atos que se conformam a uma instrumentalização: educar para x ou y. Enquanto Aristóteles fala de potência “como capacidade de comunicar ou receber algo”, a educação societária entende potenciais como a contenção de qualidades aptas a germinar ou não. Demonstrar capacidade de trocar informações,
comunicar e receber, é certamente diverso de conter um conjunto de qualidades como potenciais: no primeiro caso, caraterísticas funcionais abrem perspectivas indefinidas; no segundo caso, um inatismo genésico predetermina as formas. O poder e eficiência da boa educação estão certamente agregados a valores; mas, não são valores educacionais objetificados, instrumentados como utilidades, isso, porque um ser humano só se educa, de verdade, na esfera da liberdade e do valor
dado a si mesmo. No âmbito da organização educacional anunciativa, estatal ou celestial, a norma mais alta e suprema caracteriza-se pela ausência de razão; o fundamento é dogmático, sobrenatural, ou norma de estado: razão de estado é norma, dogma é crença. Se a razão final é um credo, educar é
preparar a aceitação do dogma e da norma, e a função magna do educador é se credenciar frente ao aluno para suscitar aderência, fé salvadora, obediência e sucesso societário.

Compreendida como intercâmbio, sistema de trocas, dialogal, a função magna do educador e da educação – aqui denominada educação argumentativa – não é essencialmente ‘cuidar’, como uma mãe, ou um jardineiro, isso já é proporcionado pela família e âmbito comunitário. Educar, em primeiro lugar, é estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório horizontal, compartilhado, um reconhecimento mútuo de respeito e admiração, possibilitando debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico, confiante na razão e bom senso. Entendendo-se bem posicionado no seu estado-de-ser, existencialmente adequado, exercitando a razão natural, o indivíduo descobre ser uma junção misteriosa de ser e existência, de absoluto e relativo, uma expressão de liberdade, gratuidade, naturalmente revestido da graça da criatividade manifesta. Tal realização, associada à volição, como poder de aquiescer ou negar, dizer sim ou não, faz dele um ente apto a escolher e valorar o que se dá à existência, ele, em primeiro lugar. Saudável, experimentando a adequação evolutiva e seletiva, o indivíduo tende a valorizar a experiência com virtude, alegria e coragem. A razão assentada no reconhecimento e presença imediata do estado-deser,
na consciência de si, revela um contexto existencial criativo, por isso, sujeito à impermanência.

Nesse contexto existencial, decorre sensato e bom ser fluido, tolerante, desapegado, cordato, ponderado, justo e amigo. À luz da razão natural, o H. sapiens se reconhece nas mãos da providência, mas, sujeito de si mesmo; um estado-de-ser adequado, de si mesmo sujeito e objeto, é
oportuno, propício e benigno: a adequação e bondade são naturais do ser humano que bem se reconhece e se valoriza.

A junção unitária se enraíza no estado-de-ser; o valor atribuído aos outros depende do valor atribuído a si mesmo, e, o valor próprio e real, essencial, não é alienável nem sujeito a tributação sem degenerar: existe em si, no ato mesmo de ser; fenômeno experienciado, conhecido de imediato, mas inexplicável, junção do absoluto e do relativo. O valor magno é o sentido próprio outorgado ao estado-de-ser, o melhor sentido, a melhor conduta, a mais profícua, benigna, é o diálogo, a participação, o compartilhamento; o estar juntos, aprendendo a busca do melhor entendimento e vida social. Um objetivo certamente prático, eficiente e centrado, sem equívoco e bem argumentado, respeitando o imponderável para ser merecedor de respeito. A razão lúcida, exercitada sem crenças apostas, sem mapas prévios e sem tutela, é suficiente para revelar o que é, com adequação e máximo
benefício. Evidência demonstrada nas praças de Atenas desde os primórdios: a razão virtuosa, efetiva, justa e prudente, só pode ser natural. A confiança decorre na apreciação filosófica de que o exercício livre da razão leva à percepção e realização de uma ética positiva e humana, socialmente engrandecedora. Além de instruir saberes, o educador deve corroborar na educação de um ser humano de verdade e respeito, jamais um crente no absurdo, um fiel ignorante.

Será a história destinada e determinada a frutificar em paz; ou então a permanecer um reinado de formigas; ou ainda, algo intermediário, nem isso nem aquilo; quem sabe? Estimular a criatividade, o senso crítico, a imaginação, a intuição e o senso investigativo é tornar vivo, é criar sujeito, é vivificar em busca da verdade, da compreensão imediata e plena da presença, do seu mistério e
profundo respeito. É auxiliar o outro a se pôr no lugar, ética: fazer do mundo um reino cordato de paz e confiança. Estamos vivendo em dois planos: o plano da razão natural, primeva e filogeneticamente familiar, e o da irracionalidade social e histórica, moderna e pós-moderna. Por estar envolvidos, necessariamente, em planos conceituais, é impossivel apresentar-se com postura
neutra: não se pode pensar, falar, agir e memorizar, atitudes inerentes do ser humano, sem ser influenciado por discursos; ser lançado na tensão entre o poder da verdade comunitária, assentada em bases éticas e filosóficas, ou, das ilusões societárias, assentadas em ideologias, filocracias, vontade reativa e narcísea de poder.

A filosofia é a arte da manutenção da atividade humana no plano nativo, lúcido e juvenil, da razão universal; enquanto isso, a ideologia sustenta o plano e os determinismos de ordem histórica e social. Vivendo na cidade – espaço societário essencial -, envolvido por esses planos, estamos sempre deslizando entre um e outro. Estar ciente desses lugares e planos é o começo de uma busca destinada a construir, um espaço de verdade, onde possa morar a ética, ou um espaço ilusório, à
manutenção de um reinado de aparências e fatuidades excessivas. A estratégia mais sensata, ponderada, é ir em busca de um convívio de respeito; fazer desse momento uma ordem de paz: o amor que faz nascer, é o selo, a marca por onde guiar e orientar a evolução do processo, que, desta forma, pode vir a ser mais sensato e suave. A essência da educação real é ir ao centro, dar morada ao outro no contexto do encontro, como se fosse receber a visita de um amigo: isso é dar ethos. E dar
ethos é ser ético; é fazer incidir a luz da natureza sobre o outro, receber o mistério e presença de ser humano, aqui, agora, no ato do encontro, como se fosse abraçar um familiar. Não espelhar as máscaras atribuídas, impostas, ou usadas como fardas, papéis; mas, ser um reflexo profundo, como um lago nas cordilheiras, um Titicaca refletindo um céu de estrelas, um olhar de mulher-mãe compartilhando o mais real, profundo e sensato, o mais verdadeiro que a natureza colocou em nós da mesma forma e de modo diverso.

5. DA PRÁXIS FAMILIAR E COMUNITÁRIA À SABEDORIA FILOSÓFICA
HOMENAGEM A PAULO FREIRE

Paulo Freire (1921-1997), pedagogo e filósofo brasileiro, não tomista, não positivista, não acadêmico, distuingui-se por praticar uma filosofia viva, aplicando elevada compreensão, conceitos filosóficos primordiais, no âmbito da educação. Apesar de, vulgarmente, aparentado ao marxismo, reportando à burocracia socialista, é notório que o discurso de Paulo Freire é, na sua essência, poderosamente antitético aos herarquismos e jugos dos estados6
. Trata-se de um discurso estruturado em conceitos filosóficos essencialmente fundados no pensamento da antiga tradição libertária, humanista, transitando e dialogando em busca de se assentar na comunidade, desde os jônicos antigos, infância da filosfia, até os dias atuais. Para Paulo Freire, a educação societária típica, de estado, é burlesca como um carnaval ideológico, comercial, “bancária”: impositiva, normativa e taxativa. Aplicada como depósitos numa conta destinada a render juros, a alimentar movimentos de massa, coreografias dirigidas, orquestradas e sustentadas pelos supervisores, reitores e presidentes das escolas. Uma educaçao de alunos engavetados e enquadrados, classificados em graus e séries. Trata-se de uma cumplicidade interesseira, lucrativa: treinamentos, adestramentos e enquadramentos.

Os princípios subentendidos, latentes e patentes, na exposiçao teórica freiriana relativa à filosofia da educação, referem-se a manifestações e espaços filosóficos inconfundíveis, ilustráveis com conceitos libertários lapidares, imortais, tais como (apenas ilustrando): 1) uma vida não examinada não merece ser vivida; ou vive-se de acordo com o seu próprio juízo, ou é condenado a viver de acordo com os juízos e poderes alheios; 2) o estado-de-ser, é uma confluência de dois intelectos: o sensível e o racional; a razão lógica, por si só, não é suficiente à construção de uma sabedoria adequada; 3) hábitos e tradições servem de base a partir de onde reconstruir uma fortaleza de saberes, fundamentada na verdade, à luz da razão: não são modelos ou padrões fixos exigindo eterna reprodução; 4) os critérios mais exatos e profundos enraizam no Logos, no “espírito universal” refletido em cada pessoa, simplesmente, por ser o que é, natureza humana; critérios enraizados na consciência íntima, no juízo próprio, na aplicação de métodos para bem guiar a razão, aliados a um exame bem experienciado, humano – não apenas exercitado à luz de ideais e normatizaçoes.

Para Freire, a função magna do educador não é essencialmente cuidar como uma mãe ou um bom deus, como o fazem educadores inspirados por determinismos religiosos – tal cuidado, sendo o caso, não é específico, já é proporcionado, ou deve sê-lo, pela família e comunidade. Educar é, em primeiro lugar, estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório horizontal, compartilhado, de respeito e admiração mútua; em segundo lugar, confiante na razão, é debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico. A confiança decorre na apreciação filosófica, em que o exercício livre e criativo da razão leva à percepção e realização de uma ética natural, positiva, humana, desejável e socialmente engrandecedora. Em Freire, além de instruir saberes, se educa o ser humano, de verdade, com respeito, não, necessariamente, à procura de praticantes ou eleitores fiéis. Freire escolhe não trazer pautas pré-estabelecidas, dando valor a si mesmo, respeitando-se, e ao outro, como ser humano criativo, aberto ao diálogo, à participação e ao compartilhamento, aprendendo juntos, em busca de um melhor entendimento e vida social: um objetivo certamente prático e eficiente, centrado, adequado à instalação e manutenção de uma vida eco-humanista, filosoficamente apropriada. Nisso reside o seu mais alto e admirável valor: a essência do método, a ideia, que não é estranha aos filósofos: é a alma da filosofia jônica, grega, arcaica, pagã, campestre, pré-zoroástrica, indígena e tribal, perenal, comunitária. É um antídoto curativo ao que se faz, prega e arquiteta nas sociedades superestratificadas e conquistadas. Trata-se de um intento educativo criativo, filosófico, na tradição de Buda, que sai do seu castelo; na tradição socrática que maieuticamente extrai do vizinho verdades mais profundas, assentadas em posturas contemplativas e silenciosas, juvenis e criativas, frente à grandeza da natureza onde mais vale o amor e o respeito de que todas as certezas. Uma abordagem inscrita na tradição do hilemorfismo aristotélico, na tradição unitária de Espinosa, no impulso vivo e ativo da elevada autoestima de Nietzsche; Gandhi, e tantos outros, assentados numa firme tradição não violenta e fraterna: refletindo partes essenciais da ética; encontrando aplicações filosóficas verdadeiras, adequadas aos seus momentos e afazeres.

Aplicada a um método específico de alfabetização, a filosofia educativa freiriana nada perde da sua orientação e vigor, torna-se mais depurada, explícita, essencial, um método efetivo e simples como uma árvore: raízes, tronco e dois galhos grandes, desdobrados em inúmeros ramos. Para Paulo Freire, alfabetizar não pode se restringir aos processos de codificação e decodificação. Dessa forma, a alfabetização de adultos promove: a compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social – as raízes; a conscientização acerca dos problemas cotidianos – o tronco; a leitura/interpretação, veículo de contato e comunicaçao; a escrita, meio ativo de contribuiçao e integração criativa – os dois ramos principais dessa árvore freiriana do conhecimento. A Etapa de Investigação configura uma busca conjunta, entre professores e alunos, dos vocabulários, palavras, temas e conceitos mais significativos e usados na comunidade – respeitando o linguajar típico. Levanta-se o universo vocabular do grupo, através de interações, aproximação e conhecimento mútuo, conversas informais, participativas. Depois de construído, o universo gerador é apresentado, na Etapa de Tematização, em cartazes e imagens, onde as palavras são identificadas e conhecidas como símbolos gráficos a serem estudados através da divisão silábica – semelhantemente ao método tradicional: criando fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes. O passo subsequente consta da formação, e eventual descobrimento, de novas palavras, usando as famílias silábicas já conhecidas. Simultaneamente, ocorre a tomada de consciência, através da análise dos significados sociais, temas e palavras: esboça-se a criação de roteiros para os debates, os quais deverão servir como subsídios, sem seguir uma prescrição rígida. Nos círculos de cultura, na Etapa de Problematização, inicia-se uma discussão no intuito de significar os termos, na realidade do grupo de estudo. Busca-se recriar situações existenciais caraterísticas do grupo, inseridas na realidade local e fundante, devendo ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas conscientes sobre os problemas (locais, regionais e nacionais): uma postura conscientizada. Os alunos são desafiados e inspirados a superar a visão mágica, ideológica e idealista do mundo, caminhando de uma cultura intransitiva para uma cultura transitiva, crítica e ética.

6. O IMO ESSENCIAL DE UMA FILOSOFIA EDUCATIVA UNIVERSAL

Se a Filosofia da Educação representa, deveras, a aplicação do pensamento filosófico, por excelência, aos processos educativos, em busca de esclarecimentos ponderados e isentos, implica, ao iniciar o processo do entendimento filosófico, conhecer-se como fenômeno conhecedor, historicamente nutrido de conhecimentos imediatos resultantes da experiência vital, antes das compreensões mediadas pela cultura. Apenas a contemplação fenomenológica lúcida do estado-deser, no que tem de essencial, considerando as condições e necessidades existenciais basilares atinentes à condição humana, como experimentada e conferida à luz do bom senso, com sobriedade, garante a universalidade do estudo, a qualidade filosófica fundamental da busca. O ato educador só pode emanar de uma relação de admiração e respeito, frente à insondável criatividade e originalidade humana, de apreço à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser, de um método valorizando e fortalecendo, antes de tudo, a capacidade de escolha do aluno – escolha entendida como fenômeno intrínseco à complexidade e autoconsciência. O ato educador sensato, isento de sectarismos, liberto de afiliações e militâncias, leva em consideração, na análise, as ferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos decantados e louvados em estruturas culturais
e civilizatórias de tradição humanistas e libertárias, em sintonia com a máxima expressão e engrandecimento do estado-de-ser. Para que seja possível, adequadamente, observar, comparar, experimentar tudo a que se refere essa atividade de transmissão, compartilhamento e criação cultural que é educar, máxima flexibilidade, criatividade e lisura, são fundamentais. Exige-se, desde o início da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos peculiares e singulares, na busca de resultados e compreensões universais.

O H. sapiens não se humaniza sem uma forte transmissão cultural de saberes, sendo o saber mais fundamental: ter a oportunidade de aprender a reconhecer-se como é, não como uma escola, ou alguém, gostaria que ele fosse; ser respeitado na sua individualidade e criatividade, provido de liberdade cultural para trilhar novos caminhos, gerar formas imprevisíveis de cultura a partir do que se recebe da tradição. Realizar-se implica reconhecer-se como existencialmente adequado, livre de finalismos, utilitários ou teleológicos: um estado-de-ser vanguardista em harmonia material, energética e histórica com o seu meio, fenômeno atestado pelo simples fato de predominar como espécie, de existir. Progredir em busca de autodeterminação, ser responsável por si mesmo, ciente da sua natureza, das suas atitudes, comportamentos, sentimentos, pensamentos, em contato com os seus talentos únicos, singulares, exige receber e beneficiar-se de uma atenção peculiar, individualizada, além de um mero aconselhamento geral ou currículo mínimo. Uma profunda integração, congruente e confiante, torna-se possível ao desfrutar de uma receptividade e escuta atentas, tendo oportunidade de expor suas dúvidas, percepções e intuições. Estimular a expressão, definição do pensamento, das ideias, compartilhar entendimentos, elaborar juntos: é o método fundamental para se construir planos conceituais, filosóficos e educativos, renovados: superar os influxos ideológicos, a massificação e atomização, em busca de uma sociedade humana aberta, criativa e genuína.

A ética exige clareza, o ser humano apresentado a todos os pontos de vista, todas as formas de se conduzir como indivíduo, povo, tribo ou nação: a ética exige liberdade para escolher a organização à qual se afiliar, pelo tempo que quiser, que achar bom, proveitoso, criativo, enriquecedor. Haveria ensino mais essencial do que reconhecer no outro a casa universal onde reside a moral, a ética; apresentar-se como inquilino honesto e sincero da mesma casa; reconhecer-se eterno lugar de expressão criativa, respeito, abertura e amor; ser honesto na sua própria dimensão de ser? O dever do educador fiel, honesto, é apenas afirmar o que de fato conhece, apresentar mitos como mitos, lendas como lendas, suposições como suposições, dúvidas como dúvidas, crenças como crenças, verdades como verdades, conhecimentos como conhecimentos, nada ocultar. Apresentar-se como formador de opinião, contador de histórias a serviço de uma seita, tradição, porta-voz de um grupo ou nação, de uma associação, não é educar para ser humano; mas, ser sócio, associado, sectário, partidário: é condicionar e implantar no ouvinte as raízes do fanatismo. Cada qual nasce depositante creditado de bilhões de anos de experiências cósmicas, e, buscando, cada um poderá se conectar com a herança de muitos povos e nações, com a sabedoria de muitos filósofos; confrontando-se com escolhas das mais importantes: decidir ir além das suas tradições, superar e enriquecer o que foi dado e aprendido como se fosse por osmose, ou não; ser portador de um archote de luz viva e nova, essencialmente humana, ou então, ser veículo passivo de imagens e representações desenhadas por outros, em outros tempos, com outras palavras, outras classificações, resservir antigos planos conceituais, desadaptados, frios e desencarnados, como efluxos vetustos de outras épocas e tempos. A essência vital dos saberes práticos não é o seu conteúdo; mas, sim, o modo como se originaram no contexto triplo: necessidade, momento histórico e entendimento disponível. Essa interação observada, criticada e comentada, permite atualizar a capacidade de rever e repensar os saberes, ademais, de aprendê-los e fazer bom uso.

Educar não é podar ou treinar para um fim apontado, determinações consensuais, políticas – isso seria ‘inducar’ -, educar é germinar e alimentar o que vem de si, é ensinar um começo, um princípio, auxiliando o aluno a entrar em contato consigo mesmo, com a sua origem e natureza, com o mistério do estado-de-ser, força ativa, inteligente e sensível, experimentadora. Educar é evocar uma curiosidade aberta, disposta a desafiar todos os conceitos em terreno de igualdade, respeito, amizade e confiança: a confiança de ser portador de uma herança energética infinita, empática e simpática ao cosmos, universal; receptor e transmissor de uma cultura filosófica a atualizar e burilar: uma cultura necessitando ser reconstruída a cada nascimento, em cada sopro de vida. Educar é ensinar a habilidade suprema: ser humano, simplesmente; criatura universal, filho(a) do sol, das estrelas, do dia e da noite, do espaço-tempo, natureza. Humano é ser capaz de reconhecer em si todos os potenciais para paz, alegria criativa, ou para a guerra, o fundamentalismo mais sisudo e rígido: i.e., bem ser, ou mal ser; mas, capaz de escolher ser bom, porque ciente e apto a reconhecer e entender que ser bom é bom, que procurar ser feliz, eutímico, é o melhor estado qualitativo de ser possível num mundo onde tudo se transforma, refaz e recria, onde tudo surge para se dissolver e ressurgir, de outras formas, na imensa arquitetura, em movimentos criativos acontecendo em coordenadas e compassos além do entendimento possível a uma simples parte do conjunto.

