CONJUGAÇÕES METAFÍSICAS E ANACRONISMOS Epicuro e Heidegger

Junho 2012 – Régis Alain Barbier – Aldeia

Onde está a fonte referencial e primeva da filosofia? Ela não se loca em
pergaminhos, mas na experiência vital. Conceitos expressos e gravados em
uma ou outra arte significam-se atualizados na experiência e conhecimento
que opera na primeira voz do estado-de-ser. A primeira voz do presente é a
conjugação nuclear da realidade existencial. Certamente, podemos concordar
com essas premissas; contudo, anuir não significa considerar com prudência
esses entendimentos basilares.
Procurarei demonstrar que condicionamentos ritualísticos, instituídos nos
séculos que separam os antigos e sempiternos filósofos do momento primeiro
dos modernos e contemporâneos, enredam os talentos e potenciais da psique
em malhas progressivamente envolventes, na medida em que mais se cogita
nas sombras desses ritos sem os ter superados e esconjurados.
Para ilustrar esses percursos, convidarei dois ilustres filósofos, um antigo
senhor de um belo jardim filosófico do mediterrâneo, Epicuro (341-270 a.C.),
e, o mago da Floresta Negra, Martin Heidegger (1889-1976). É possível
afirmar que, apesar dos séculos que separam esses pensadores, ambos
dedicaram-se ao exame da conjugação ser-existência, interessados por
questionamentos ontológicos. “O ser humano existe imerso no mundo
cotidiano, entre céu, terra e mar, em meio aos elementos, entre as coisas do
mundo e da cidade” poderia ter afirmado o antigo; sendo palavras típicas de
nosso contemporâneo: “é preciso examinar o ser para o qual ser é um tema:
nós”1; logo, sugerindo uma comunhão de entendimento; a referência final do
filosofar é a experiência existencial, o vivido.
Mas, apesar da temática comum, convergente – uma busca focada na
experiência vital como fonte de conhecimento e saber -, não há garantia que,
nessas conjugações, Heidegger, ‘agraciado’ em ritos e sacramentos decantados
em cultura e historicidade pontuadas em séculos subsequentes, poderá
1 Essa frase exemplifica bem o pensamento de Heidegger, pode não ser citação textual.
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discursar em sintonia com a filosofia epicuriana, com retórica e declinações
relativas ao tempo, voz, pessoa e modo similarmente congruentes em relação
a premissas fundamentais e compartilhadas. Depois de Sócrates,
exemplarmente, e, de fato, depois das primeiras colunas do estoicismo e dos
primeiros jardins epicurianos, o homo latinizado (in totum, todos os filósofos
e pessoas ‘agraciados’ no poder dos mitos, ritos e sacramentos pertencentes ao
aculturamento referente) evidencia não compreender o saber original, sagital,
e, neste exemplo, ‘antigo’, onde se mira o alvo de acordo com a voz primeira
da experiência vital, coordenada cardeal da busca filosófica-ontológica: se “o
homem é a medida de todas as coisas”, examinar conceitos referentes a existir
e ser exige experimentação vital, reportar a si mesmo. Devastadora, a
revolução cultural apostólica e romana, depois da destruição das escolas de
filosofia, parece desnaturar e desorientar o ser humano, gerando graves
disfunções que estruturam e agudizam um profundo e perdurante estado de
angústia e de crise.
No orbis latinus, esfera existencial e mítica do genus latinum (“a geração
latina… e muralhas da poderosa Roma”, como canta Virgílio em Eneida) a
idade dita da ‘razão’ não mais ilumina a via filosófica, mas refere a um
estranho basculamento da psique nas masmorras reflexivas, lugares
complexos e ilusórios onde não se diferenciam com clareza abstrações teóricas
(ideias, imagens e representações referentes a ordenamentos burocráticos e
hierarquistas, reificações) de entidades volitivas, gerando-se sombras e
cultismos hiperbólicos que ofuscam e desnaturam os potenciais cognitivos no
sentido antes intuído e delineado por Platão: lugares sombrios e inquietantes,
cavernosos, onde, para encontrar uma saída, a astúcia de um Descartes e a
intuição precisa de um Espinosa auxiliam mais de que a erudição de
pensadores como M. Heidegger2.
Na esfera latina, dificilmente se compreendem os eventos de imediato, com
clara intuição, como certas crianças ainda parecem revelar; a amplidão e
sofisticação do pensamento, deslocado, exuberante e barroco, não é mais
garantia de lucidez. Opiniões e interpretações, imagens e escrituras, tradições,
2 Ter-se debruçado sobre o mundo antigo, expressar-se numa linguagem germânica (isto é ser descendente das
tribos dos reis germânicos coroados pelos papas e batizado nesses ritos que desnaturam) não parece relevante para
arbitrar o jus fundamental desse discurso metafísico, em todo caso, não supera o fato de Heidegger ser ‘latinus’ no
sentido usado no texto.