O enquadramento adequado à aprendizagem de ser humano é o círculo aberto: no arranjo circular, não se pode colocar gente em excesso, massificar, diametralmente afastando integrantes tendentes a se tornar inaudíveis, menos visíveis. No círculo público, todos são iguais, sabedores de que compartilham os mesmos ciclos vitais, a mesma origem e destino, a mesma natureza: na estrutura circular, a vida é apreciada como se apresenta, inteiramente, nas proporções adequadas, na geometria universal das esferas. O mundo é um círculo aberto, de limites indefinidos, possivelmente infinitos, o horizonte contextual, igualmente: ocasionalmente, não se distingue se a experiência vem antes dos conceitos ou se os conceitos determinam a experiência. A dialógica gera inúmeras vias, revela infinitos potenciais, descortina uma inteligência imprevisível, jamais um caminho já traçado, para sempre: ela é criativa, resulta em saberes que se potencializam, ampliam e se aperfeiçoam como elaborados por gênios – o gênio que somos em conjunto, reconhecendo cada um como criatura genial. Todos são portadores da mesma complexidade, forjada na mesma universal herança e duração: todos merecem o mesmo profundo respeito, o direito de compartilhar o que é igualmente dado pela natureza onde o sol brilha para todos, onde a terra não é de ninguém, mas tudo possui, reabsorve e recolhe. O diálogo não revela, como através de uma força oculta, uma via privilegiada, alheia, repleta de conceitos fantásticos, impossíveis de proceder naturalmente, de se contextualizar e frutificar no plano onde se aplicam. A dialógica revela uma complexidade impossível de ser dominada, mitificada, corrompida, por um grupo coligado, uma seita, um único elemento: é a via da clareza e da virtude, o meio onde fazer valer e canalizar os saberes múltiplos e diversos de uma multidão de contribuintes individuais, testemunhas do real, impossíveis serem corrompidos 7: a corrupção resulta do secretismo, círculos fechados, instalados no topo das pirâmides exclusivas das ditas democracias contemporâneas, necessitando serem reconstruídas em reformas radicais.

O bom educador sabe que se aprende ensinando: a escuta criativa do aluno e as suas respostas imprevistas atestam ensinos vivos, abertos, verdadeiros, em harmonia com a força criativa e renovadora do sistema universal. Ser natureza é reconhecer-se sem fantasias redutoras, aceitar-se com gratidão, livre de imperativos imaginados e rígidos, aberto a mudanças; reconhecendo antes de tudo os limites da racionalidade, da essencialidade do conhecimento imediato, construindo e presenteando pelo ato simples de ser no mundo, do mundo, de pertencer por inteiro à natureza, como se percebe, mas, reconhecida inalcançável na sua grandeza e majestade. Nesse lugar, passagem entre dois infinitos distantes, passado e futuro, graça configurando possibilidade de destino, opções e escolhas, onde, por fim, nossos corpos e cinzas hão de alimentar os seres que nos nutrem: ser virtuoso, prudente, comedido, modesto, corajoso, justo, temperado e amoroso, é ser inteligente. Bem educar é escutar, ser atento ao outro, essencialmente: para isso, é necessário reduzir o que aparta a comunidade e natureza humana, principalmente, o nível dos projetos, das relações e da organização: na contemplação filosófica; na esfera econômica; na esfera política: um fundamento mítico, funcional e humanista, não deve separar o cosmos em plano divino e plano humano, mas reunir os planos, respeitando o mistério como acontecia na Jônia, antes do advento do zoroastrismo. Numa sociedade, onde predomina o mito separatista, um elitismo ou apartheid fundamental, segundo o qual, de um lado, as almas e os espíritos detenham o poder, a luz e a força, e do outro a matéria, os corpos, a carne, o denso e o opaco estarão separados, em frequência inferior, segregados em baixo, no escuro, tateando em busca de uma orientação, direção e destino, apenas advindo da clarabóia de cima: a vitalidade é refreada, reprimida e contida, em favor de um gerenciamento monopolista, piramidal, que sangra e destrói a existência, empobrece, ao ponto de miséria, a experiência existencial, semeando escassez e desordem. Apenas a elevação natural da autoestima existencial ou essencial, poderá gerar uma miríade de comunidade, assentadas na escala humana, onde o poder decisório de cada um seja igualmente considerado: paradoxalmente atomizando o poder para que ele seja uno na essência e no ethos onde radicalmente se assenta.

Bibliografia:

• O método de Paulo Freire”; texto de Sônia Couto Souza Feitosa como parte da
dissertação de mestrado defendida na FE-USP (1999) intitulada: Método Paulo Freire:
princípios e práticas de uma concepção popular de educação.
• Freire, Paulo; Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar; Editora Olho D’Água,
10ª ed., p. 27-38; 1993.

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Ensaio Essencialista 01 – Uma definição

Uma série de artigos definindo o Essencialismo como filosofia plena. O ensaio-01 é datado de agosto 2008; outros ensaios são encontrados nesta lista.
O trabalho “Est-ética” se localiza no item “livros” do menu de opções.

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Ensaio Essencialista 02 – Do estado-de-ser

Por emanar de UM sujeito pensante, a busca tende à unidade (…) divisões metafísicas não ocorrem a não ser simbolicamente.

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Ensaio Essencialista 03 – Folosofia Essencialista e Linguagem

O fluxo contextualizado de comunicação societária apresenta uma estrutura definida, genérica e peculiar, atinente, em sintonia e sincronia co-existencial com desenvolvimentos históricos, socioculturais e políticos definidos a partir de uma intuição metafísica.

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ENSAIO ESSENCIALISTA 04 – Conhecer

O problema gnoseológico e as formas de conhecer, identificando a natureza da voz interior – conceito grego de ‘daimónion’.

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FEDRO DE PLATÃO – um pronunciamento político

O discurso de Sócrates aos indecisos

1. Introdução

O Fedro é um discurso ímpar. É longo e acontece fora da cidade de Atenas, às
margens de um riacho, em um lugar campestre. Trata-se de um diálogo entre
Sócrates e um entusiasta e jovem ateniense, Fedro, por sua vez, amigo de Lísias, um
famoso doxógrafo, um sofista e fazedor de discursos (escrevendo ‘para’ em ‘função
de…’: escritor de aluguel!). O jovem Fedro, encantado com o discurso do amigo Lísias, resolve lê-lo para Sócrates, querendo compartilhar com o mestre um texto que ele achou interessantíssimo, igualmente, em buscas de uma opinião. Neste texto, lido por Fedro, Lísias elogia e favorece uma necessidade de bem gerenciar e calcular o amor, como fonte proveitosa de prazeres, evitando compromissos, enlaces e os excessos da paixão. Sócrates responde no sentido de mostrar que antes de falar de coisas óbvias, no caso, evitar os distúrbios incontidos da paixão, uma definição do assunto em pauta seria fundamental para não arriscar deixar ao lado coisas essenciais: introduzindo desta forma um longo parecer sobre a ‘arte de bem dizer’: a retórica. No decurso da caminhada ao longo de Rio Ilissos, uma lembrança,
aparentemente causal, motiva um parecer sobre os mitos. Portanto, esses três
assuntos bem definidos, amor, mito e retórica, fundamentam o diálogo, deixando
leitores, comentadores e editores incertos, imprecisos, a propósito da unidade, ou, do ‘fio discursivo’. Afinal, qual seria o justo subtítulo desse discurso: ‘do amor’, ‘da
retórica’ ou ‘da mitologia’?

2. Da adequação do diálogo

Afirmado por doxógrafos, esse discurso de Platão traz assuntos diversos que não parecem se relacionar, conferindo ao texto um aspecto coloquial e aleatório; o que
causa certa surpresa, não sendo Sócrates, tampouco Platão, dados a conversas
corriqueiras. A busca do fio diretor desse discurso, empreendida por diversos autores, gera uma plêiade de propostas criativas.

Perguntei-me se honraria o tempo dedicado, se valeria o empenho, estudar o Fedro
em busca da inteireza do sentido. Não sendo tão prudente como gostaria de ser, não
me passou pela mente a possibilidade de não encontrar o fio do discurso. Credito os
tradutores, portadores de talento e seriedade suficiente, de bem servir os textos que
traduzem assim como os leitores; apesar de algumas dúvidas relativas à tradução de
algumas palavras e expressões, referências e significados, entendo-os dotados do
gênio de bem transmitir o justo significado das frases. Ademais, credito os antigos,
pioneiros dessa venturosa epopeia filosófica, de diligência suficiente para não deixar o significado dos seus textos depender da interpretação de um ou outro vocábulo, de garantir o reconhecimento do sentido nas grandes linhas discursivas, na trama geral e circunstâncias, um pouco como nesses afrescos em que a falta de alguns traços não detrata a completude das imagens e a visão da beleza.

Veio-me à ideia que na autoridade de um diálogo milenar versando sobre a clareza
retórica e a perfeição da união amorosa, se a coordenação harmônica das partes não
se denotava de imediato, é, certamente, porque havia sido ofuscada, por prudência, ou, quiçá, exigiria para se evidenciar um pressuposto inerente à cultura de outrora,
uma ideia geral, antes presente no arco dialético, hoje subsumida em outros
entendimentos, encoberta ou desaparecida. Discursar para louvar e exemplificar a
retórica como forma inteligível, instrumento necessário da palavra que almeja chegar ao essencial, outrossim, como outro motivo do discurso, apontar o amor como élan em direção à unidade divinal, mística juntura visionada como reciprocidade perene da alma e do corpo, correlaciona em harmonia o verbum e o moto num fio discursivo que, sendo congruente, não pode se romper e que deve conotar a sabedoria justificando o que é.

Portanto, ciente das possíveis dúvidas referentes ao pleno sentido do discurso, após
supervisar o texto e conferir os três temas evocados na narrativa: o amor – nas suas
várias dimensões e facetas; o mito – como algo que se aceita com piedade, ou de que
se duvida buscando interpretações prosaicas, ou, ainda, que se coloca entre
parênteses em busca de conhecer a si mesmo; a retórica – a oratória nas suas
diretrizes e ordenamentos profundos: nada mais simples de que me perguntar, na
forma de uma charada: em que possível universo tais assuntos – o amor, o mito e a
retórica – configuram, em conjunto, os fundamentos necessários das narrativas?
Em que prática cultural encontrar, enlaçados, esses temas: o amor, as imagens
sagradas e o verbum? Ademais, a peculiaridade desse discurso, que acontece fora
das muralhas da cidade, num cenário campestre descrito por Sócrates como
belíssimo e acolhedor – com um plátano, símbolo de renovação, cuja copa recobre os visitantes de um temperado sombreado; um agnocasto florido e perfumado, símbolo da castidade; as margens refrescantes do riacho e uma fonte de águas claras – me faz rememorar as cantigas dos poetas que, em tantas odes, louvam a natureza como uma catedral: o riacho, emoldurado por margens de relva, vem ser a nave que leva a esse recanto sagrado como um altar, e, à luz do zênite, a sinfonia das cigarras verte a glória celestial nesse coro verdejante.

Na imaginação surge a imagem de um templo; nesse transporte, quase um delírio,
de imediato, Sócrates aparece como sacerdote universal advogando a causa do amor
nobre, da virtude e da conduta reta; um hierofante centrado na abóbada do mundo,
embora, vivendo no interior das muralhas dessa cidade onde, cidadão acusado de
subverter a ordem instituída, deverá ser condenado a beber cicuta.

Desde o início, o discurso é destinado a transmutar os passos cotidianos, os passeios citadinos, em epopeias e pegadas de gigantes: – “Meu caro Fedro! Para onde vais e de onde vens?” 227a. A essa abertura vertiginosa corresponde um fim encurvado e
recolhido no altar do próprio coração, onde, numa prece final, evoca-se uma
comunhão espiritual:

SÓCRATES: – Divino Pã – e vós deus outros destas paragens! Dai-me a beleza da alma, a beleza interior e fazei com que o meu exterior se harmonize com essa beleza espiritual. Que o sábio me pareça sempre rico; que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato possa
suportar e empregar! Teremos mais alguma coisa a desejar? Creio que pedi o suficiente. 279c

Fedro, como se fosse um fiel frente a um sacerdote intercessor, responde a Sócrates:
FEDRO: – Pede para mim a mesma coisa, pois os amigos tudo devem ter em comum. Sócrates, quem sabe, talvez resignado com a atitude delegante do jovem, fecha o diálogo com um “vamos, então!” que ressoa no bosque como um “que assim seja!”.

Quem poderá negar que esse diálogo possui uma eloquência religiosa, como uma
homilia, uma missa paisana, pagã? Não há dúvida: trata-se de um pronunciamento
devocional, um oratório engastado num diálogo arejado e crítico, evocando uma
conduta e uma convicção, um manifesto com graves repercussões individuais e
sociais, um apelo a favor de uma purificação e renovação, uma profissão de fé! Fedro de Platão é uma exortação, um oratório, que por necessidade deve evocar o amor e a poesia mítica dentro de uma retidão discursiva, ou doutrina, incluindo perspectivas metafísicas e mitologias agregadas – nisto, configura-se a unidade teológica-política do diálogo.

3. Da polêmica

Sócrates, aprendendo-ensinando aos que ousam pensar por si mesmos, demonstra
um projeto existencial e advoga uma política cuja meta não harmoniza com o apego e a sede de possuir e imitar que impera na cidade democrática. Mas Sócrates não pode falar das tribunas onde será condenado; às medianias oportunas exortadas e
obedecidas sem exame ele prefere a dialética do provável e orienta e estimula os
aspirantes a bem dirigir seus próprios pensamentos e passos. Divertido, ele escuta e
fala com Fedro como se escuta e fala a um jovem incauto por não saber estar
evoluindo entre dos grandes atractores que condicionam uma aventura delicada.
Uma epopeia onde se é chamado a fazer seus votos, seja a favor de uma vida sub-
rogada, apegado a coisas efêmeras e mutantes, poderes ilusórios, ou, diversamente,
em prol a uma liberdade plena por reconhecer que as raízes do ser mergulham no
ilimitado e perene, além da morte e do nascimento, espaço sagrado onde as
antinomias se reúnem num todo misterioso que reabsorve as rupturas do intelecto
dogmático no grande círculo luminoso e dialógico do saber.

Como, nesses atos-de-ser antagônicos não acontecer dois ordenamentos, duas
maneiras de trilhar as rotas, metas míticas, atrações, desejos e eloquências distintas? Como não acontecer diálogos acirrados onde se conotam o compromisso dos oradores, apontando e batalhando direções opositivas? Intrínseco à natureza
variegada dos ânimos, pontos de partida similares demarcam direções e lugares de
chegada diversos, polêmicas que se explicitam nessa trina de assuntos definidos no
Fedro. Não será típico das democracias o advento de um discurso dominante e de
uma massa correspondente de partidários apoiando os demagogos, e, ilhados, uns
poucos excêntricos, visionando luzes além das brumas? Interpolado, um grupo
menor de indecisos que não discriminam, um povo seduzido que repete frases que
não compreende, encantado pelos sons e rimas das orações, indefinidos que não se
orientam, girando, presos no interior dos muros da cidade como peixes enredados.

Em meio a essa multidão, prudente e irônico, dialogando e examinando sem
exortações frontais, Sócrates constrói novas relações, discrimina, separa e ajunta
conceitos em diretrizes que ele sinaliza e que bifurcam, insuflando no ar da cidade
um renovado ânimo deliberativo, um vento que norteia. Por ser o amor ao Belo seu
assunto predileto, como se fosse um estrangeiro nessa cidade prosaica, Sócrates
parece falar desse lugar paralelo, à margem das estradas, dessa beira-rio
esplendorosa cuja geografia conhece como a nascente conhece a criatividade
transmutativa do riacho.

FEDRO: – Tu, porém ó homem excêntrico, és o homem mais extraordinário que já se viu. Com tuas palavras, dás a impressão de ser um estrangeiro que necessita de um guia, e não um
cidadão da capital. Pouco sais da cidade e parece que nunca vais para fora dos muros. 230d

Imenso, mas irônico, o homem mais sábio de Atena, simplemente responde:

SÓCRATES: – Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Regiões e árvores, entretanto, nada desejam me ensinar, somente os homens da capital ensinam-me.

4. Definição metafísica e dialética decorrente

Nesse diálogo, Sócrates leva a intuir e reconhecer que um conceito filosófico
profundo, essencial, conhecido ou ignorado, delimita potenciais fundamentais, vitais, e induz uma praxe, um modo de viver correspondente; que seja introjetado sem exame, deturpado por contágio com um âmbito societário cuja multiplicidade
demográfica, cultural, ritos dominantes, convenções, intensidades políticas e
urbanísticas compelem, ou, bem examinado, escolhido com autonomia e
responsabilidade, resultante em atitudes e posicionamentos aparentando
inconformistas, excêntricos e transgressivos em relação ao que é desfocado e vulgar.

Tal eixo de perspetiva – seja aburguesado, acompanhando as expressividades e
entendimentos histórico-culturais dominantes e populares, simbolizados pela polis
democrática, murada e protegida; seja outro, seguindo em direção ao que é essencial, poético e inspirador, acompanhando as águas puras de um riacho em busca de margens bucólicas e da inspiração das musas – encontram-se esquadrinhados no
Fedro, onde se teoriza e se exemplifica esses dois programas existenciais divergentes, na tentativa de delimitar e responder ao questionamento subjacente a toda busca filosófica: – “como viver, justamente, em harmonia com o Cosmos e em meio aos seus pares?” – logo, evocando as argumentações necessárias e posicionamentos que deverão considerar as coisas da razão, do saber e da visão – retóricas, amores e mitos. Um triplo ato e apreço da razão: o entendimento justo, a visão clara e a definição precisa do que é aspirar, ou amar, conjuntamente, configuram o conteúdo e o moto fundamental desse diálogo. O que se discute e demonstra é que um posicionamento existencial é centrado ao redor de um entendimento, de uma visão e reconhecimento do que se é, explicitados no que se vê, no que se ama e no que se fala1: o que resulta em modos de ser e viver, de fazer e ter, de existir, urbi et orbi, que poderão examinar-se e reconhecer-se como sábios ou ilusórios.

O ‘grau de memória’, abertura às inspirações vindo das musas, filhas de Memosina, o reconhecimento intuitivo, sensível e qualificado, inspirado e visionário, referente à relação, amorosa, entre a alma e o mundo, ou, nos nossos termos atuais: o
reconhecimento da reciprocidade testemunhada e vivida do mistério consciência-existência, exige e comprova uma direção clara e precisa do entendimento, isto é uma retórica enraizada em perspectiva filosófica e poética profunda, que se adequa a um modo, postura e conduta apropriadas.

Talvez, uma das razões da sabedoria de Sócrates resulte em evocar a natureza
humana como totalidade criativa onde se coordenam corpo e ânimo numa
reciprocidade que não se delimita. Dessa forma, ele amplia o verbum diretor do
estado-de-ser, agregando as noções de mistério e de fenômeno num círculo infinito
cujo centro é o momento; no caso, o aprumo zenital desse lugar bucólico marcado
por esse grande plátano. Em poucas frases, o extraordinário ateniense engloba o
Cosmos no arco do discurso, do começo ao fim, dos azimutes da natureza-ser, fresta
mais misteriosa e genésica, ao termo mais atual e responsável da homo-sapiência.

Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se, e é, para as demais coisas movidas, fonte e início de movimento. O início é algo que não se formou,
sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade

Entende-se que a existência, seus caminhos, como um ser vivo que se locomove, uma narrativa, um discurso, bom ou ruim, criticável e corrigível, acontece respeitando ou desrespeitando o Mythos, contidos numa visão, numa ordem, num Logos, que justifica um Ethos, bem ou mal. Bem viver exemplifica uma relação orgânica, sistêmica, uma manifestação onde as reciprocidades, justamente ponderadas, apontam uma unidade essencial, uma dialética cosmo-existencial que transcende os assuntos corriqueiros e prosaicos da cidade, e, onde: amar ou não amar o outro, qualquer que seja a forma, é amar ou não amar a si mesmo, entender e respeitar ou não a experiência existencial no que oferece de essencial.

5. Da necessidade e do valor dos mitos

Como poderia num discurso onde se destaca a justa conduta do indivíduo virtuoso,
desprezar a importância do mito, espaço poético e espantoso onde se diluem e se
unem imaginação própria e coisas celestiais? Não se faz uma retórica, justamente apontada, sem sinais míticos que são postos avançados, bandeiras dos que trilham os caminhos do Olimpo.

Ao longo do riacho que percorrem em busca de um sítio para conversar, surge uma
observação sobre a veracidade de um mito lembrado em referência a um lugar ao
longo dessas margens – o mito de Bóreas que evoca o espirito do vento, simbolizando o sopro da força criadora. Sócrates responde que se ele fosse, como alguns doutos, destituído de respeito relativo aos mitos, tentaria interpretar essas histórias em termos concretos, associá-las a coisas racionais e lógicas, a eventos históricos; o que seria, talvez, interessante, mas, como os mitos se conectam à totalidade da mitologia, exigiria um esforço impossível, improdutivo. Procurar dar verossimilhança a esses eventos usando as logicidades corriqueiras denota uma sabedoria um tanto obtusa, anacrônica, que não auxilia a apreciar a vida como convém. Ainda caminhando ao longo do riacho, Sócrates demarca em poucas frases os grandes mitos vertiginosos, de apreço universal, dessas fábulas de campanário que referem a uma plêiade de deuses – reis e rainhas ancestrais ligados a comunidades e tradições regionais – que devem ser respeitados, mas que não demandam uma inútil aplicação da inteligência dedicando-se a eles mais de que a si.

Sócrates pondera a relação do mito e da razão de uma forma sutil, demostrando
considerar a veracidade dos mitos, não sendo incréu, estando ciente de que os relatos da tradição serão certamente ofuscados em fábulas, e, que investigar a si mesmo a ponto de conhecer-se, como essência, isto é, como possível participante de um misterioso destino, é tarefa, certamente, mais importante. Os conceitos ‘apreciar’ e ‘lazer’ aprecem no discurso, evocando opções existenciais que valorizam a liberdade, a atividade desinteressada, criativa e livre de metas prosaicas. Epitomando a visão mais condigna, no lugar e tempo em que vive, de imediato, ele mira o mistério perenal e agrega o mito a si mesmo abrindo o domínio interior e privado à mais alta intuição. Diz ele:

Ainda não cheguei a ser capaz, como recomenda a inscrição délfica, de conhecer a mim próprio. Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha
a examinar coisas que não me dizem respeito. Não me interessam essas fábulas e conformome, nesse sentido, com a tradição. Não são as fábulas, que investigo: é a mim mesmo. Talvez eu seja um animal muito mais extravagante e cheio de orgulho de que Tífon; ou, porventura, um animal mais pacífico e menos complicado, cuja natureza talvez participe de um misterioso
e divino destino, mas que não se enche com os fumos do orgulho…

O sábio não desdenha as intuições e histórias mais notórias que sombreiam e
enriquecem as aporias rigorosas de uma orla utópica, como franges hibridas, musgos nascidos das relações poéticas entre as clarezas da razão e as sombras do incógnito: lugares onde se pode projetar esses lances hipotéticos da alma nas profundezas dos potenciais.

Sócrates se envolve em diálogos surpreendentes e enriquecedores ao apropriar-se
dos não saberes dos seus interlocutórios – “ainda não sei”, “ainda não cheguei” –
expressando-os na primeira voz em contiguidade e sintonia com o seu conhecimento terminativo da insuperabilidade do mistério essencial; um ensino e saber singular referido pela pitonisa como: – “ele sabe que nada sabe”.

6. Retidão e retórica

No Fedro de Platão, examina-se as qualidades do amor, dos mitos e a arte da retórica, discute-se o ato diretor do bem querer; a conduta que convém frente ao exercício do desejo; a arte de bem se conduzir frente à necessidade de agir em busca de satisfação. Sendo ensejo geral a busca da felicidade, configura-se uma praxe de magnitude fundamental, tanto no que refere a um indivíduo quanto a todos os que pertencem à comunidade, à polis. A felicidade de um indivíduo não pode ser a infelicidade de outro por ser a amizade e o respeito, a paz e a harmonia, componentes necessários do estado feliz; o ensejo, sendo geral, determina um destino de consequência societária, ou seja, um programa, uma política em busca do bem comum.

Tanto quanto não se separa a inteligência dos seus agregados intrínsecos, a razão, a
capacidade de apreciar o belo e a visão, nada se compreende (e empreende) sem
motivações e desejos. Élans diversos abrem um leque de opções, de simples gostares voláteis a amores intensos cuja natureza apega ou liberta na dependência dos discursos que se configuram examinando e dialogando. Como avaliar a conduta de um indivíduo, ou de um povo, com retidão sem comtemplar, ao menos, essa trina de aspetos fundamentais: as apreciações e gostos que se cultivam; a racionalidade e congruência das buscas e discursos; junto à visão que norteia o destino e os fins – isto é aquele que legisla, ajuíza e guia? Nestes termos, seria possível examinar uma conduta fundamental sem falar, conjuntamente: da expressão do desejo, do amor; da razão que existe dita nas prosas bem ordenadas, e, das imagens e paradigmas que norteiam, dos mitos e das visões, símbolos e significados que conectam o efêmero à trama que perdura?

Não será essa metáfora da carruagem uma imagem concisa desse condutor que dirige o discurso de acordo com as visões, razões e apreciações, tentando equilibrar o veículo entre dois atratores opositivos? Não será essa imagem da retórica como um animal ou corcel de boa constituição, com cabeça, tronco e membros, uma excelente representação da vivacidade do orador quando opera na primeira voz, enuncia construções e definições bem norteadas, apontando e marcando o rumo do amor?

Animado de vida e luz intensa, imbuído de entusiasmo e de grandes virtudes,
Sócrates não lança ao ar uma palavra, sequer, um signo, que não seja uma seta
apontando a meta. Uma supervisão desse diálogo, como se contextualiza e acontece
nas beiras do Rio Ilisso, ilustra e conota o posicionamento político exemplificado e
justificado por Sócrates e reportado por Platão. Os amigos se dirigem para fora de
Atnena, cidade cerceada de muros, conquistada por plutocratas servidos por
demagogos que reduzem a arte de amar a uma praxe econômica e prosaica em busca de máximo benefício e mínimo desgaste, exaltando o amor aos bens, ao conforto, fama e poder, ao detrimento do amor ao que é Belo e verdadeiro. O riacho que Sócrates e Fedro margeiam contorna a cidade em direção a um prado inspirador, lugar dedicado a Achelous, rio-deus da abundância, simbolizando um processo purificatório em busca da riqueza dos sábios. Mas Fedro traz escondido embaixo do braço esquerdo um discurso leviano que ele imagina digno de nota, edificante. Inicialmente, prudente, às vezes irônico e ambíguo, conhecedor dos embates e da corrupção reinante, mas vivendo na comunidade, Sócrates, atendendo a vontade do amigo empenhado em memorizar essa peça de oratória que ele julga magnifica, não
desconstrói o escrito de imediato, mas clareia com luz baixa, velada, aquele que pode merecer alguns comentários, sem criticar com rigor o soberano demo citadino
manifesto no texto de Lísias. Logo, no cenário, uma via conectando a cidade murada e o campo, no enredo, discutindo o bom senso e significado do desejo, aparecem, fortemente esboçados, dois argumentos: um discurso elevado e profundo, exigindo sabedoria, e, uma vereda inferior e vulgar, rabiscada num discurso insensato. Sócrates, o dialético, encarna o sábio, e, Lísias, o logógrafo demagogo, o arauto defensor de uma política de posses e poderes, mas destituída de amor. As condutas, princípios e consequências e das duas vias, são elencados no diálogo, deixando a cada um a responsabilidade de escolher e seguir um ou outro posicionamento.

Na resposta inicial, envergonhado, a cabeça coberta simbolizando estar proferindo
um parecer a meio mastro, de pouca inspiração, atendendo o pedido insistente do
amigo, Sócrates, acompanha os arrazoamentos de Lísias, resgata o senso comum
contido neste discurso que se limita a criticar a paixão insensata e elogiar as praxes
da razão, pretendendo abordar a temática do amor, de Eros.

SÓCRATES: – Como? Será preciso que o discurso seja elogiado por mim e por ti? Temos de afirmar também que seu autor disse tudo que era necessário, que cada expressão é clara, bem
elaborada e compreensível? Seja, farei isso por amizade para contigo, se bem que eu, na minha incompetência, não tenha notado tal coisa.

Uma vez satisfeito a contente o desafio de Fedro, tendo respondido e enfatizado os
conceitos sobre o amor, ou Eros, ditos e conotados no discurso de Lísias:

“(…) Quando o desejo, que não é dirigido pela razão, esmaga em nossa alma o desejo do bem e se dirige exclusivamente para o prazer que a beleza promete, e quando ele se lança, com toda a força que os desejos intemperantes possuem, o seu poder é irresistível. Esta força todopoderosa, irresistível, chama-se Eros ou Amor”.

Irônico, Sócrates se levanta com a intenção de fazer o caminho de volta para a cidade.
Fedro o interpela sentindo que não havia dito tudo sobre o tema; como se caindo em
si, recebendo de repente a intuição do seu daimónion, Sócrates esclarece que, com
efeito, como havia falado, apenas elogiando a prudência, condenando o erotismo
apaixonado, não esgotava de fato a temática evocada por Eros, ou Amor:

SÓCRATES: – Trouxeste-me um discurso horrível, (…) em certo sentido, ímpio. Pode haver coisa mais horrível? (…) Já não crês que Eros é filho de Afrodite, e como tal é deus? 242d
FEDRO: – Sem dúvida. É o que diz a tradição.
SÓCRATES: – Mas tal fato não foi mencionado (…). Ora, se Eros é, como de fato é, um deus ou um ser divino, não poderá ser mau. (…) Esses discursos pecaram contra Eros. Além disso, a
sua tolice é cômica (…) enchem-se de importância porque conseguiram iludir alguns ingênuos e ganhar os seus aplausos. (…) Antes que venha a sofrer pela ofensa feita a Eros tentarei fazer a minha palinódia, mas com a cabeça nua e não, como antes, embuçada. (…) não foi verídico este discurso ao dizer que, apesar de se ter um amante, é prudente conceder mais favores ao não apaixonado, porque aquele é louco, enquanto que este possui discernimento. Isto seria verdade se a loucura fosse apenas um mal; mas, na verdade, porém, obtemos grandes bens de uma loucura inspirada pelos deuses.

É quando o sábio desenvolve a contente o seu argumento: o amor verdadeiro,
entusiasta, deve ser orientado pela filosofia. O que justifica uma vida lucida é a
prática do amor, que se exercita plenamente quando o estado-de-ser se orienta
através do uso atento da palavra, ou retórica, que deve auxiliar a discernir e definir
os objetos enunciados nos diálogos, diferenciar o justo e virtuoso do que não é, ser
instrumento e veículo dessa busca. Sócrates encarna o filósofo exercitando um dever: critica e corrige a temática, esclarece os conceitos, as palavras diretoras e os
pensamentos, para que os que queiram escutar e apreender possam-se orientar em
direção ao justo e verdadeiro, reconquistando um nobre destino, individual e
comunitário, em prol a uma renovada dimensão política, ou civítica, que introduz e
aponta os caminhos da harmonia e do Belo.

7. Conotações decorrentes

Quem sabe discursar é responsável, dotado de uma inteligência suficiente para
compreender e reconhecer o que diz, orientar o seu discurso, reconhecer a que causa está servindo, se é verdadeira e virtuosa, ou não. Quem dita um discurso sobre o amor e não encaminha o ouvinte ao Belo e sublime, mas a um rateio de bens efêmeros, poderes e prazeres imprudentes, sabe em prol a quem trabalha e por quais razões, logo, não se compara em virtude, tampouco em poética e retórica, a quem exercita um diálogo, ou faz um discurso, inversamente direcionado e tenta guiar seus ouvintes na busca das grandes realidades existenciais, da verdade e da boa vida, bem examinadas.

Os que na cidade discursam em favor de apoio e aclamação, não admiram e/ou
abominam os discursos por sua capacidade de veicular a verdade ou a mentira, mas
por reconhecerem o grande valor da oratória soberbosa em aumentar, quiçá diminuir o poder de quem fala; poder consagrado na aprovação populista que se aduba e exacerba em lisonjas, elogios e críticas bem distribuídos.

Se os estadistas receiam fazer discursos não é por temerem o veredicto da
posteridade, serem considerados sofistas, demagogos ou logógrafos a serviços de
interesses vulgares e prosaicos, mas, sim, por recearem discursar sem a astúcia e
demagogia suficientes para garantir a aprovação das massas, votos para aumentar
seus poderes e haveres. Receiam não serem capazes de encher o povo de esperança
para que seus gritos de aprovação alicercem a sua sede de conquistar mais medíocres poderes: em breve, receiam não serem dotados da astúcia necessária para produzir discursos sedutores e vistosos, parecendo virtuosos e profundos, mas avolumando o mercado da vulgaridade e mediocridade política, ofuscando a verdade e o essencial.

Quando os oradores envolvidos nesses afazeres e lutas se criticam, acusando-se de
meros repetidores de discursos sem substância, não apontam os abusos e as
deturpações corriqueiras das palavras midiatizadas afastadas da verdade e alugadas
a favor de causas escusas, mas, através dessas detratações e elogios públicos
negociam alianças e ataques de acordo com uma praxe competitiva e sovina cuja
meta é vencer e conquistar, ganhar aprovação e poder: fama. Cercados de aliados
eloquentes e populistas, como ovelhas em torno de uma mina de sal, os governantes
mais soberbos amam proferir discursos, sabem que as massas adoram os que
demonstram ascendência e poder, bajulados por um séquito de seguidores satisfeitos, catalisam promessas de prosperidade para a maioria dos votantes.

Será que nesses enredos típicos das cidades dirigidas por plutocratas e tiranos
carentes de filosofia, será necessário examinar cada um dos discursos para decidir se é bom ou mau? Ou, simplesmente, perceber o contexto em que são ditos: com que intenções e propósitos são elaborados e para quem servem? Sócrates ensina a Fedro e o exorta a reconhecer que não é necessário examinar cada frase e estilo de cada discurso para saber o que valem, basta não se deixar levar pelo “canto das sereias”, reconhecer a fonte inspiradora das falas, para onde se dirigem e a favor de que ou de quem – a retórica. O mito das cigarras exorta que não se deve esmorecer ao meio do dia, deixar de aproveitar a hora e o saber disponíveis, permitir o fastio e necessidades prosaicas impedirem ou atrasarem o exame lúcido dos assuntos dignos de nota à luz da filosofia mais inspirada e mais alta. Desprezar e não entender o sentido dos mitos, confundi-los com fatos históricos distorcidos, arranca a sabedoria do mundo, cega. Evidente, bem sabem os artistas, poetas e filósofos dignos: o sentido profundo da existência só pode ser intuído na contemplação intuitiva das formas profundas, ilustradas e adaptadas ao entendimento dos homens e das suas culturas – os mitos. Na retórica vulgar, de vocação demagoga, se escreve e se fala pactuando em conformidade com a força política das opiniões, não de acordo com o saber genuíno e autêntico.

As escrituras e falas que se condenam são as que mistificam os leitores e ouvintes
elevando à esfera mítica os feitos dos demagogos e tiranos entronados; é a oratória que se usa para desacreditar a graciosidade suprema do entusiasmo amoroso, galgar poder e recursos para jogar lama e arreia nas causas essenciais e ofuscar os que sabem, fazer as demagogias parecerem argumentos necessários. Acusa-se a escrita sem inspiração, que encobre as verdades que se reconhecem ao conversar com crianças, intuindo e admirando a beleza do dia e das flores, simplesmente, sabendo escutar o canto das cigarras – o Mythos leva Eros na retórica do sábio.

8. Deixando as margens do Rio Ilisso

Sócrates versus Lísias: duas vias, duas perspectivas, modos e intensidade de viver
contrastantes: o Fedro define uma encruzilhada, discute duas orientações, cujos
assentamentos na comunidade demonstram as políticas que acontecem e levam a
uma forma existencial reta, verdadeira, de acordo com o fluxo vital, ou a uma outra
que é falsa ou contrária.

O diálogo socrático, filosófico, é um ato e uma via, um movimento efetivo que amplia e purifica a lucidez dos dialogantes atentos até à realização do estado-de-ser como verdade, amor e união. Assim sendo, nas circunstâncias políticas que levariam o orador mestre à condenação e morte, sentenciado por desviar os jovens das obediências e cultos da cidade, o diálogo se carateriza com um ato político por
afirmar ser o poder de exercer a virtude e bom governo assentado no coração do
sábio e não do tirano: ser rico é ser sábio. O significado unitário do discurso se
carateriza e se afirma como um ato político em defesa do governo dos sábios; um
diálogo prudente, mas, nessas circunstâncias democráticas, transgressor.

A virtude fundamental atribuída ao mistério de existir, manifesta uma intuição
metafísica, um eixo de perspectiva e coordenadas decorrentes, configurando um
posicionamento existencial – e civilizatório – fundamental, logo, uma política,
instituidora de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida digna. À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural, previsto na bondade e no valor que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e potenciais do estado-de-ser.

9. Considerações teológicas e políticas

O fenômeno existencial não se contextualiza como ‘Ser’ soberbo, dominador, existe
como estado-de-ser, igualmente, ser-e-estado e ser-em-estado, identidade unitária
e paradoxal que busca realizar e afirmar sem desvios sua forma original; e, por
imanar da essência, quando possível, supera o debate determinístico em iniciações
vanguardistas, intuições estéticas e éticas. A configuração existencial condiciona um
dever sem impor, uma conduta sem obrigar: um ordenamento consagrado na
apreciação benevolente e sábia do dado-a-ser, consequente e virtuosa expressão
ética e civítica.

É ilusório e vão, levado por idealidades ou enquadramentos culturais, procurar a
essência em arquiteturas subjetivistas que negam a natureza do estado-de-ser, ou
que desviam da coexistência. Projetar o motivo, enredo e eticidade da própria
história em campo alheio e sobre-humano, imaginar resoluções contidas em teorias
que não sintonizam com o estado-vital que se experiencia, caracteriza um desvio
excêntrico. Neste deslocamento metafísico-existencial enraíza a quase totalidade da
patologia. Uma resolução, que não seja apenas uma relaxação compensadora,
implica numa intuição filosófica, inspiração decantada em generalizações sóbrias e
precisas, abstrações e conexões estéticas que reconciliam a harmonia ser-e-estado
desvelando uma unicidade poética e paradoxal.

Frente a uma intuição desfocada relativa à identidade e origem do estado-de-ser,
pretender compensar um possível sentimento ambíguo, talvez amedrontado, por
um escapismo consolador inscrito em afirmações opinativas, políticas e educações
dominadoras, avilta mais ainda a razão e a liberdade. A história e historicidade dos
indivíduos demonstram a patologia e amplidão dos sofrimentos decorrentes desses
desvairos. Não reconhecer a sua afiliação ao Belo, não aceitar o que se é, como se
manifesta, força vital cocriadora, vontade codeterminante do destino, infirma e
desresponsabiliza do ponto de vista estético e ético, transformando potenciais
proativos de veracidade e adequação em desinteligência, minusvalia e padecimentos.

Uma nobre realização ética e civítica exige o reconhecimento da integração cosmoexistencial: isto é, a) um fundamento visionário, mítico, senão suficiente, frente à necessidade das outras virtudes: b) afirmação proativa e dessa unicidade, amor fiel, e, c) retidão teórica, retórica justa. Uma integração que preza e valoriza a adequação do estado-de-ser se elabora e amadurece no cultivo da harmonia. Nesse fenômeno, os potenciais de realização, como processos progressivos e evolutivos, gravitam em torno das relações que se estabelecem e discriminam entre si e o que é outro. Relações sintônicas facilitam esse processo e entendimento conjuntivos, relações opositivas o dificultam, evocando desvios educacionais e políticos.

Pertence aos potenciais do estado-de-ser adquirir uma ciência progressiva e bem
situada de si, Ethos: o que implica o judicioso cultivo da razão, circunstância que
leva a reconhecer o dado-a-ser como evento onde colapsam identidade e a origem
no fenômeno autopoiético em si – Logos e Mythos. Generalizando maximamente: a
impossibilidade de estabelecer uma distinção ontológica clara entre o que é ‘simesmo/interior-em-si’, e o que é ‘outro/coisa-em-si’, implica uma situação
cognitiva-existencial paradoxal, um fenômeno e aporia que tendem a se agigantar e
universalizar em inspirações sensíveis e vanguardistas, intuições estéticas,
configurando-se uma relação/realização mítica.

Uma intuição mítica-metafísica, de alguma forma, consagra e regimenta essa tensão
existencial em duas possíveis orientações: a) uma conjunção integradora e essencial, mística, cujo significado e valorização operam ao alcance do estado-de-ser, no interior-em-si, ou: b) uma ruptura que degrada essa relação confluente, projeta a essência num ignoto hipotético, deixando o estado-de-ser em posição de exclusão e menoridade em referência ao significado, dignidade, ou mérito da sua natureza profunda. A intuição metafísica fundamental decorre de uma dupla evidenciação: a) da absorção mimética e irrefletida do padrão cultural, formalizado e inscrito em sentimentos, mitos, retórica, ritos e etiquetas, urbanidades: em teologia-política; e, b): da revisão filosófica, tributária de uma busca, de uma educação: uma pedagogia, e política educacional, revela ser decisória para uma edificação consciente e elevada apreensão do estado-de-ser que se experiencia.

Vigemos como atualidade radical, desvelando uma presença criativa, fundamento
de todas as noções, abraçando o conceito de absoluto e aquele a que se refere;
imersos em estruturas psicofísicas, inefabilidade universal, intuições, perspectivas e
coordenadas metafísicas, mitologias e sistemas teóricos, evoluímos como estado-deser numa cumplicidade cosmo-existencial gerundial. A metafísica e mitologia
unitária fomentam uma comunhão proativa e responsável em todos os níveis,
permitindo reconhecer a integração fundamental da essência à esfera existencial.
Desperto nestes mistérios, o indivíduo vanguardista reconhece e elabora narrativas que elevam a manifestação existencial a uma expressão imediata de princípios
sempiternos: intuições arquetípicas, alegorias universais, visões, concentrando o
poder de saudar e celebrar no cotidiano o que mais nobremente significa: a
culminância metafísica destilada e espiritualizada à luz da razão natural.

Intui-se a possibilidade de uma realização, reforçando as boas providências
essenciais num círculo proativo de lucidezes, conectando em ressonância todas as
facetas do estado-de-ser: coordenadas que dignificam a existência, celebrando o
eixo de perspectiva metafísica de maior anuência e respeito, mais genuíno e sóbrio.
Um projeto-de-ser que irradia como um sol, uma mandala, cujo centro enraíza lá
onde imagens e metáforas fascinam e comovem, contemplando e experienciando o
real sem deixar hipóteses, receios ou preconceitos, tradições que sub-rogam o
oratório, turvarem a beleza das evidências que se delimitam nos intercâmbios da
natureza respeitada, da cultura desafiada e do melhor convívio: uma dinâmica
integrada, burilando sensório e imaginação nos apuros mais construtivos da
percepção e semântica.

A inspiração resultante da vivência dessa unicidade paradoxal, gera um espanto e
admiração jubilosa, que, por glorificar e potencializar o estado-de-ser, reforça a
intuição metafísica diretora, fornecendo uma confirmação vital da adequação e
retidão do entendimento filosófico. Estabelece-se um âmbito de certeza que,
embora, não assentado em experimentações empíricas, tampouco em dedução
lógicas rigorosas, predicativas, afirma, com uma razão plena e qualificada, intuitiva,
uma infinita inteligibilidade universal, ou consciência cósmica.

Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. 245d-e (…) Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem
a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a eternidade.

A dedicação amorosa do guia, focando a sua atenção no indivíduo, evocando a
intuição metafísica e retórica que condizem, explicitando e exemplificando as
atitudes decorrentes, realiza um posicionamento metafísico em conjunção com um
ato pedagógico: o que exemplifica uma teologia-política que ao integrar seus
métodos aos seus objetivos e propósitos, engrandece a humanidade, consagrando
autonomia e liberdade em prol a um exercício existencial visionário, belo e razoável.
Tal abordagem, desprovida de ordenamentos normativos constrangedores, só poderá operar do singular ao universal, numa atuação personalizada que se
reconstrói e reformula, continuadamente, nas expressões sábias e multíplices dos
que participam da sempiterna reatualização cultural e afirmação do momento,
kairos.

Um esclarecimento eficiente se realiza e se atualiza em cada indivíduo, não encontra as suas justificativas circunscritas e quantificadas em apreciações locadas em parâmetros históricos-cronológicos, mas afirma-se na perduração e nos ecos dos ensinos sábios, especificamente referenciados, ou não. Entender a dimensão
filosófica profunda e política de Sócrates e outros mestres de sabedoria, exige
alguns reconhecimentos consequentes e positivos: a) a realização mística é uma
consagração individual; b) que se burila e se afirma por intermédio de uma
educação singular e particularizada; c) que o ato político-pedagógico que condiz
com essa busca e realização deve aspirar uma reforma continua e atualizada do
entendimento; d) ser exercitado ao longo de um eixo metodológico variável,
pontuado entre os polos conservador e renovador dos posicionamentos e decursos
políticos; e) de acordo com as necessidades dialógicas e contextualizações
manifestas nesse momento vivaz que eternamente perdura, d) transmutando e
renovando a fluidez e inteligibilidade do estado-de-ser: aquele que é eternamente
vivaz e em fluxo não se acha em rastros, não se loca em época.

Portanto, o programa político-teológico socrático se exercita: a) através de uma
transmissão cultural criativa, diáspora continuada e transpessoal; b) incorporada
pela natureza humana que se renova em atos pro-criativos, nascimentos e mortes.
Comprova-se a elevada efetividade do programa constatando que 2400 anos após a
sua instalação, coordenados nestes termos, os desafios lançados continuam
exercitando os seus efeitos, ressurgindo como uma fênix, envolvendo milhões de
indivíduos ao redor do globo.

10. Da alegoria

O Fedro, além de diálogo é alegoria: estamos todos caminhando ao longo de um rio
com duas margens e duas direções. Uma leva a esse lugar natural e campestre onde
existe uma fonte e se escuta o canto das cigarras; outro leva a essa cidade sitiada,
tomada por plutocratas, onde os discursos são negociados. Na dependência do que se sente, vê, escuta e diz – Eros, Mythos e Logos – o estado-de-ser dirige-se para
uma, ou, outra direção – via socrática ou via lisiástica. Terá essa viagem um fim?
Boa caminhada!

 

MANIFESTO ESSENCIALISTA

Expressar uma intuição filosófica é verter um conhecimento imediato e mítico à inteligibilidade, o que conduz a reciprocidades cujo valor existencial depende da virtude da intuição genésica.

1.Tese

(…) uma impressão metafísica batismal infeliz não entrava a realização de opções mais sublimes e côngruas, apreciações e escolhas filosóficas livres e conscientes.

1.1 Introdução

O intento filosófico essencialista perscruta os assentamentos fundamentais do estado-de-ser e as vias existenciais decorrentes, logo, é passível de ser comprovado, em maior ou menor profundidade, por todos os humanos típicos, visionários e criativos. O (re)conhecimento filosófico profundo permite apreender a unidade consciência-existência como uma juntura que induz o surgimento e a configuração de eixos de perspectivas metafísicas que norteiam a organização psicossocial e política das civilizações e impérios. Ao focalizar o fundamento intrínseco e terminativo do estado-de-ser, revela-se a juntura consciência-existência como um sistema recíproco, categórico e permanente, cuja intuição imediata, subsequentes repercussões emotivas e significados, se configuram e se condicionam em relação com as impressões míticas cultuadas pelos probantes.

Neste fundamento primeiro, instituído na apreensão profunda e original da juntura
consciência-existência, estabelece-se um ou outro eixo de perspectiva metafísica que se generaliza e se transmite através das imersões e contágios culturais, mitos e ritos correspondentes, para moldar as estruturações psíquicas e societárias dos indivíduos, condicionar vivências, realizações, refrear ou liberar potenciais – vias psicossociais e políticas de prazeres e sofrimentos. Necessariamente, um eixo de perspectiva metafísica, intuição-e-valor existencial, prepondera e ordena o psiquismo.

A compreensão da importância vital dos eixos de perspectiva metafísica como princípios civilizacionais estruturadores demanda investigações filosóficas profundas, posicionamentos éticos e estéticos ponderados. A revisão filosófica dos sentimentos e visões, dos entendimentos e dos mitos que reportam ao estado-de-ser, poderá modificar as intuições, perspectivas, ritos e decursos existenciais; uma impressão metafísica batismal infeliz não entrava a realização de opções mais sublimes e côngruas, apreciações e escolhas filosóficas livres e conscientes.

1.2 Status quo

A filosofia essencialista focaliza o ‘interior-em-si’, ambiente onde consciência e existência comungam e revelam uma ineludível reciprocidade. Postula-se a união existencial da consciência, do corpo e do mundo numa totalidade paradoxal. Essa unidade é reconhecida
como categoria existencial original: refere-se à configuração metafísica primordial que explicita a harmonia natural e encoraja a justa inserção do estado-de-ser frente à sua destinação cósmica. Sendo a unicidade indissociável, juntura cósmica da totalidade dos significantes e dos significados, é, igualmente, símbolo imediato e conjuntura metafísica: o fenômeno existencial é a identidade do dado-a-ser, a relação consciência-existência é o tabernáculo da essência: esse reconhecimento (re)estabelece o eixo de perspectiva metafísica primordial, modo de ser evidente e virtuoso em que o Cosmos mensurável e o ser sensível ajuntam-se num estado-de-ser único, integrado e esférico.

Essa impreterível coordenada metafísica evoca intuições sensíveis e poéticas, abstrações correspondentes: o justo reconhecimento do status quo existencial motiva o exercício atento e equânime da razão qualificada, coordena o vivente em direção a uma praxe digna e sentimentos poéticos que fazem reconhecer o Belo. A coexistência indissociável e recíproca dos eventos simbolizados e simbolizantes, realiza um espaço vital e fenomênico e criativo onde a consciência, num enlace intuitivo e espantoso, tende a manifestar e colapsar o que se discrimina e intenciona– revela-se um momento criativo em que o estado-de-ser lúcido propõe-se a celebrar e cultivar a harmonia genésica que origina e vitaliza.

Aceitar a reciprocidade unitária do estado e do ser é reconhecer a adequação da natureza humana frente aos universais: é prezar a relevância ética do mistério e a excelência da razão natural, é ser virtuoso. O espanto filosófico, resulta da justa intuição dessa natureza-ser.

1.3 Do estado-de-ser

A relação consciência-existência é ineludível, configura um ato e estado-de-ser categórico, uma coordenada metafísica. O estado-de-ser, juntura metafísica, signo e evidência unidos, é símbolo num sentido pleno e vital. A coordenada consciência-existência configura um fenômeno metafísico que pode ser intuído e significado com razão qualificada, amor próprio, consciência e responsabilidade; ou, inversamente, desconhecido de modocondicionado e irresponsável. O significado mais prudente dessa junção misteriosa se institui e se explicita à luz da autoridade filosófica do estado-de-ser: no ‘interior-em-si’, ao abrigo das aparências e preconceitos culturais.

Afirmar a realidade do estado-de-ser como união indivisível e paradoxal de consciênciaexistência reporta a uma evidência imediata e caracteriza uma intuição-e-valor essencial: um eixo de perspectiva metafísica. Nesse contexto metafísico-existencial intuído como
juntura consciência-existência indivisível e recíproca, o caráter real e relacional do ‘Eu’ não é, e jamais pode ser, de estraneidade, mas de unidade – o ‘Eu’ é natural, nativo, conterrâneo ou ‘terrâneo’, indígena. Dito em termos spinozianos, o estado-de-ser é conjunção unitária e criativa de dois atributos, físicos e cogitativos, e, por extensão, juntura unitária de existência-consciência, physis-arché, homo-sapiens, logo, buscar uma purificação, ou realização filosófico-terapêutica, é uma praxe, ou experienciação, que exige um duplo processo: descoberta e afirmação, isto é escolhas.

Manifesto como humanidade, o processo existencial afirma a sua vitalidade e justifica a sua natureza e identidade quando, proativo, valoriza e recorda o que é mais fundamental: a união original, o Cosmos. O estado-de-ser, justamente compreendido, expressão vital e existencial configurada humana, coordena um caminho de lucidez, uma praxe, que é a afirmação de um enlace concordante, unitário e essencial.

1.4 Coordenadas lúcidas

Na proposição e abordagem cosmo-existencial o ‘Eu’ existe integrado ao corpo, ao mundo, sendo, in totum, Cosmos, ou ‘esfera divinal’. Essa compreensão resgata o justo valor do estado-de-ser e permite superar, de pronto, minus valias e traumas construídos e alimentados em outro eixo de perspectiva. O eixo de perspectiva metafísica cosmoexistencial (ePMCE), saber e realização essencial, desvela a reciprocidade consciênciaexistência e consagra o estado-de-ser como existe em natura, bem apreciado, com sobriedade e prudência filosófica. Sóbrio, o ePMCE esclarece e verdadeira natureza do estado-de-ser e revoga a necessidade de visionar a totalidade do momento vital como algo acidental de consequências dolorosas, um sofrimento primordial, e, a transcendência supernatural o motivo magno e central da orientação e destino existencial.

O eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial fomenta saberes que fazem jus à
experiência dos indivíduos, aspiração e motivação das escolhas e das buscas; afirma-se que uma realização cultural ponderada e inteligente, logo, virtuosa, favorece a manifestação de correspondências onde predominam plenitude e alegria. Consagra-se uma visão totalizante que fomenta as virtudes cardeais e sociais, uma realização que tempera a realidade em direção às ponderações desejadas, realizando o estado-de-ser original cujo lema civítico pode ser: respeito, convivialidade e criatividade. Em todo caso, exemplifica-se sempre, em todos os níveis, individuais, comunitários e globais, uma incontornável veracidade por correspondência sagital, onde, concernente à relação metafísica consciência-existência: a qualidade que se intuí e visiona comprova-se por necessidade.

1.5 Saber existencial

A virtude fundamental atribuída à juntura consciência-existência, mistério metafísico, manifesta um posicionamento existencial e civilizatório, ou um eixo de perspectiva metafísica, instituidor de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida digna.

À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural, não relata a uma dialética culturalista, tampouco depende de fundamentos sectários, mas é previsto na bondade e valores que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e aos potenciais do estado-de-ser.
Nessas harmonias inúmeras, quando a beleza das flores encanta os jardineiros, o amor se manifesta – a justa apreciação do Belo implica uma realização estética.

Uma via filosófica deve permitir o reconhecimento dos possíveis eixos de perspectivas metafísicas, mitologias, ritos correlatos e decorrentes coordenadas metafísicas secundárias (CM2) que configuram os ordenamentos psicossociais, socioculturais e sociopolíticos dos indivíduos. A busca filosófica qualificada define e afirma o eixo de perspectiva metafísica através do qual se elaboram as coordenadas secundárias que permitem o exercício da virtude, da civítica e das artes. Configura-se uma trindade de eventos: as CM2 do Ethos, Logos e Mythos onde se integram o corpo e o mundo, o saber e a inteligência, revelando-se uma sublime inspiração. Afirmar a integração metafísica unitária, criativa e paradoxal do estado-de-ser, permite uma benéfica superação do dogma da estraneidade teológica, política e cientificista.

2. Antítese

(…) A civilização e estado-de-ser padecem nos ordenamentos de um prejuízo dicotômico e central raramente desafiado: a ideia de um sujeito alienado, por necessidade, estranho ao corpo, ao mundo e a um hipotético ‘plano divinal’: a estraneidade do ‘Eu’ como pilar da edificação societária.

2.1 Acusação

O eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE) é considerado original, típico das crianças, indígenas e filósofos pré-platônicos, sendo o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (ePMTT), vulgarizado por imposição ideológica e revolução cultural, considerado excêntrico e desagregador. O ePMTT, hoje, globalizado, configura uma gestalt imperativa, sectária e hierarquista, que dinamiza e coordena as expressividades políticas e socioculturais típicas da nossa era-calendário: estruturações econômicas, políticas e pedagógicas em acordo com as configurações míticas que correspondem.

No âmbito do ePMTT, os sofrimentos naturais resultam acrescidos de sofrimentos
exorbitantes e distúrbios culturais que: desvalorizam a dignidade, o bem-estar ético, de ser o que se é; exaltam os sofrimentos e desassossegos decorrentes desse assalto à congruência recíproca e dignidade natural; fomentam atuações políticas repressoras e desnecessárias; deportam num além e futuro hipotético o que se pode viver no presente.

Nesse âmbito, os sofrimentos mais embaraçosos são de ordem culturalista: a doutrina correlata ao ePMTT onera o processo existencial de dimensões surreais e determinismos hipotéticos que exaltam o sofrimento e o sacrifício. Instâncias metafísicas que renegam os evidentes enlaces cosmo-existenciais de integração e harmonia desnaturam e desafiam a identidade cósmica e a inteligência original do estado-de-ser. Epistemes, paradigmas esistemas que degradam a dignidade essencial do estado-de-ser e exaltam o sofrimento impossibilitam o advento de uma comunidade virtuosa.

Advogar e existência de uma ‘consciência pura’, separável do estatuo existencial e sensível, evocando um conhecimento privilegiado e reservado, caracteriza um eixo antitético de perspectiva metafísica e uma negação da natureza e valor próprio. Neste eixo sectário de perspectiva metafísica, amplamente catequizado nesta era-calendário, nega-se a realidade do estado-de-ser como união consciência-existência, caracterizando e acusando uma metaafísica imperante e improvável. Apostolar ser estranho ao mundo e ao corpo, atribuído de
um tele-significado deslocado no além, não se adequa com a experiência e o imaginário das crianças venturosas, dos poetas, dos artistas, filósofos vanguardistas, ou, ainda, dos naturalistas. Mesmo condicionado e educado em circunstâncias ingratas e carentes de saber, levado a pensar-se estranho à existencialidade dada-a-ser, surreal e banido, o indivíduo, intuitivo e criativo o suficiente, sente-se traído, depauperado do essencial, sem identidade e sem rumo.

2.2 Alienação

As grandes escolhas existenciais afunilam entre: o posicionamento metafísico original, cosmo-existencial, criativo e combinante; o posicionamento metafísico excêntrico, transcendente-transcendental, sectário e hierarquista, fonte de inquietude e dúvidas. O ePMTT vulgariza o conceito mor e dualístico da modernidade, a ‘estraneidade do Eu’, decaindo o indivíduo num ‘sujeito-objeto’ coletivizado e massificado – um pagador de penitências e promessas, joguete dos sociocratas e hierarcas, paciente alienado e incurável das psicanálises.

O dualismo teocrático e o cientificismo, desvios de foco comungantes e brotando do ePMTT, instituem e conformam fenômenos societários regidos por uma trina correspondente de Coordenadas Metafísicas Secundárias (CM2): o subjetivismo, antítese egoica do Logos; o objetivismo, desnaturação insensata do Ethos; o dogmatismo, desvio idealístico e exorbitante do Mythos. Assim triangulados, civilização e estado-de-ser padecem nos ordenamentos de um prejuízo dicotômico e central raramente desafiado: a ideia de um sujeito alienado, por necessidade, estranho ao corpo, ao mundo e a um hipotético ‘plano divinal’: a estraneidade do ‘Eu’ como pilar da edificação societária. Não saber visionar metáforas integradoras e narrativas concordantes para descrever a juntura consciênciaexistência,
compreender-se estranho a tudo, ao corpo, ao mundo, imaginar-se degradado e
deslocado de algum plano divino-universal, condena à angústia e ao sofrimento.

A polarização sectária e elitista do horizonte metafísico inibe a floração do estado-de-ser e impede a evolução biopsicossocial da natureza humana das esferas mais instintivas em direção aos decursos civíticos da razão qualificada. Tais desentendimentos e desvalorizações são fadados a condicionar a elaboração de narrativas e historicidades incôngruas, resultantes processos psicossociais e políticos discordantes, sectários e defensivos.

De interpretações opositivas, condicionadas em mitos, seladas em ritos, usos, costumes, retóricas e etiquetas excedentes, em cultura sub-rogada onde poucos ousam falar por si, mas produzem discursos feitos e pensados por outros, ou para outros, resultam circunstâncias frustrantes que condizem com o que, obsessivamente, se acredita ser e se cultua: delegante e excluso da esfera criadora.

3 Do interior-em-si

Um ‘nós’, um ‘vós’, não sendo majestade, é um somatório de ‘Eu’. Dois, três, quatro, um número infinito de indivíduos não é um grande ‘homem de quetelet’ autônomo, mas uma representação matemática, um indivíduo-estatístico. Quem pode pensar ou não querer pensar, aceitar ser pensado por outros, introjetar os determinismos inscientes da cultura: é cada um, em si e por si. Uma abstração coletiva – como ‘o povo’, ‘a academia’ – não pode imaginar, provar, pensar ou dizer algo: não existem!, são figuras ou representações. A conjugação do verbo ser faz sentido filosófico, original e correspondente, no singular, no plural parece demagogia. ‘Eu’, ‘tu’, ‘você’, ‘me’, ‘ti’: tudo bem! ‘Nos’, ‘vos’, ‘o’, ‘a’ não é reto: é oblíquo e hipotético, não justifica o verbum. Tudo o que vi, ouvi, sei, sou eu quem vi, ouvi e
apreendi, em mim, de mim. Claro, aprendi muito com outros indivíduos que, certamente, como indivíduos e apenas assim, conheceram ‘isso’, ou ‘aquilo’, ouvindo e aprendendo a respeito de outras coisas, vindas de outros indivíduos, e de outros, num processo infindo.

Quem pode conhecer ou não conhecer? observar isso ou aquilo, pensar e afirmar: – “Eu vos digo, em nome de tudo quanto existe de mais sagrado, não sou apenas um indivíduo-pessoa indissociável, sou espírito transpessoal e sobrenatural!”; ou então: – “Senhores e senhoras, é postulado científico que, antes da existência dos seres vivos, existia matéria sem vida!”. Indubitável, quem pode entender, (des)entender, pensar, imaginar e dizer essas coisas, ter ouvidos e razão para conceituar, é, de uma forma ou de outra, um indivíduo-pessoa!

Cosmos, deuses, deusas, infernos, paraísos, jardins de flores ou crianças, todas as coisas, existem apenas com/e através dos indivíduos, o que existe, existe na vigência da afirmação do indivíduo-pessoa – só existe aquele que é, aquele que não é não existe e não há um Cosmos a ser cogitado sem a correspondência dos indivíduos: não será por isso que tudo é um, universo e indivíduo?

“Só existem indivíduos, se é que existe alguém”, como diz o excessivamente poético Luis Borges no conto ‘O outro’: o filósofo profundo, sincero, ‘autoral’, como deve ser um filósofo, só pode focar os questionamentos do ‘interior-em-si’, ambiente onde a consciência e existência comungam e correspondem, lugar onde tu, leitor, deverás reconhecer e decidir quem és, ou deixar outro decidir por ti. Certamente, há quem acha essa correspondência radical, mistério e paradoxo, um tremendo desconforto preferindo o mito do espírito transcendente cuja irrazoabilidade categórica pode consolar, porém degrada a luz da razão natural e a retórica com as consequências que bem se testemunham no jogo cultural, histórico e atual, das coordenadas metafísicas que decorrem.

A opção essencialista cosmo-existencial imerge as raízes do estado-de-ser no vórtice do mistério, como fez Heráclito, devotando seu pensamento à deusa natureza sem entregar uma migalha de razão ao altar da ignorância: à luz natural da razão, garante-se um espaço onto-poético suficiente para Sisífo brincar, quiçá infinitamente. Uma redenção para quem aspira ser filósofo, poeta e razoável.

Efetivamente, nessa objetivação subjetivista e dogmática globalizada, alguns poetas mais lúcidos, com arte e razão, inspirados, encontram o caminho da realidade cosmo-existencial com mais facilidade de que certos pensadores prolixos e bem ordenados, instigados a pensar alinhados às ordens da tradição, refletindo sombras do fundo da abóbada cavernosa. Esses procuram a verdade nos pergaminhos e no passado, longe do momento resolutivos e intensos que parecem desconhecer: pensam, citam e citam, e, de citação em citação,
regridem, acompanhando as frases até às escrituras latinas da escolástica, onde suspendem pensamentos e críticas, convertidos e doutrinados, ou, no caso de desvencilharem-se da ordem latina, indo mais longe, chegam à Odisseia de Ulisses – o que é, melhor, incomparavelmente. Mas, na primeira voz e consciência, recordando e recordando, de recordação em recordação, chega-se até aos primórdios verdadeiros, ao início do dia, ao momento no qual o mundo nasceu comigo. Eu e a natureza somos gêmeos, mostramos tudo
um ao outro, à luz da razão e do Sol; flores são mandalas, portais abertas ao infinito, estrelas são pensamentos elevados e poeiras são mundos: evidências poéticas e categóricas nesse grande presente unitário onde ‘Eu’ existe integrado, sempre o mesmo, e sempre diverso, universo.

Enfim, leitor, é você quem deve definir o seu valor frente a si mesmo e ao que é outro, definir a relação da sua própria consciência com a existência: o seu estatuto metafísico. Desde o início, por enfocar o ‘interior-em-si’, o ambiente singular onde a reciprocidade consciência-existência comunga e dialoga, a filosofia profunda interpela o indivíduo. Homo sapiens, querendo pensar, fazer jus ao que és não poderás fugir da tua responsabilidade! Quem és tu? Autonomia ou servidão?  dequação ou inadequação, bondade ou maldade? Escolhe o teu destino.

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MANIFESTO-ESSENCIALISTA

 

O ESSENCIALISMO NOS PORTAIS DA CIVILIZAÇÃO

Diálogo da poesia com a razão – ensaio em filosofia pré-socrática

Ensaio publicado: Filosofia, Ciência & Vida Especial – nº 2; Editora Escala, SP; Portal
da Existência, p. 72 – aqui revisado e completado.
Régis Alain Barbier

O PORTAL

Viajar na direção pré-socrática requer um veículo sofisticado: o engenho do tempo-mítico. O deslocamento não é um movimento linear: o entendimento deverá ser reposicionado em outras coordenadas. Um encontro que exige receptividade, autonomia e confiança: distanciar-se das suas âncoras batismais requer método. Sugiro acompanhar essas instruções.

Ao portal da civilização, despeça-se dos filósofos basilares: Platão e Aristóteles.
Sócrates oficiará o rito de passagem: “friccione os pés nas cinzas de acácia; a
brisa levará o pó. Lave mãos e rosto; deixe secar a pele ao sol”. Oferte teus
haveres: livros, relógio, anéis e medalhas. “Vista essa túnica” – falava o
homem mais sábio de Atena – “agora, ô filósofo, inicia a travessia!”. Receoso
do desconhecido, tu sentirás um calafrio caótico. A história retrocederá; num
átimo, as iluminuras medievais, as imagens do oriente, como pergaminhos e
tapetes, se dobrarão em rolos; as do Egito se aproximarão e se afastarão. Um
cruzeiro grego, rosa dos ventos, orientará o horizonte simbólico.

A luminosidade dos azuis volatiliza a trama da causalidade; a criatividade
sopra a poeira e o peso da memória. Deméter, mãe terra, envolta de céu e mar,
povoada de vales e montes titânicos, resplandece: revela-se a beleza e
esplendor do ambiente. O momento portentoso desata o entendimento
metrificado em correntezas de saber, convertendo mitos em evidências.
Depois de Deméter e Poseidon, Eros e Afrodite, chega Apolo, rei da luz solar; Ártemis, lua no horizonte; Hermes, o mensageiro: o olímpico panteão. Nesse
povo, vivendo à luz dos seus mitos e saberes, em cidades irmanadas ao longo
de um litoral labiríntico, um sereno naturalismo comprova o seu império.

RAÍZES HISTÓRICAS

Dos Bálcãs, vieram os Aqueus, ramo antigo dos gregos (a cultura da espada,
do homem a cavalo): invadiram o litoral, área de civilização cretense; cultura
descrita por Aristóteles, séculos depois, como amável e benévola, “os servos
desfrutavam privilégios de cidadãos”. Os cretenses, descontraídos, de ritos
matrimoniais corteses, desfrutavam considerável liberdade (a cultura do
cálice, da mulher e do touro). Desse encontro na Idade do Bronze, surgiram os
Mecenas. Através de contatos seculares com os marinheiros mediterrâneos (os
fenícios: comerciantes e divulgadores de arte, lendas e saberes da Ásia, África
e Europa); do zelo pela sua própria herança cultural; do aporte de Creta: os
Mecenas irradiaram séculos de rica influência cultural nas praias do Adriático
e Egeu.

Outro grupo, os Dóricos, desalojados e migrantes, irrompeu, rachando a
civilização micênica entre ‘áticos’ e ‘jônicos’. Os áticos integrariam a cultura da
península, um dia destinada a se polarizar entre Esparta e Atenas. Mais
independentes, os ‘jônicos’ rumam na direção oeste: mar Egeu. Na Jônia
(agora Turquia), encontrariam uma geografia favorecendo as viagens
marítimas e contatos comerciais; a formação de ‘polis’ como Mileto e Éfeso:
circunstâncias propícias à boa convivência, à independência e consenso.

RAÍZES CULTURAIS

A gratidão de viver nessa região evidencia e ativa uma consciência natural e
descontraída permitindo se reconhecer descendente da mãe terra, Deméter, e
do manto celestial. Para o nativo dessa cultura, o Cosmos, objetivo e mítico,
configura uma família de seres fascinantes: ‘sagrado’ é um sentimento
cotidiano; encanta como a luz do mar. Héstia, deusa do lar, e Hera, protetora
das mulheres, habitam o Monte Olimpo, entidade natural e surreal, assim como a morada de cada um: o lar e o coração que ama. Um vínculo unitário
imediato, tornando-se lógico secundariamente: quando pensado e descrito em
versos e prosa, nessa ordem. Trata-se de uma harmonia causal e necessária;
não acidental. A Jônia, ou a Iônia, é o berço onde a poesia uniu-se à razão,
gerando o gênio humano: a razão dialogando em união com os versos de
Homero e Hesíodo.

A formação mítica dos gregos, e possivelmente dos cretenses e outras tribos
do mediterrâneo, tende a ser naturalista e integradora. Trata-se de um
monismo espontâneo, nascido em boa terra e circunstâncias culturais, nas
quais as distinções genésicas: 1) justificam a criação sem dicotomizar; 2)
delimitam como fonte criadora o ato da distinção em si – ato da natureza ao
alcance da cognição: cosmovisão cuja dimensão mítica é parte da decisão
cotidiana. Simbologia integrando a existência humana ao universal. O mito
monístico sela unidade na dimensão onírica e psíquica do ‘in-divíduo’: união
raiando em expressões poéticas, artísticas e técnicas. Na Jônia, essa fundação
permitiu o surgimento de uma ética horizontal e natural, em decorrência: uma
política comunitária e de conselhos. Um forte sentimento de unidade, um
monismo, presente desde a formação e expresso na imaginação surreal da
mitologia; fundamenta e sustenta um realismo imediato ou natural;
permitindo divagações e abstrações até os limites mais abertos, criativos e
extremos da realidade – mas, jamais extrapolando em visões quiméricas,
sobrenaturalismos ou dogmatismos.

No berço da filosofia, há harmonia entre as esferas da mítica e da lógica: como
duas mãos unidas, prevenindo sectarismos e radicalismos. Na direção das
ontologias, nos limites do microcosmo e macrocosmo, no interior e exterior,
em prosa e em verso: sabemos não poder conceituar o essencial de forma
lógica. Mas, espantado e indagador, o sentimento primeiro de união
existencial permite percepções criativas e renovadas, delineamentos
provisionais (e até mesmo competitivos) do fundamento ou princípio unitário
‘arché’, jacente na natureza ‘physis’: ambos unidos no mistério do Estado de
Ser.

A ANTIGA ESCOLA

Citações de Platão, Aristóteles, Heródoto, Diógenes Laércio, Hipólito e outros,
muitas vezes repetidas, diversamente entendidas, servem de acesso aos
pensadores da antiguidade.

Tales (625-558 a.C.), mercador de sal e azeite de oliva prospera, prevendo
fenômenos meteorológicos e de mercado. Sabe matemática e astronomia,
possui capacidade para prever o eclipse solar de 585 a.C.. Do alto, mede as
distâncias separando navios no horizonte, a altura de uma pirâmide:
triangulando proporções a partir de um bastão pré-mensurado e das sombras.
Tales triangula criatividade à luz da matemática e dos mitos. “O Sangue
derramado de Urano originou e gerou o grandioso; da espuma formada no
mar, nasceu Afrodite”, canta o mito. De physis, ele escolhe a substância-água
para teorizar e triangular uma demonstração do ‘arché’. Imagino Tales
falando: “quando afirmo a natureza úmida; digo que a água é para a natureza
próxima, e nossa, como aquele que é, na correta proporção, para todo o
cosmo: é fluidez e ânimo; vida!”. Para Tales, o princípio de todas as coisas é
água. “O morto resseca; de água até o fogo necessita; cheias de deuses estão
todas as coisas”. “A água é o princípio, a terra, o Cosmos inteiro flutua”.

Anaximandro (c. 610-545 a.C.), 25 anos, e Tales, com 40 anos, observam
juntos o eclipse de 586 a.C. Aluno de Tales é conhecido pelos seus gnômons
(dispositivos indicando equinócio, solstício e meridiano). Teria escrito um
livro e confeccionado um mapa-mundo. Anaximandro ensina a evolução das
coisas e das espécies: “os animais nasceram do mar, e o homem se formou, no
princípio, dentro de peixes, onde se desenvolveu e donde foi expulso logo que
se tornou suficiente para bastar-se a si próprio”. Para Anaximandro, o
princípio aquoso, de Tales, ‘sinaliza’ a fonte. As essências das substâncias água,
ar, terra e fogo ainda não são, para ele, simples o suficiente para justificar
arché, o conceito unitário. Imagina essa quaternidade se sublimando numa
quintessência criativa, um silencioso vazio, o ‘arché propriamente dito’, ou “to
ápeiron”: o infinito. Cogitar o infinito sem rodear é desposar o núcleo caótico, no clímax da poesia mítica e da razão: é ‘ser natureza-cósmica’, gerando a
partir dessa fonte, sem sofismar, ética, moral e saber humanista. “Ápeiron não
é nenhum dos elementos, mas uma natureza infinita, da qual nascem todos os
céus e os mundos; mas é, naquilo mesmo de onde provém geração para os
seres, que ocorre a destruição segundo o que deve ser; pois eles se fazem
mútua justiça (…)”. ‘Justiça’ para ele é o reencontro com o que inteira e
completa: o ciclo da vida, por si, justifica-se, por nós se qualifica.
Anaximandro faz recordar o conceito dos naturalistas chineses, o Caminho,
princípio criador, sintetizador e harmonizador.

Podemos imaginar os três em Mileto: Tales, 60 anos de idade; Anaximandro,
45 anos; e Anaxímenes, 20 anos (c. 585-525 a.C.). Este escreveu um livro que
deverá também se perder. Dedica-se ao estudo da meteorologia e astrologia;
cogita a lua como refletindo o sol. Com ele, o princípio passa a ser um
processo: um vir a ser. A fluência e ânimo de Tales se reveste de infinito
alento: pneuma-áperion. O princípio aeróide (como arché) transmuta a
fluidez infinita da natureza (physis) num dinamismo: de ar a fogo até éter e
infinito; e de ar a vento, nuvem, água, sais e terra.

Agora descrito e declamado, o Logos, ato de ser com toda a estética, lógica e
intuição, já opera em direção a uma cultura universal. O discurso dos pré-
socráticos não analisa a silogística de ser ou não ser. Intenso e intuitivo,
transporta a cognição, em prosa e versos, até o limite dos atos de fala,
motivando, com razão qualificada – em arte, ciência e consenso -, um ato de
ser universal: uno, ciente e virtuoso. Trata-se da aplicação existencial do mito
unitário vertendo água, ar, alento e infinito respeito na comunidade humana.

IRRUPÇÃO

Reinava na Pérsia Cirus II (580-529 a.C.) aliado à hierarquia zoroástrica: seita
órfica recém fundada preceituando a antítese ‘mal-bem’ como princípio
absoluto, transcendental e determinador; anunciando a vitória final do bem,
mas condicionada à obediência, normas e prescrições reveladas. Cirus iniciou
um grande movimento de conquista: através da Lídia derrotada (em 546 a.C.) controlava a Jônia, colocando tiranos pró-persas na liderança das cidades.
Uma tentativa de revolta, iniciada pelos milésios, resultou em invasão formal.
Embora considerado um ‘ditador condescendente’, numa perspectiva
incluindo a conquista posterior da Babilônia, a cidade de Mileto sofreu ferozes
represálias: incêndios, massacres, escravizações e deportações. A partir das
regras impostas, iniciou-se um lento expurgo almejando adequar usos e
costumes às normas da religião de estado: o começo histórico de um crônico
combate às escolas de filosofia. Nesse momento, a cultura grega sofre
modificação de consciência mítico-ideológica, justificando-se a denominação
“Escola Jônica Antiga”, ou de Mileto, versus “as novas escolas pré-socráticas”
– a Jônica Nova; Eleática e Itálica, ou Pitagórica.

Compreendemos que os antigos percebiam-se em conjunção unitária na
natureza-‘physis’ como expresso e refletido nos mitos. A mudança impositiva
abalou a congruência do mito original, desafiando a sua força prescritível. É
esse o ambiente ideológico-mítico antípoda das ‘escolas novas’ em relação à
‘escola antiga’. Poucos distinguiam; o resultante de escolhas, entendimentos e
possibilidades humanas; do princípio unitário e natureza, positivamente
apreendido, experienciado com congruidade, adequadamente expresso em
palavras e atos: isso é o Logos. ‘Logos’ como razão manando poesia e prosa em
sintonia com ‘arché’ e ‘physis’. Refletindo um estado de miséria e dominação,
a cultura popular tende a absorver os dogmas do orfismo; mas não os
escolares. Esses superam as imposições teológicas, superpondo extensões
racionais e metafísicas – perspectivas filosóficas -, jamais subordinando, como
na Idade Média, a luz natural da razão à ‘fé cega’ (credo quia absurdum; creio
porque é absurdo); mas sim, cobrindo os abusos com os ditames da crítica
criativa.

AS NOVAS ESCOLAS

Tales falecera havia uma década; Anaximandro, no período da invasão.
Anaxímenes viveria ainda vinte anos. Plausivelmente, por isso, denota-se nele,
repensado em termos naturalistas, transcrições de influências religiosas
orientais, onde o princípio central é a ‘respiração cósmica’ (na doutrina mais idealista de Atmã). Nesse espaço resumido, estudaremos: 1) Heráclito de
Éfeso (c.544-484 a.C.), integrante da Escola Jônica Nova; 2) Parmênides, da
Escola Eleática; e 3) Pitágoras, da Escola Itálica.

Heráclito (c.540-480), da linhagem do fundador de Éfeso, renuncia ao título
honorífico de rei, preferindo, nesse tempo de ocupação, se dedicar à ciência e
Filosofia. Para ele, o princípio (arché) da natureza (physis) é um fluxo
transmutativo: conciliação e equilíbrio dinâmico entre polos. Um processo
refletindo em todas as dimensões; um fluir envolvendo a natureza e o ser na
totalidade das formas, de acordo com um ritmo. Por isso, no ordenamento
próprio, a montanha é destinada a ser vale, e o vale, montanha; o céu a ser
terra, a terra, céu: um movimento imperceptível à visão comum. Com firme
tenacidade, diz: “ser-deserto é igualmente não-ser deserto; ou ser oposto: isto
é ser-mar”, esse mar azul é branco da Grécia jônica. Na formulação mais
essencial: “o ser é não-ser”. Heráclito sabe transcender as definições redutoras
demonstrando apenas um lado e momento da grande completude. Com fogo,
criativo, ele tritura e dissolve os ordenamentos racionais do momento
histórico entregando-os ao rio Cósmico, reencontrando a unidade original.
Vivendo simplesmente, junto à fonte de um rio, anuncia a realidade do fluxo,
escrevendo em tábuas de ouro depositadas aos pés da deusa natureza: “o ser é
unidade, a unidade é a identidade dos contrários, e os contrários são os que se
excluem e se complementam mutuamente”. Muitos compreendem o filósofo;
mas, inaptos a viverem longe dos afazeres da pólis, consideram a palavra
como visão apropriada para deuses.

Parmênides nasceu em Eléia, sul da Itália atual. Possível aluno de
Anaximandro de Mileto e Xenófanes, outro emigrado vindo da Pérsia. Para ele,
nessa busca do princípio unitário, três mundos se intersectam: a esfera
natural (physis); a esfera política (polis); a esfera da razão lógica e poética
onde o princípio se define (arché). Flutuando no ânimo descrito por Tales;
inspirando o ar de Anaxímenes, Parmênides, régio como torre de marfim,
austero como mosteiro, sublime como um palácio de cristal, guiado pelas
etéreas Virgens do Sol, afasta-se do mundo em busca do “áperion” de
Anaximandro. Já na redoma, meditando ‘physis’ (metafisicismos), ele se descobre, como uma estátua de mármore branco, no centro uno da esfera
absoluta: os movimentos da vida acontecendo como reflexos, além da
translucidez. Parmênides vapora o mundo sensorial num tecido uniforme e
diáfano, com o qual constrói um balão; transforma-se no ar translúcido, e,
assentado no ponto central da insuflação cósmica, declara com firmeza: “é
preciso dizer e pensar o que é o ser, pois existe, sim, um ser absoluto e
imutável”. A seguir segue declamando o seu poema: “Jamais poderá existir
força de constrangimento que faça ser aquilo que nada é!”.

Pitágoras (c. 570 – 496 a.C.), nascido em Samos, uma ilha da Jônia, emigra
para Crotona, Calábria, e funda a Escola Itálica. É o pensador que mais
diverge da tradição filosófica: conhecedor dos ritos e disciplinas dualistas,
persas e outros, organiza a escola em comunidades semelhantes a conventos.
Contudo, ele faz jus à tradição Jônica, as suas pesquisas astronômicas e
matemáticas resultam em conhecimentos práticos (como o Teorema de
Pitágoras); elabora uma doutrina na qual os princípios matemáticos se
tornam agentes criadores. Para ele, as coisas se revelam e realizam como
transcrição dos números. Os números, delimitando o indefinido, parecem agir
como hoje se entende a função do R.N.A mensageiro: transcrevendo coisas.
“Ímpar” é considerado limitado e perfeito; “par”, ilimitado e imperfeito nos
seus potenciais. Pitágoras imagina o conjunto dos números como espírito
surreal do Logos, necessariamente transcrevendo infinito em finito, é o
pensador – como mais tarde os cabalistas – atribuindo substância surreal às
suas abstrações e aprendendo a dominar a arte de calcular, reveste-se da força
de um ‘mago-mensageiro do divino’. Decorrendo: o filósofo dotado de vontade,
razão e conhecimento, é quem está apto a fazer de si o mensageiro dos deuses.

CONCLUIMENTOS METAFÍSICOS

A filosofia, na sua fase pré-pérsica: 1) cuida de arquitetar sabedoria à luz da
razão natural; na sua fase pérsica e pré-socrática: 2) de consolidar e afirmar o
saber naturalista desafiado. A questão, então problematizada, converge na
primeira distinção mítica genésica vislumbrada nos confins e limites da razão
mais abstrata, no ponto mais intenso e concentrado da meditação, quando revela-se o campo eidético, onde os conceitos não mais se sustentam,
transmutando-se em imagens. Na configuração mitológica órfica, dualista,
talvez por apego amedrontado a uma racionalidade mais prosaica, calculista, o
princípio (arché) tende a ser excluso, tornando-se incompreensível e
inalcançável, perde-se contato com o conhecimento : a distinção separa
‘criador’ e ‘criatura’, deixando o ser sem rumo imediato, angustioso e carente,
suscitando irrealismo sectário e irracional, idealismo dogmático, formações de
sinais imaginados exógenos, alienantes – no sentido hegeliano. Na mitologia
monista, panteísta, a compreensão, extensa ao extremo, rende-se ao
conhecimento eidético, fenomenológico, princípio (arché) permanece ao
alcance, em inserção, apreendido de imediato, contemplado, comungado nas
relações e trocas, orientando o ser: a distinção justifica a criação sem separar,
ou dicotomizar, suscitando atos criativos centrados e em harmonia com a
natureza, motivando um sentimento de inclusão e adequação. Ambos os
experimentos, racionais nas suas raízes, na origem, no core e intenção,
investem-se de formações míticas nas brotaduras mais extremas, refletindo
um rito de passagem nas raias da compreensão, na fronteira do ignoto, onde a
razão mais abstrata em busca de saber se dissolve. Concepções diversas,
gestando assentamentos metafísicos divergentes, opostos, talvez
complementários, iniciando o surgimento de cosmovisões produtivas, e, por
decorrência, ações, mundos, férteis ou não, na dependência do seu valor de
verdade.

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O-ESSENCIALISMO-NOS-PORTAIS-DA-CIVILIZACAO

O PARADOXO UNITÁRIO

Intuição, Virtude e Decisão

ÍNDICE

  1. INTRODUÇÃO BREVE
  2. NAMASTÉ!
  3. DA FILOSOFIA QUE AQUI SE EXPLICITA
  4. DAS EXTRAPOLAÇÕES DA CIÊNCIA FILOSÓFICA
  5. DO DISCERNIMENTO JUSTO E SAGITAL
  6. METAFÍSICA – SABER PARADOXAL
  7. DA NATUREZA COGNITIVA DO NÃO-SABER
  8. DAS COORDENADAS METAFÍSICAS SECUNDÁRIAS
    1. COORDENADA COSMO-EXISTENCIAL
    2. COORDENADA TRANSCENDENTE-TRANSCENDENTAL
  9. O NOVO ALVORECER

Introdução breve

Ser parte do processo existencial, dotado do poder de sentir, acertar ou errar, é inquietante; demanda um cuidado no intuito de viver bem e prevenir sofrimentos, quando necessário, curar, isto é, exige filosofia e terapia.

A busca de uma visão e realização que possa honrar e justificar, senão explicitar, essa existência, exige uma praxe eficaz que não deveria prescrever-se estudando apenas os pensamentos e reflexões, como sujeito, ou apenas a objetividade, os objetos: é necessário focar a atenção no estudo mais central do processo existencial: a relação da consciência própria com o que existe.

Em toda e quaisquer circunstância, a virtude mais íntima atribuída a essa relação consciência-existência institui e delimita modos de conhecer e enquadramentos geradores de experiências e trajetórias existenciais.

De acordo com os significados e valores escolhidos, essa relação da consciência com o dado-a-ser equaciona epistemes na regência das quais se delimitam e regulam potenciais existenciais – fronteiras de oportunidades e desafios,margens de felicidade ou sofrimento.

Uma vez singularizado, lançado na existência, o que mais profundamente pode determinar e orientar o destino? É a apreciação profunda, genérica, que se institui no interior e em si, na interface da relação consciência-existência,
gravitação na qual se configuram e estabelecem os eixos conceituais relativos às grandes dicotomias: ‘sujeito-objeto’, ‘eu-outro’, ‘eu-cosmos’, ‘eu-divino’, todos, atributos elementares dessa relação continente e central.

A natureza dessa relação consciência-existência é essencial: uma apreciação positiva e unitária, geradora de um processo íntimo de concórdia e serenidade, revelará um processo criador e dialógico, fenômenos opositivos e contrastantes, mas complementários, motivadores de disposições harmoniosas. À luz de um entendimento divergente, opositivo e dualista, imaginar-se-ão reações conflituosas, implicando rupturas incontornáveis, doutrinando-se alternativas esperançosas, até mesmo imaginando-se potenciais de reunificações em planos hipotéticos.

Do ponto de vista filosófico, a primeira atitude, vislumbrando uma natureza unitária e paradoxal frente ao processo existencial, se caracteriza como um monismo participativo e integrador; a segunda, perfaz um dualismo
dogmático e sectário. Esse monismo, instaurador de uma relação consciência existência combinante e serena se inscreve num eixo de perspectiva metafísica, nos meus escritos denominado cosmo-existencial enquanto que o dualismo se inscreve no eixo de perspectiva metafisica transcendente-transcendental.

A mim mesmo indaguei: essa relação da consciência com a alteridade, a relação consciência-existência que testemunho e vivifico na primeira pessoa, exemplifica uma união fenomenal ou uma ruptura abissal? Qual a sua apreciação? Reunir ou separar? É nessa espagiria operada no mais profundo do estado-de-ser, que se fecham e abrem destinos. Onde está a pedra filosofal capaz de curar e reunir o desunido, reposicionar o eixo cosmo-existencial – pedra sobre a qual erigir uma nova vida e civilização?

NAMASTÉ!

Imersos na natureza e nas formas gerais da cultura, somos congêneres, existimos no mesmo contexto. A consciência imediata de ser o que somos, as faculdades da imaginação, o estudo dos sentimentos e pensamentos, atitudes e comportamentos, a interação da sensibilidade e inteligibilidade no propósito de compreender as relações com o que é outro, configuram, em conjunto, uma forma de cognição compartilhada.

Como chegar-se a uma resposta filosófica apenas analisando ‘coisas’ e a logicidade dos ‘conceitos’, descartando o resto? Virtuosos ou não, os sentimentos são, com toda evidência, aspetos que determinam as escolhas que se fazem ao enfrenar a existência. Somos uma conjunção de atributos físicos e cogitativos; logo, além de ser um processo de descoberta, a busca filosófica é, paralelamente, um exercício de encontros, processos dialógicos, escolhas e decisões – tudo o que perfaz a realidade existencial se apresenta para ser apreciado e considerado de diversas formas, com diversos métodos.

Uma filosofia é uma filosofia quando reporta frontalmente à experiência de existir; ela deve realizar-se em amplas perspectivas, começar das instâncias mais terminativas e profundas, fornecer um ponto de partida e
orientação sólida, credível, para que se escolham condutas justas e sensatas. Sem uma apreciação intuitiva e estética que verte a consciência no campo universal, não se acha o ponto de mutação, o alfa e ômega que reporta o estado-deser ao que não tem limites.

Toda filosofia, mesmo complexa, elucubrando hipóteses, parece querer (re)estabelecer uma ponta, ou conexão, entre um sujeito angustiado e a intuição de uma realidade harmônica, do Belo que repousaria a busca em silêncio resoluto e sereno. Mas os usos e costumes da cultura que viceja – suas políticas destrutivas e hábitos sustentados em educação impositiva, ‘bancária’ nos termos de Paulo Freire – obstruem o contato intuitivo com a essência unitária que não se descreve em termos lógicos, como se fosse objeto.

Uma filosofia condicionada em especificidades cognitivas reduzidas não desvenda valores universais; uma escola que repousa as suas razões numa corrente infinda de citações que desaguam em coisas tradicionais, mas aceitas sem exame é doxa, reporta a opiniões. Não se pode conhecer o que é essencial a partir de perspectivas não examinadas, reportadas, latentes como tabus, ou cogitadas nos modos de um observador racional, mas inapto à justa consideração da intuição, valorização genuína da relação consciência-existência que vigora em primeiro lugar.

Uma filosofia lúcida, unindo o abstrato e o sensível, compartilhando inteligência, deve confrontar o estado-deser na arena existencial, não ofuscar a realidade evocando ‘testemunhas neutras’ almejando fazer do ‘mundo’ e do ‘sujeito’, eventualmente circunscritos entre parênteses, algo com uma entidade ou coisa que se pudesse testar e delimitar através de um instrumento quantitativo e lógico montado e instalado numa bancada de laboratório ou lançada em órbita.

Tampouco é suficiente ‘pôr entre parênteses’ processos racionais e dissociativos geradores de pareceres confusos, mas vulgarizados como heranças culturais: tais dubiedades e hipóteses não se superam por afastamento provisório, falsificação progressiva, ou negação simples; negadas, continuam servindo de contraponto referencial, comprometendo a clareza do discurso e da busca que passa a acontecer como uma escavação cega onde se tenta progredir rejeitando o que não é. Esse laboratório analítico não produz evidências que sanam a angústia existencial, tampouco o niilismo, que resultam do não reconhecimento e apreciação do que simplesmente se é – natureza-ciente.

A intenção que procura conhecer com naturalidade os mistérios da existência abrange o reconhecimento e domínio dos planos fundamentais; da justa percepção dessas relações e correspondências decorrem praxes sóbrias, instituídas em inteligibilidade e sensibilidade, onde abstrações evolvem em completudes totalizantes que satisfazem o intelecto e enlaçam o pensador em realizações numinosas5 que alegram o coração; tudo convergindo em estruturas que envolvem o estado-de-ser em modos e atributos incontornáveis e de profunda harmonia.

Visionários, poetas, artistas e filósofos que se reconstruíram muitas vezes nestas buscas e reflexões, não se apegam a ideais dicotômicas que imaginam romper a relação consciência-existência que se é, evocando um sujeito instituído em ideias, fiador de um saber reservado, contrastando com um eventual sujeito destituído de ‘razões puras’, incorporado a um mundo sensível e acidental. É possível reaprender a filosofar com sobriedade, como um indígena, um antigo mestre de saber, carregando no coração e pensamento reunidos, como um farol, a essência vinda da origem e selada na união generativa e amorosa dos gametas.

A filosofia fenomenológica de raiz, integrada e justamente compreendida, traz no seu bojo as ferramentas que configuram um justo e sóbrio entendimento, começando um discurso centrado, buscando a partir do ‘interior-em-si’,
lugar e fundamento onde se encontra a essência que reside na comunhão justamente apreciada da consciência e da existência.

Nesse processo, surpreende e comove a convergência identificadora que se estabelece entre a totalidade da cognição e seus objetos, o mundo mensurável (esse ‘estado extensivo’) e o ser inteligente e sensível (esse ‘cogito
filosofante’)’: ajuntam-se num sym-bállein7, estado-de-ser integrado, celebrando a vida, espargindo e refletindo universais, como uma mandala; conjunção onde a essência é amor antes de ser razão – a união não se analisa e o Belo não se formula, se intuem.

Um mesmo fenômeno biológico, social e psicológico, arquiteta a corporeidade e a cognição, corpo-e-visão, com razão e sensibilidade. Em si mesmo se consagram a unicidade de classes e categorias paradoxais, sem por isso acuar o vivente em angústias existenciais e dilemas insolúveis.

O estado-de-ser, singular e universal, é a estrutura fundadora, o que existe primeiro, contendo em unidade e justapondo em harmonia ser-estado e estado-ser em grau diversos de acuidade, presença e reflexão: essa interatividade, como apriorismo radical, é categoria existencial prima.

Não existem objetos da ‘história natural’ fora do campo da consciência historiadora e categorizadora, igualmente natural, a não ser como hipótese. Acontece uma triangulação integrada, de dimensões universais: lugar originário a que se pertence como vivente (Ethos), evidenciando um saber e uma inteligência intuitiva e reflexiva que se demonstra por ser o que se é (Logos): lugar e saber associados e unidos como irmãos em comunhão conjuntiva (Mythos).

A dualidade se transcende no surgimento desse rebis , feito de lugar existencial e
consciência integrados. O a priori de toda ciência, fonte suprema das teorizações, telo e teologia, jorra da experiência imediata e autoral do estado-de-ser, que seja mentor lúcido ou iludido.

O que devo escrever para expressar o que parece ter sido intuído pelos filósofos basilares até Sócrates, evocado pelos poetas, artistas e crianças de todos os tempos? O que devo dizer, até mesmo construindo um discurso contextualizado ao redor das ideologias vigentes, para apontar esse contato metafísico e poético, comovente, rompendo, como se fosse filó, as arquiteturas sofisticadas desse sujeito pensativo e recalcado, imaginando-se perdido, separado do mundo e do numinoso, necessitando guias, especialistas e normas para achar sentido e orientar o seu viver? Como exaltar um sentido sereno que aprecia a existência? Como assentar no coração as diástoles e sístoles desse mistério de aniquilação e reencontro universal?

Penso, até provar em contrário, ser muito adequado afirmar: a união existencial da consciência, e do corpo, e do mundo, é inabalável: a unidade paradoxal é o fundamento primal que sustenta a experiência, a totalidade da criação dada a conhecer. O reconhecimento dessa união primal desconstrói e desperta esse sujeito esquecido, estanhando a si mesmo, num imenso evento terminativo onde se revela a identidade original, substância e essência firmemente enlaçadas.

A paradoxal união da consciência e do cosmos desafia as reflexões hipotéticas em espanto e mutismo, nulifica os ‘telos’ fantasiosos que se substituem por sentimentos de fusão com os elementos: mar, sol, céu da noite ou do dia, percepções e abstrações sensíveis correspondentes: abrem se janelas de luz, novas inteligibilidades e saberes, por onde se desdobram as frases poéticas e indígenas de uma nova vida e civilização. Uma (re)união que revela um ‘eu-sou’ imenso, galáctico como um uróboro, incluindo a totalidade da criação, o todo.

Trata-se de uma razão filosófica sensível e qualificada, onde flui, em vias paralelas, ao lado dos saberes e das reflexões, uma praxe corajosa e prudente, que considera a situação existencial e rememora a historicidade em busca de despertar a grandeza e o talento da criança em apreciar o Belo.

A honra e o bom humor do estado-de-ser já despertado, igualmente indivíduo e totalidade, é fundamental na construção de um espaço filosóficoexistencial que possa coordenar uma renovada ciência-de-si, crescendo do singular ao universal em busca do sublime.

DA FILOSOFIA QUE AQUI SE EXPLICITA

Notifica-se que a filosofia aqui explicitada não é um repertório conservador de razões matematizadas e formuladas, ou, apenas, um romantismo. Não é uma filosofia que se conforma aos acordos reduzidos de um modo intelectivo e dissociado de pensar, não é cientificismo, palavra repicada em uso, costumes, etiquetas e prevalências.

Trata-se de uma filosofia profunda, ou ‘sistêmica’ num sentido que transcende o racionalismo metodológico: não se exclui nenhuma das funções psíquicas, integrando a totalidade da cognição nos processos investigativos.

É filosofia existencial, ética e estética, sendo a referência fundamental o conhecimento do leitor, juízo final de valor; um intento passível de ser decodificado e compreendido por todos os humanos com sensibilidade e veio poético; filosofia construída para encontrar a melhor forma de significar e experienciar a vida, em si e em coletividade, descrevendo um posicionamento autonômico e renovado em busca de mais sabedoria – eutimia e eudemonismo.

Compreende-se que não se trata de uma busca dirigida a objetos culturais, como ciência, arte, economia, política, história da filosofia ou obras de autores definidos: não é filosofia que instrumentaliza objetificações, não é positivismo, investiga-se o existente como existente.

Expressa-se o fundamento e orientação dessa razãoqualificada, criando o conceito ‘eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial’ (ePMCE) para flanquear essa filosofia ao nível das esferas teleológicas que compelem o
enquadramento civilizatório vigente, permitindo a superação da metafísica dualista e a sua trindade de ordenamentos: teológicos, cientificistas-positivistas e políticos-midiáticos: palanques e púlpitos a partir de onde
se molda, como um boneco de barro, e vulgariza o conceito mor da modernidade, esse ‘sujeito/objeto’, essa criatura coletivizada e massificada: ‘homens-de-quételet’.

Utilizo a expressão ePMCE para expressar a natureza dessa razão qualificada e aberta, evitando o uso central de termos como ‘ontológico’ e ‘ôntico’, envolvidos nas nuanças conceituais consagradas no kantismo e heideggerianismo – termos enclausurados em véus reflexivos, afastados das definições pré-socráticas e aristotélicas primordiais onde um empirismo ponderado (uma forma gnosiológica indígena), conectava o ‘ser’ às suas dimensões cósmicas permitindo um outro exercício de filosofia.

Nega-se essa subjetividade kantiana rigorosa, ponto de repique da filosofia racionalista-idealística, onde a busca dos princípios gerais acontece focada no paradigma apriorístico, ainda não suficientemente desafiado, de um
‘sujeito-objeto’ ensimesmado, possuidor de um ‘ser’ descrito, na melhor hipótese, como um ‘nós no mundo’, investigando um destino mediano envolto em negrume, esperançoso ou tenebroso, com uma mirada na história e
outra nas ideologias, laicas e teológicas.

Nega-se, como pressuposto construído em evidências simples e intuições estéticas e vitais, a possibilidade de delimitar um sujeito separado da sua natureza, de decantar um subjectum do sujeito, contrariando a premissas fundamentais do pensar filosófico instituído – entre outras, as tentativas husserlianas e heideggerianas.

Ao predomínio escolarizado desses conceitos dicotômicos e adernados em teologismos ultimamente enraizados no masdeismo, maniqueísmo e tomismo, respondo com os argumentos mais sóbrios e sensíveis do essencialismo13 e da metafísica cosmo-existencial.

Dito em termos filosóficos: advoga-se a incompletude e o sectarismo fundador de uma filosofia da ipseidade, construindo uma abordagem universal ao redor do conceito de asseidade 14 como significado equivalente ao conceito contemporâneo de autopoiese, evocando uma interface onde intuição, virtude e sentimento, em união com a razão, estacam inegáveis ordenamentos existenciais.

O espanto comovente de sentir a natureza e o cosmos como portadores fundamentais da nossa mesma identidade é suficiente para justificar e apreciar a existência dada a ser: aqui, Sísifo é criança, encantado e feliz, descobrindo
mundos em cada grão de poeira, ele rola a pedra em espirais infinitas, surpreendentes e sublimes.

Uma impressão metafísica infeliz, que desqualifica o estado-de-ser e resulta em vivências que desencontrem e empobreçam, não deve entravar a realização de uma apreciação filosófica consciente em busca de opções mais côngruas; uma transformação facilitada pela compreensão da considerável importância da ‘impressão metafísica batismal’: apresentação inicial e ritualizada de um ou outro juízo de valor relativo à relação consciência-existência. Intuído e reconhecido outro potencial e opção de valorização, é possível estabelecer um diálogo e superar com responsabilidade as introjeções condicionadas e reproduzidas em usos, costumes e educações que reforçam a estraneidade do sujeito, do ‘Eu’.

Não parece difícil reconhecer que uma pedagogia talentosa deve revelar a realidade imediata da unicidade, com profundo respeito e virtude, fraternidade e liberdade, em todos os graus, poderes e responsabilidades. Um parâmetro útil e fiel para definir o que vem a ser uma boa vida, deve, por certo, explicitar com valor de verdade, uma justa, nobre e concordante relação do ‘ser’ com a (sua)  ‘natureza’, o que implica o cuidado de não ofuscar as buscas com preconceitos desavisados ou paradigmas latentes e apriorísticos, apanhados em educandários onde, reduzida, a
razão mal sobrevive.

A filosofia aqui proposta, compartida entre inúmeros poetas e filósofos, todas as crianças, parte de um patamar atuante de autonomia e recordação onde a experiência de plenitude se inscreve como potencial natural e área de
conhecimento imediato17; odisseia primordial, mãe de todo filosofar: um conhecimento sempre ressurgindo, transcende as distorções típicas e sofísticas das edificações psicossociais que cambaleiam. A vida vale como ela é: um momento estranhamente criativo cuja possível glória se acha compartilhando e cultivando, com bom-humor e respeito, a unidade que origina e vitaliza.

Nesse processo cognitivo dedicado à investigação dos arcanos impreteríveis do pensar filosófico, num tempo relativo à dedicação e ao vigor das buscas, o estudo e a contemplação afunilam em saberes incontornáveis, referenciais terminativos de todas as ‘ontologias e -logias’: saberes efetivos, focados na origem e identidade da relação consciência-existência, saberes metafísicos suportando escolhas e decisões responsáveis.

DAS EXTRAPOLAÇÕES DA CIÊNCIA FILOSÓFICA

Antes de anuir com conjeturas ilhadas em equivocidades18, mais sensato é tentar compreender a sua natureza própria, imediata, partindo de evidências mais integrativas: o existente, originado e identificado aos seus
contextos, acontece e preexiste aos seus cogitos idealísticos! Os desvios metodológicos do idealismo e cientificismo, incluindo as afiliações batismais iniciais e institucionalizações subsequentes, condicionam uma postura artificiosa, ativa e prevalecente, mas oculta, em que filosofar acontece embutido numa representação alegórica; um lugar imaginário a partir de onde, seduzido, cooptado, o sujeito atua como se fosse ouvinte ou porta-voz representante de um verbum primordial.

Envolvido na alegoria, flutuando nas alturas incólumes da razão pura e reservada do ‘grande sujeito’, abaixo da arca verdadeira e enciclopédica, castelo de toda a ciência e filosofia, o adepto examina os pensamentos outros (alteridades), catalogados e indexados em escrituras e quadros negros, recuperados à luz dos preconceitos dominantes e mais citados; historiador, arqueólogo da consciência, supervisor mor e dileto das intenções alheias,
entendidas ‘anedóticas’, ou, consideradas relevantes apenas quando biseladas de acordo com as ‘metodologias’ da tradição – condição necessária de visibilidade.

Uma reserva metodológica prepotente e absurda extrapolada à categoria de instrumental cognitivo basilar da busca filosófica: por desconsiderar os fundamentos frontais e paradoxais do acontecimento existencial, e, por
escamotear as necessárias e primordiais impressões estéticas e éticas na construção da intuição filosófica cuja sensatez e vitalidade depende da virtude das apreciações e posicionamentos incorporados, escolhidos ou não. O cientificismo, essa postura operante e modernosa, alegoria laica correspondente ao dualismo teológico, não permite apreciar o estado-de-ser na sua justa esfera e tônus existencial.

O pressuposto tutelar amplamente difundido: “do ponto de vista da academia, não há filosofia melhor ou pior”19, acusa esse ‘cientificismo filosófico’, denotando e conotando: 1) que as elucubrações metodológicas
pertencentes à ‘visão-compromisso’ dessa academia não permitem, ou autorizam, alcançar um saber e conhecimento ciente e virtuoso; 2) que essa neutralidade cientificista e filosofante acusa um ponto de vista condicionado que não
consegue distinguir o melhor do pior; 3) que o ponto de vista dessa academia não é um belvedere suficiente para diferenciar o melhor do pior. Um posicionamento neutral, como uma bandeira içada a meio-mastro, evidenciando um intelecto ainda laçado nas adriças teológicas, assombrado, onde o melhor e o pior não se normatizam em concerto com a luz natural da razão, mas se ofuscam de acordo com a exigência dos dogmas; dogmas desacreditados como valores de verdade, embora, ainda não ‘de fato’, latentes como tradições batismais geradoras de estratificações
institucionais fundadoras de rotinas proveitosas.

Afirmar não haver filosofia melhor ou pior, significa negar o valor da filosofia e afirmar-se suposto detentor de uma valia superior, de uma mirada in excelsis instituída em dogmas. Essa academia instituída no status quo civilizatório, com frequência instalada em pátios de igrejas desertados dos poetas e livres-pensadores, cultiva um cogito preposicionado, ancorado à enredos políticos que compartilham a mesma tradição e fundamento metafísico. Com efeito, não se pode examinar o processo existencial na alegoria de descritor autorizado, testemunha tutelada, porta-voz midiatizado, comprometido com uma proferição de neutralidade, lavando as mãos, a não ser parodiando a existência como se fosse um teatro ou um jogo cultural metrificado em regulamentos. Ao afirmar essa ‘neutralidade’, os adeptos do cientificismo e positivismo assumem um ponto de vista soberano, idealístico e
ajuizador, regendo distinções a partir de critérios hipotéticos e contraintuitivos; fogem do ponto existencial e fenomênico que, com efeito, esclarece e neutraliza os desvios e abusos: não existem argumentos que suportam a estraneidade paradigmática do ‘eu’, medidas aptas a diferenciar figuras como ‘sujeito’ e ‘objeto’.

Retóricas e hábitos cognitivos reduzidos, descuidados, induzem a confundir hipóteses idealísticas, alegorias e metáforas, preferências e obediências fundadas em religiosidade supositivas, com posicionamentos metafísicos
confrontados sem intermediações, depauperando a filosofia em equacionamentos lógico-gramaticais e apoéticos, fazendo a vida parecer um palanque de discórdias e equivocidades. A dissociação cognitiva do vivente do plano fenomênico impossibilita o reconhecimento frontal do paradoxo unitário que acontece antes das diversidades, mas, igualmente, desautoriza o existente, fomentando extrapolações sectárias indutoras de ideologias coletivistas, personalidades autoritárias e movimentos socioculturais conflituosos e destrutivos.

Não se pode instalar a paz no mundo supondo-se portador de critérios de verdades pautados em dogmas revelados ou tradicionais, a partir de uma alegoriagnosiológica condicionada e decorrente dos ritos e sectarismos fundadores. Lançar a razão em órbitas, condiciona-la em metrificações relativas a preconceitos, ou jogando dados, não traz veracidade, tampouco sabedoria. Confundir superestratificações20 construídas em manobras artificiosas, instâncias de força e poder, com patamares de referência necessários e sensatos, poderá fornecer pontos de vista engenhosos, fortalecendo posicionamentos históricos proveitosos, políticos e culturais, contudo, relativos e correlatos ao artificialismo e dubiedade das suposições fundadoras, não fornecendo veracidades que justifiquem o processo existencial como acontece in natura.

Ninguém jamais poderá testemunhar o Cosmos a não ser como integrante típico e probante imediato, entranhado nos princípios e leis da natureza, pertencente ao espaçotempo correspondente à experiência. Ser para ser exige pertencer (um ter e ser em união), estabelecendo-se a existência de coordenadas paradoxais irrefutáveis e universais, apesar de encobertas e sub-rogadas nessas alegorias, estilos pedagógicos e anuências sociopolíticas: existir é acontecer no momento universal, agregando em união o campo do ser e do ter: não querendo perder-se em
desencontros, melhor é não confundir o real com representações prediletas e proveitosa, alegorias e máscaras tuteadas. Cultivar elitismos e circunscrever eleitores e alunos em classes, em nome de abstrações como ‘povo’ e
‘cidadãos’, ‘fíeis’ e ‘mercado’, instituindo perspectivas políticas e econômicas carentes de discernimento e virtude, estabelece graves rupturas, suficientemente comprovadas.

DO DISCERNIMENTO JUSTO E SAGITAL

É preciso retornar ao início, desembaraçar a mesa, reaprender a conhecer a partir da instância mais original do saber, instituída no fenômeno da diferenciação, onde um ato estruturador de distinções opera em campo unitário.

Trata-se, igualmente, do começo da ciência-de-si e do princípio realizador, chave de todas as criações cientificáveis: nada existe sem distinção, quer seja na esfera do objeto ou do sujeito, ou na diferenciação entre um e outro. Uma teorética remoção radical das distinções retira a possibilidade de qualquer ontologia. Não se cogita um vácuo absoluto, infinito sem distinção alguma: a imaginação do imaginador distingue-se do vácuo ou infinito imaginado: o vácuo absoluto não se distingue, a não ser como hipótese (a ‘não ser’): tal evento inexiste para o existente. Uma hipotética gênese primal, fundadora, irrupção metafísica primordial em busca de existencialidade, implica um processo de diferenciação: nada pode ser conformado à realidade e ao campo existencial, isto é existir, sem a operação de distinções fundamentais, sejam, confrontadas com sobriedade, contempladas, ou então, demarcadas em mitos e dogmas.

No âmbito dessa filosofia fundamentada no eixo deperspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE), a distinção-em-si, a interface ontológica e dialógica do estadode-ser, é eleita como foco realizador, âmbito vivo e essência discernente, e, as setorizações (os atributos extensa e cogitans na mais ampla abrangência) como instâncias dialógicas. A partir desse eixo de perspectiva, compreende-se a capacidade de distinguir, como necessidade existencial criativa e primária: o fenômeno propriamente dito – um feixe de lucidez inscrevendo demarcações fronteiriças a partir de onde dicotomias relativas se revelam e se coordenam, manifestando oportunidades de interações instituídas ao redor das inscrições primárias como linhas traçadas em pautas brancas.

Os atributos definidos por Espinosa a partir das res de Descartes configuram-se delimitados em referência a um processo coexistente, conato e centrado, rebis atuante em campo unitário. Trata-se de um posicionamento sensato, instituído à luz da razão livre e natural, a partir de uma referência existencial testável no ato e foco da consciência que se experiencia e exemplifica: o ato discernente-em-si
frente ao dado-a-ser, no coração do foco discernente/discernível, isto é, o ePMCE é aqui considerado natural e original, posicionamento mestre, autônomo, sóbrio e prudente, de todos os viventes – como um bastão de ouro plantado em vale fértil. Nesse caso a distinção-em-si é escolhida e eleita como foco inicial do acontecer existencial, âmbito vivo de discernimento, e, as polarizações como eixos e instâncias dialógicas apenas reais na presença da consciência que diferencia e integra.

O projeto metafísico primário e generativo, relação operante da consciência de si com a consciência do que é outro, reporta aos fundamentos intrínsecos e inevitáveis da existência, onde o Mythos pertence a Psyché tanto quanto o Logos – integrando-se em união a relação consciênciaexistência, Ethos. Tal evidência imediata, intuitiva e primal, é expressa nas tradições e artes de muitos povos: os símbolos referentes a esse fenômeno metafísico expressamse em diversos mitos que ilustram essas separações e distinções como princípios fundadores exigindo posicionamento.

No Gênesis, os enquadramentos originais se expressam demarcando o espírito das águas – “o espírito divino se movia sobre a face das águas… Fez-se a separação entre a luz e as trevas… Deu-se forma ao vazio, criou-se amanhã e a tarde, o primeiro dia”. Na evocação mítica, o que vem primeiro estrutura distinções fundamentais: forma e vazio; manhã e tarde; espírito e água; luz e treva. Estar imerso em processos diferenciadores primários, inteligíveis e sensíveis, é vir à luz, experiência vivida por todos ao nascer: desperta-se luz e consciência do negrume da inconsciência, diferenciam-se as sensações proprioceptivas das sensações do clima, descobrem-se dias e noites, manhãs e tardes. De antinomias enlaçadas em negrume e lucidez, nasce o primeiro dia como uma estrela na noite.

Em outras mitologias, mais integrativas e dialógicas, o poder do mito, simbolizado como um bastão de ouro, busca um terreno receptivo e de concórdia: na Mitologia Andina estabelece-se um diálogo criador e gerador de harmonia entre ‘terra e sol’, ‘céu e lagos’, ‘montanha e vale’, ‘norte e sul’, ‘homem e mulher’ (o casal de irmãos Mama Occlo e Manco Capac): “no lugar onde o bastão de ouro penetrou a terra, em Cuzco, reconheceu-se o centro da civilização sagrada do sol… O irmão indo ao Norte e a irmã ao sul, reuniram todos no centro, na cidade, para bem viver em comunhão, homens cultivando e irrigando, mulheres semeando e colhendo”. Aprende-se a decodificar informações e denominar distinguindo sensorialmente os objetos, privilegiando contrastes opositivos ou harmonias complementárias.

Neste processo existencial: como reagir? O que sentir? Como intuir a natureza e o significado existencial dessas dicotomias criativas, igualmente, construtoras de saber e reveladoras de não-saber?

O processo suporta, ou afunila, dois entendimentos diferenciáveis como imediato-intuitivo, e reflexivointerpretativo. Uma demanda de inteligibilidade, do ponto de vista da cultura instituída e eventual, fomentou a possibilidade de entender o fenômeno existencial de duas formas, determinando o surgimento de dois eixos de perspectivas metafísicas, no momento divergentes, ofuscados, mas, efetivamente, imbricados como dois madeiros de um cruzeiro inscrito num círculo.

Existindo o estado-de-ser entranhado em contextualizações criativas, naturais e culturais, [Ethos]: as linguagens e relações simbólicas, as configurações explicitadoras, intuitivas ou interpretativas, que se revelam nos ordenamentos locutórios e perlocutórios [Logos], assim como as artes, poética, ritos, cultos, arquiteturas e cantos [Mythos] operam em sincronia: em conjunto denotam a
civilidade, a política e a gama de valores estabelecidos e vigentes. Essas relações, suas propriedades e características, correspondem, em tudo, aos significados dos termos descritores e conceitos definidores: precipuamente, as pedagogias e estruturas de saber e poder se vivenciam ao redor da apreciação fundadora e central da relação consciência-existência, ou, do modus metafísico que se reconhece: essa trindade essencial (Ethos, Logos, e Mythos) modula e instrumenta a apreensão metafísica que sustenta entendimentos, atos de fala, atitudes e realizações estruturantes do ponto de vista civilizatório.

METAFÍSICA – SABER PARADOXAL

Concentrar-se sem desvio no estudo dessa junção metafísica revela um estado-de-ser pleno, um rebis, como uma Fita de Möbius: uma estrutura paradoxal em que a
consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram um símbolo que ajunta as dicotomias em um enlace cujo sentido terminativo é união.

Uma convergência, que por unir, relativiza as diferenciações e, na busca mais intensa, nulifica ou reabsorve o ato primeiro de consciência tributário da
faculdade de discriminar: a união dissolve as distinções; repousam-se as luzes da razão no tálamo da natureza própria, uma junção radical onde inteira-se uma
grandiosidade unitária e paradoxal que bem se reconhece, mas que ultrapassa os potenciais da compreensão: nada sei. Um ‘não-saber’ experiencial que volta a ser compreensível na disjunção ígnea que se extroverte afirmando o continuado paradoxo original ao redespertar a luz da razão que agora discrimina. Assim constitui-se a primeira grande certeza filosófica, com honor e justiça, dita ‘socrática’, enunciada desta forma: sei, que nada sei – dita em termos
teológicos: epifania, intenção radical da consciência no arco misterioso do incriado e do criado.

A revelação unitária agrega os anseios de saber da filosofia com os arroubos infindos da espiritualidade, pondo os termos conhecer e compreender a dialogar: deste modo, configura-se o núcleo fundador de uma filosofia instituída no eixo de perspectiva cosmo-existencial.

Evidencia-se que o termo ‘metafísica’ refere a uma impreterível relação do Cosmos e da esfera existencial, com uma apreensão centrada e resolutiva na relação da
consciência com o que é ‘outro’, ordenando uma resposta, exigindo uma atitude. Num tempo só, um saber e não-saber testemunhando a impossibilidade de esclarecer a natureza, origem e limites da (auto)consciência como instância fundamental do próprio saber e existência; a impossibilidade de descobrir e delimitar as fronteiras da (auto)consciência com a substancialidade, fundindo-se a dialética das intenções buscadoras e das praxes numa estrutura unitária e paradoxal. Um saber não-saber onde a realidade, percepção, sensibilidade e representação colapsam como nebulosas em coordenadas cosmológicas, com resultante universalização da apreensão cognitiva do estado-de-ser, humano e cósmico.

O estado-de-ser envolto em mistérios fascinantes perfaz todas as revelações e ciclos descritos pelos antigos, para retornar ao seu estatuo manifesto de homo sapiens sapiens gerador de poética e visões, odisseias, que congregam Ethos, Logos e Mythos num triângulo claro e sublime, ético, intelectivo e estético, fundindo os potenciais do Cosmos planetário aos do olimpo reunidos como céu e terra – acontecimento e momento atual onde sempre se escuta tocar as trombetas e as conchas da vitória.

Um fundamento presencial, comparecimento nuclear, compartilhado por todos os existentes, idêntico e original, é a referência absoluta ao redor da qual acontecem todas as classes e categorias. Trata-se de uma referência que encontra expressividade exemplar na noção grega de momento (Kairos); uma apreciação tangível como uma mandala, instituída nas coordenadas da abstração e da estética sensíveis ao Belo; uma dimensão filosófica prima que coordena e flexiona todos os eventos e possibilidades, inclusive o conceito mais radical e sincrônico: ‘numinoso’,
ou divino. Ninguém poderá apreciar o sublime que enraíza na união terminativa das res cogitans e extensa, imaginando-se ao lado, ou acima, reduzindo e deturpando a experiência sensível de Kairos numa ‘eternidade sobrenatural’, intangível e reservada. Apenas o momento criativo e absoluto, a partir de onde emanam sentidos, conceitos e especificidades variegadas e complementárias,
permite o (re)conhecimento da harmonia e unicidade da consciência, da corporeidade e do mundo: a infinita primazia da justa noção de Cosmos que rompe as grandes dicotomias e enlace as teleologias.

Tudo o que se pode conhecer refere, em todas as conjugações, à existência e a nós-mesmo como existentes, presentes e pertencentes. Trata-se da apreciação da
plenitude do estado-de-ser, contexto e selo intuitivo de sabedoria, que, nas asas da apreciação estética e meditação profunda, eleva o existente a uma expressão infinda, paradoxal e jubilosa, nos arcanos do dado-a-ser. Neste contexto, opinar sobre a existência, o mundo, a vida, em todos sentidos e destinos, pesos e graus, é opinar sobre si mesmo, em instância primeira e final: achar-se estranho, banido e indigno, necessitando de guias, só poderá levar a um retumbante fracasso existencial.

DA NATUREZA COGNITIVA DO NÃO-SABER

Em que se diferenciam: a predicação metafísica padrão, ou ortodoxia batismal transcendentetranscendental, equacionada entre as convicções do sujeito e os arcanos da suposição; do não-saber sábio, empíricoexistencial,
autêntico?

O não-saber sábio refere a um exame genuíno do fenômeno existencial, instituído no reconhecimento incontornável dos limites da razão (incerteza racional,
ceticismo), acrescido do conhecimento terminativo, efetivo e empírico, maximamente depurado, referente aos longos alcances do saber intuitivo, onde se comprova a ambiguidade da dicotomia e a unidade paradoxal: busca resultando numa alquimia espagírica, um rebis misterioso, que revela a união do conhecedor e do conhecido, do visionário e da visão.

Trata-se de um encontro existencial em que os atributos, ou substâncias interdependentes, res cogitans e extensa, antinômicas e contrárias, reúnem-se num evento paradoxal, negativamente contido nos potenciais do saber:
tabernáculo pleno e vazio de ser-e-não-ser, ponto de junçãodisjunção, essência e mistério. Assim sendo o não-saber cosmo-existencial institui-se por intuição e confrontações autorais, através de uma busca filosófica dedicada, corajosa,
exemplificando o exercício magno das virtudes cardeais, resultando numa anuência lúcida e humilde frente ao dadoa-ser, no reconhecimento e aceitação do paradoxo e mistério existencial. É mais virtuoso cultivar um bom-senso
justamente contextualizado de que cultuar insensatez, embora esperançosa. Sintetizando: conheço a unidade paradoxal da relação consciência-existência, logo, sei que nada sei, caracterizando um não saber ciente, ou sensato.

O dogma da ‘coisa-em-si’, fiador contemporâneo da ignorância mediévica, institui-se em três eventos: uma credulidade vulgar, fundamentada por mimese, aceita por
imposição simples e ritualizada (acredito porque me foi dito e ensinado nos ritos da tradição); uma problematização de ordem racional, confrontado apenas pelos que pensam e meditam: as dúvidas da razão (incertezas relativas à
natureza dos universais – alicerces da fé), acrescido de uma omissão das veracidades efetivas, autênticas ou experienciais: a desconsideração dos alcances filosóficos profundos da contemplação e saber intuitivo (não querer
saber). Portanto, a ignorância e credulidade dogmáticateológica estruturam-se por mimese, limitação e omissão, configurando um enredo falacioso de preconceitos e tabus; perplexidades que se divulgam e massificam por
convencimento e imposição, sustentando infindas esperanças e predileções de natureza pragmáticas – causa efetiva e final: acredito na minha rica e proveitosa tradição batismal e não quero experimentar ou duvidar.

Logo, a diferença entre não-saber ciente e a credulidade teológica é abissal: um lado se caracteriza por sensatez e anuência, o outro por imprudência esperançosa e tripla rejeição: ser adepto da ortodoxia metafísica implica, a priori, imaginar-se afastado de três lugares, dois reais e um hipotético: o eixo cósmico – nas nossas dimensões: sol & planeta – não é reconhecido como berço original, potencialmente aconchegante, mas desterro indigno, destino dos gentilícios e indígenas; tampouco se reconhece na corporeidade uma estrutura incontornável; por fim, concebe-se um céu-telos factualmente ignoto, extrínseco e sobrenatural, antitético à vida, postulado como esfera cristalizada e imutável de perfeição apenas acessível na
morte.

Ao apostolar aspirar um significado locado num além insensível, para sanar a sensação e ideia obsessiva de um “universo frio e sem sentido”24, a perspectiva metafísica dualista, subjacente às ideologias catequistas, não se adequa
com a experiência e o imaginário vivaz das crianças, adolescentes venturosos, de artistas, pintores impressionistas, ou, ainda, de naturalistas encantados com o mar, os campos, as florestas e montanhas.

O cenário adequado para quem escolhe descrever-se desse modo rompido (aceitando ser assim descrito), é, certamente, rebuscado, como uma clausura barroca, uma torre de marfim. Escolher ser dogmático e autoritário,
ordenar atuações a partir de contextualizações culturalistas obsessivas e hipotéticas, implica três negações: negar a adequação da natureza humana frente aos universais, negar a excelência da luz natural da razão, negar a aptidão de
suportar com lucidez as fronteiras entre saber e não-saber: isto é, renega, em bloco, a grandeza e perfeição cósmica, ao desconhecer ou desprezar a relevância ética do paradoxo, a lucidez do espanto frente à evidente comunhão dos opostos.

Recuar frente as completudes totalizantes, identificações universais e impressões numinosas, é negar e recusar: a convergência paradoxal do estado-de-ser num símbolo inquebrantável onde a consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram uma unidade que ajunta e colapsa todas as dicotomias num enlace grandioso; é negar a evidência imediata do estado-de-ser unitário, para
advogar uma hipotética desunião da substância e da essência, do existente e do Cosmos; é substituir um círculo cosmo-existencial e dialógico de amizade (symbolon) construído em torno de um ponto central de saber filosófico,
conhecível como cheiro de terra molhada, por uma esfera teórica reservada e privilegiada, impositiva, evocando uma transcendência intangível; é destronar e banir a grandeza e beleza da diversidade e da interdependência, expressões
criativas da teia que reúne o existente e o Cosmos; é trocar uma realidade surpreendente por uma esperança desvitalizada, infinitamente deslocada, conjuminada a um estado-opositivo, uma perdição instituidora de
pusilanimidade e supremacias passageiras e vãs, sustentáculo de cruzadas, violências, aprisionamentos e desamores.

DAS COORDENADAS METAFÍSICAS SECUNDÁRIAS

Uma filosofia, quando universal (e para ser universal), deve permitir o claro reconhecimento das mitologias batismais generatrizes de movimentos civilizatórios que agremiam e estratificam nações em ordenamentos e coordenadas societárias metafísicas secundárias. A hermenêutica filosófica genuína permite a investigação e o reconhecimento das perspectivas metafísicas, subsequentes estruturações civilizatórias secundárias (como instâncias culturais e políticas, contemporâneas ou históricas), transformando a relação e ordenamento do estado-de-ser numa questão sensível, ética e estética, exigindo posicionamento.

As grandes opções e escolhas existenciais do estadode-ser afunilam entre: 1) o posicionamento metafísico dualista, tributário de símbolos e mitos introjetados sem
conhecimento – obediência batismal – e raramente discutidos, decorrentes carências de explicitações; ou, 2) o posicionamento metafísico monista, que reporta a intuições amplas e profundas, focado na meditação própria, paradigma experiencial que exige respeito à natureza e nega entregar lucidez e razão ao altar da ignorância, tampouco deposita fé em agraciamentos elitistas.

Neste ensaio, epiteto os dois eixos de perspectiva metafísica em exame, respetivamente, de ‘primal’ e ‘excêntrico’, acrescendo um qualificador comum, dito
‘generativo’, porque ambos são geradores de ordenamentos civilizatórios e coordenadas societárias metafísicas secundárias – instância da trigonometria societária. Precisamente, o eixo de perspectiva metafísica cosmoexistencial (ePMCE), que explicita o posicionalmente genérico dito monista, é considerado ‘primal’, sendo o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (ePMTT), kantiano, explicitando o posicionalmente genérico dito dualista, considerado ‘excêntrico’ por não incluir o reconhecimento da união fenomênica na sua axiologia, ter sido instituído mais tardiamente, por superestratificação. A qualificação ‘generativa’ é comum, por explicitar o potencial dos eixos como geradores de ordenamentos civilizatórios correspondentes às suas respetivas coordenadas societárias metafísicas secundárias.

COORDENADA COSMO-EXISTENCIAL

A hermenêutica filosófica qualificada, exercitada com todos os valores da inteligência livremente reunidos em bomsenso, serve como instrumento geral, dialogando e marcando intenções a partir do finito existencial e do infinito cósmico, reafirmando um eixo existencial no qual se elabora um lugar em que vive o amor e a arte, uma civítica espiralando da terra aos céus26. O ePMCE, por descrever com realismo e sensatez o contexto fenomênico fundamental, amplamente intuído, natural, não necessita ser imposto por convencimento, bastando ser afirmado e lembrado. O projeto metafísico primal da experiência existencial explicita o que se intui, por isso, encoraja, quando necessário27, a justa relocação da consciência frente à sua destinação cósmica. Um núcleo lúcido, como uma oca,
possibilita a elaboração de uma trigonometria que coordena os arcos vitais do estado-de-ser: as coordenadas metafísicas secundárias típicas do ePMCE configuram uma trindade de eventos sociológicos: as psicogeografias naturais do Logos, do Ethos e do mito – respeito, convivialidade e criatividade.
Trata-se da psicogeografia do bom convívio onde se consideram a natureza, os sentimentos e se honram as visões e os mitos mais virtuosos, cultivando uma terra fértil de sabedoria e coexistências harmoniosas.

  • Psicogeografia do Ethos: acontecimento integrando corpo-mundo e gênero-espécie instalados em nações, isto é: psicogeografia do lugareiro, aldeia hospitaleira onde a humanidade acontece alojada como pássaros justamente aninhados; marco sereno de saber e saúde, como um bastão
    de ouro, ou caduceu, plantado em uma planície rodeada de montanhas e vales por onde rios serpenteiam.
  • Psicogeografia do Logos: sentimento e cognição28, pilares da razão qualificada, tabernáculo do saber: uma rosa ou pinha que não para de florir, um anfiteatro interrogativo, uma mandala que flora e irradia saber na trama infinita que se vislumbra nas malhas vanguardeiras da imaginação própria e coletiva. Uma visão e uma trama que abrange às
    alturas, para repousar e imprimir a marca do Cosmos no contexto vital, glorificando a natureza, respeitando o outro, das cordilheiras aos himalaias: a mãe-terra, Pachamama e todas as suas criaturas
  • Psicogeografia Mítica: desenhando um templo, um
    panteão olímpico e vivo entre nós, onde se aprecia o
    entusiasmo dos poetas e artistas, dos sábios e filósofos,
    visionários inventores, que expressam a esfuziante alegria
    das musas; realização onde se goza o prazer de ser natureza, onde se vive o céu das visões, habitando o templo universal
    das intuições; num voo planado nas alturas, encontra-se o
    portal mítico do saber e do não saber, onde se revela o
    estado-de-ser essencial, suspenso na infinitude dos seus
    potenciais, entre o tudo e o nada.

O humor, a retórica (agregado de poesia intuitiva e saber sensível), a fluidez das pontuações, permitem evocar múltiplos movimentos existenciais; decursos civíticos, compromissos pacíficos construídos à luz de uma hebegerocracia 29 somando o entusiasmo, a criatividade e a força dos jovens à sabedoria e razão qualificada dos anciãos, os dois pilares fundadores do bom governo. Uma estrutura
civítica onde os serviços sociais básicos – a administração e
cuidado das coisas públicas, o urbanismo, os sistemas monetários e de trocas – são praxes e dedicações voluntárias dos jovens, instruídos e orientados ao longo desse rosário incessante de diálogos e reuniões que acontecem nas praças e anfiteatros da cidade.

O posicionamento filosófico-existencial, é, por necessidade, ‘psicointegrador’: por reconhecer a realidade incontornável do embasamento metafísico no mistério fenomênico que se conhece sem se explicitar; por firmar os pareceres finais no arco das apreensões intuitivas. Piscointegrador, mas, igualmente, ‘enteogênico’ por atender e suportar com virtudes numinosas o testemunho metafísico do desmoronamento da cognoscibilidade em incognoscibilidade nos confins do possível, na hora em que rompe a distinguibilidade e colapsam visões e visionários
em unidade silenciosa e serena como amantes reunidos na vida e na morte, no mistério do momento.

As virtudes cardeais, disposições basilares de veracidade, autonomia e responsabilidade, fundamentam as possíveis esperanças teológicas por permitir a irradiação dessa trigonometria comunitária instituidora de amizade e
que guarnece a vitalidade e saúde de uma polis indígena, pré-colombiana, jônica, olímpica e universal. Uma civilização harmoniosa só pode resultar dessa triangulação ponderada (Logos, Ethos e Mythos) instituída como base da
ação civítica: eis o justo assentamento, a intenção natural e fenomênica da consciência nas praxes cotidianas e arrebentos universais, marcando, uma ação humana próspera e feliz.

COORDENADA
TRANSCENDENTE-TRANSCENDENTAL

O ePMTT instituído numa apreensão fracionada das profundidades filosóficas, em todo caso aquém da natureza indígena, deve, para vigorar, ser introjetado por imposição batismal, educação e regime autoritário. Esse dualismo, aqui considerado ‘excêntrico’, mas ‘generativo’, reporta à uma historicidade sectária, instituidora de coordenadas societárias metafísicas secundárias afins – metodológicas, pedagógicas, culturais e políticas.

Tal eixo parece resultar de um intento malogrado de aproximação fenomênica, uma resistência receando a dissolução unitária onde se pode experimentar a certeza
filosófica, socrática30: a concomitância da impermanência e desse rebis indeclinável, pontos terminativos de saber: dois aspetos integrados da unidade existencial, como reconhecido por filósofos de outras tradições, e, expresso na
metáfora da ‘essência aquosa’ de Tales de Mileto e Heráclito (água, sempre presente e necessária, mas sempre fluida; rio continuado de travessias eternamente diversas) fluxo oriundo desse lugar imóvel e perdurante onde Parmênides de Eleia se descobre no centro uno da esfera absoluta.

No eixo dualista de perspectiva metafísica, cuja obsessão amedrontada se afirma numa ânsia messiânica, compreende-se o que é outro como domínio separado, e, a si mesmo como sujeito dubitativo, deslocado do seu ‘subjectum’ verdadeiro. Uma situação equívoca, resultante da não confrontação do mistério, geratriz de insuperáveisaporias, fortes polarizações e enredamentos apertados, onde: a fonte universal, geradora das distinções, se compreende como uma ‘coisa-em-si’ indistinguível, apartada radicalmente da esfera substancial e vital, mas
postulada motor primo e categórico das distinções naturais, isto é, do mundo criado e das criaturas, embora, não por intermédio dos princípios naturais, domínio das causas criadas, mas de acordo com os postulados elencados nas hermenêuticas litúrgicas – in totum, uma proposição dogmática cuja causa substancial é acidental, sendo a causa efetiva o verbum litúrgico e a causa formal o adventoepifenomenal de uma humanidade banida, sendo a coisa final uma agraciação como retorno ao reino da ‘coisa-em-si’.

O desentendimento labiríntico da apreensão terminativa, onde se agregam em união os atributos, é resultante e resultado de uma sub-compreensão do símbolo
reduzido aos seus valores semânticos (sinais de junção entrecoisas e nomes no plano da reflexão), somado a um embotamento da sensibilidade estética a favor dos cálculos e abstrações idealísticas; verdades enlutadas, amordaçadas,
tentando equilibrar significados que permitam a manutenção do status quo32 e das concretudes provedoras do nosso pão de cada dia – frente às fragilidades das ideias, o proveito político, a consolidação do poder, parece ser o motor da perduração e domínio dessa tradição imperial emediévica, a ‘causa substancial’.

Subjugado no ordenamento metafísico dualista não se reconhece que o símbolo, para poder reunir objetos e significados, gerar entendimentos efetivos, deve instituir-se numa lucidez continente e original, uma comunhão cosmoexistencial:
união que reúne a criatura(ser) à criação(estado) num plano primordial sem o qual não se revela a possibilidade de entendimento dos significados evocados. A harmonização e cientificação que se realiza nas simbolizações não pode reportar a outros mundos: em termos pontuais, o juízo estético, amadurecido e clarificado
na experiência numinosa, não pode simbolizar um divino ‘sobrenatural’: ele deve incluir, em enlaces contínuos, a totalidade dos termos relacionados ao arco intencionado do entendimento, isto é, anuir com a validade do processo simbólico.

Idealizar a existência de uma esfera criadora, separada dos gerenciamentos naturais, isto é, além dos potenciais cognitivos que operam distinções, logo, radicalmente ignota, mas postulada antecedente e apriorística, configura uma carência de razão e de fato como afirmaria Leibniz, uma penúria de sensatez. Trata-se da subsunção falaciosa de um não-saber radical, por uma hipótese insensata, necessariamente expressa com retórica elitista e impositiva.

O positivismo filosófico, ou cientificismo, supostamente dito ‘laico’35, configura escola conservadora, em sinergia complementária às delimitações e privilégios instituidores históricos do dogma da ‘coisa em si’, dando suporte e vitalidade relativa a um ‘ente’ exorbitante, gerente das relações abusivas sujeito/objeto, a partir de uma trindade de coordenadas societárias metafísicas secundárias, resultantes incontornáveis dessas praxes elitistas.

O dualismo teológico e cientificismo, desvios de foco, comungantes como mão e luva, coordenam uma trina fantasmagórica, substanciada em retóricas, etiquetas, roupagens e arabescos sociopolíticos fundados em posicionamentos hipotéticos: 1) da ‘sujeição’: o campo fantástico sujeito alheado, ideando-se banido de um espaço
imaginário; 2) da ‘objetificação’ o campo de busca das ‘ciências humanas’, onde os indivíduos transmutam em objetos, recursos e experimentos de laboratórios, 3) da ‘especulação’ campo soberbo dos enviados e supervisores, de alguma forma, ligados à ‘coisa-em-si’, seja alegórica, mítica, ou de gabinetes. Uma sociocracia que coordena e institui um ser tricéfalo, como o guardião mítico das
profundezas, instâncias políticas e expressividades culturais residentes, alinhadas e em conformidade com o posicionamento metafísico reinante: as psicogeografias
subjetivista, objetivista e teorética. Uma triangulação originando movimentos societários conflituosos, com frequência destrutivos, como nessas democracias onde os anseios das maiorias são legisladas por especialistas e portavozes montados em haveres antes conquistados; burocracias, ditaduras e despotismos teocráticos que ainda
vigoram.

  • A psicogeografia objetivista: coisa gravitando em determinismo e fatalismo, terreno seco e neutral da inteligência artificial, da robótica e das engenhocas, logística onde se desconsideram a intuição, a ética e atos de consciência virtuosos, porque imponderáveis: uma antítese e parodia insensata do Ethos, matriculando um ‘ente-objeto’ em estruturas lucrativas e coordenadas estatísticas.
  • A psicogeografia subjetivista: reino desse sujeito sem terra nem céu, perscrutando a si mesmo nos modos husserlianos, uma paródia e antítese egoica do Logos, evocando um ‘ente-sujeito’ enclausurado na cultura vigente, flutuando em brumas, escavando a si mesmo psicanaliticamente em busca de consolos e domínios ilusórios, procurando lastros e fundamentos nos reflexos do cogito.
  • A psicogeografia especulativa: operada por representantes ou observadores entronizados em privilégios; instituída em idealismos e teorias improváveis desenhadas para consolar e guiar uma humanidade
    prostrada: as diversas formas de teologismos e esoterismos
    associado 36 , a hermenêutico da ‘coisa-em-si’, parodia
    idealística do Mythos acenando futuros esperançosos.

Assim triangulada a civilização padece, doente e desunida, depressiva e sem foco. Nos embates em busca de acordos, a não ser excepcionalmente, os filósofos instituídos e instituidores, aparentam assumir a posição confortável de não perceber que seus discursos volitam envolvidos nas esferas de influência das geografias que vitalizam e sustentam as manifestações políticas e possiblidades civilizatórias criticadas, apenas negociando aberturas e lotes ínfimos de facilidades, em meio a um handicap central, jamais abordado, ou raramente desafiado: a ideia elitista de um sujeito radicalmente transcendente, pilar dessa estrutura e edificação metafísica excêntrica e barroca em que vivem e professam.

Superar esses paradigmas constrangedores, em busca de potenciais mais amenos, eco-humanistas, exige grande desapego, uma recolocação criativa do existente frente a si mesmo, à cultura e ao insondável divinal: um feitio apenas exequível na coabitação de uma boa vontade fundamental, serena tolerância, de uma ousadia e resiliência filosófica transgressiva, somadas à realização intuitiva e destemida deuma nova visão.

O NOVO ALVORECER

Senão do ‘ponto de vista da academia’, mas da realidade existencial, existe uma filosofia mais sensata, um autoentendimento melhor ponderado, estruturado a partir de um eixo de perspectiva metafísica mais virtuoso.

Na natureza humana, a necessidade de agir não se institui como um anseio instintivo de nutrição e assimilação operando em situação de penúria consolada na esperança de um além glorioso, ou, numa frenética e reativa acumulação de coisas.

A praxe de uma humanidade digna responde, antes de tudo, a um sentimento poético frente à existência, uma poiese que motiva em direção a uma junção criativa com a natureza-mundo, instituindo coexistências e sentimentos harmoniosos fundamentados num bom humor assentado na fonte unitária e genésica que faz reconhecer o Belo e abraçar o outro – nasce-se nidificado num útero fecundado pela união dos gametas e não extraídos de células depositadas em matrizes robóticas, proveta-mater de laboratório.

Uma experiência sensível e poética, caracteriza o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial: trata-se da afirmação precisa e esclarecida da ‘luz natural da razão’ dessa forma equacionada. Uma intuição metafísica que gere
uma visão plena não necessita instituir um divino imaginado distante e dogmático, tampouco uma norma forçando um simulacro de justiça e equidade – não há
justiça assentada em privilégios e iniquidade. A visão da grandeza e da perfeição da natureza é instituída no cultivo das virtudes, que, como as quatros direções, orientam o viajante tanto quanto o Cruzeiro do Sul brilhando no céu. Resulta dessa visão, símbolos e mitos consequentes, uma sociedade madura e sã.

Apenas uma perspectiva metafísica que saiba sustentar o exercício eficiente das virtudes cardeais em todos os recintes e ponderações da psique (apreciando e adequando os sentimentos e os pensamentos) é capaz de gerar uma apreensão abrindo em vida digna e pacífica. Essa aspiração em busca de uma praxe elevada a poesia nas correntezas de um sentimento unitário e amoroso, aspira uma visão totalizante onde flores azuis de centro branco e amarelo podem transmutar em céus ensolarados na intuição imaginativa das crianças, consagrando uma enteléquia
gloriosa onde o fracionamento repartitivo do que exista se equaciona em uma generosidade natural que fomenta e alimenta as virtudes cardeais e sociais, temperando a realidade que se vive na direção das ponderações desejadas.

Este é o plano cognitivo essencial a partir de onde é possível desenhar um projeto vital ético e virtuoso: de uma boa filosofia resulta uma boa vida, naturalmente, decorrente da excelência e adequação fundadora. Não há oposição entre filosofia e sabedoria, âmbito gnosiológico e ético; entender o que é metafísico à luz da razão plena, valente de sentimentos, intuição, virtude e decisão, como deve ser a razão do homo sapiente sapiente, demonstra que o caráter relacional do ‘Eu’ não é de estraneidade, mas de união.

O ‘Eu’ não é estranho, mas nativo, natural, ‘terrâneo’, indígena, dilema de fácil resolução: a ‘estraneidade do Eu’, pedra fundamental da filosofia dita ‘ocidental’ é doxa instituída em credulidade e receio, sendo a união do estadode-ser evidência espantosa e poética – uma configuração, ou Gestalt, mais virtuosa, inteligente e sensível.

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O-PARADOXO-UNITARIO

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