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como mapas reimpressos, afiliações, historicismos, confundem a justa e
imediata percepção do território filosófico-existencial. Um uso surrealista de
verbos e pronomes parece articular deslizes e erros basilares de conjugação
filosófica, transformando ideias, abstrações e imaginações que correspondem,
em seres sobrenaturais: a demonstração de alguns desses erros poderá
configurar uma linha discursiva apta a auxiliar a escapar dos feitiços.
Certamente, afundado em reflexões que constrangem, de alguma forma
mitificado, é possível anunciar um “exame ontológico” e não poder, ou ousar,
experienciar e verbalizar conceitos com intuição singular e imediata, de modo
autoral e sustentado, constante e desembaraçado, natural, na primeira voz e
pessoa e na força do momento vital, Kairos, único lugar e tempo onde um
sentido existencial sóbrio e basilar pode testemunhar e conhecer o real,
justamente conjugado, com razão e de fato.
A coletivização e objetificação do que é individual exemplificam e configuram
erros filosóficos fenomênicos: ‘nós’ não é um ser, é abstração. Querendo foco
para melhor conhecer, o enunciado mais acertado deverá informar: “a filosofia
deve fazer perguntas profundas sobre o ser, examinando o ser para o qual o
ser é um tema: tu e eu”. ‘Nós seres humanos’, ‘nós humanidade’ não sente e
não conhece: ‘nós’ não pensa. ‘Nós’ é número, coletivo abstrato destituído de
substância; ‘nós’, é voz e pessoa metafórica: só pode pensar e saber ‘eu’ ou ‘tu’,
cada um pode pensar e saber, não ‘eles’, ‘elas’ e ‘nós’. ‘Eles’, ‘elas’ e ‘nós’ não
sabem: eles não sabem o que dizem nem fazem. Se “só há existência na
singularidade”, a diferença entre ‘ser’ e ‘ente’ não pode ser ontológica, mas
hipotética, subjetiva; o que existe é um estado-de-ser original e cósmico,
unitário e paradoxal, que bem se reconhece até ser atingido-batizado,
desfocado, por essa ideia ‘‘ser’ versus ‘ente’’ iniciando-se a queda abissal na
esfera típica da filosofia latina onde se quer confrontar num plano surreal,
idealisticamente nivelado: 1) o que é fenomênico à luz da razão natural e da
sobriedade, com 2) abstrações e retificações idealísticas, desintegrando o bom
senso numa estrutura hipotética onde se quer inscrever (confundir e inverter)
os existentes em personagens de narrativas ditadas por sujeitos excepcionais
que se imaginam reger a partir de um plano intocável, sobrenatural e supremo.
A desestruturação cognitiva da identidade original e posição existencial
primária resultam numa radical perda de sentido-e-conhecimento, um
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estranhamento cujo efeito resulta na desautorização da primeira voz,
desnaturando o estado-de-ser num elemento impessoal, número integrando
uma soma, formando uma massa destituída de verbum: uma ‘nossifiação’ do
sujeito, uma midiatização da primeira voz.
Objetificar o existente, inclusive a si mesmo, para, numa visada condicionada
e soberba, dogmática ou cientificista, enxergar um coletivo, uma massificação,
um “nós humanidade” deslocado e abstrato, impede a justa apreciação
existencial do estado-de-ser que só se conhece e comprova através da
experiência vital intuitiva e imediata, referente a tu e a mim. Não se pode
entender o que é existir querendo entender ‘nós humanidade’, ‘império
romano’, ‘nação’, ‘cultura’, ‘história’, ‘partido nacional socialista’, etc.: não
existem, são imagens e representações. Não é suficiente enunciar: “já que
existimos em contexto, em meio às coisas, à vida, se quisermos entender o que
é ser humano, temos de examinar a vida humana, a partir do interior dessa
vida…”, a sentença, imprecisamente conjugada, erra o alvo; seria necessário
que se explicite: “…isto é, do interior da vida como se pode conhecer, que para
mim, refere-se a mim, para tu a tu: eu examino a minha vida frente à natureza
dada-a-ser, tu examinas a tua vida, depois conversaremos”. O ofuscamento da
dimensão filosófica mais natural e fundamental, ontológica, faz o pensador de
Messkirch, em busca de autenticidade, afirmar e concluir exemplarmente: “a
maior parte do tempo estamos absortos em projetos, em andamento, e nos
esquecemos da morte. Quando nos tornamos cientes da morte como limite
final de nossas possibilidades, começamos a alcançar uma compreensão mais
profunda do que significa existir. Todo ser é um rumo à morte, nossas vidas
são temporais: somente depois de compreender isso podemos viver uma vida
significativa e autêntica”. Ora, “nós”, generalizado, ideal, afastado das
evidências sensíveis, de certa forma majestoso, não pode conhecer de
imediato e original, na primeira voz, tampouco filosofar incluindo a
perspectiva primeira apontada como ‘antiga’. Por via de uma veracidade
oculta, apesar do que se parece dizer e arrazoar, o discurso significa suas
perspectivas profundas sem saber, apontando e realizando, ‘perlocutando’, o
inverso do sugerido ou imaginado nas premissas: o caminho da
inautenticidade, dos partidos, elitismos e sociocracias que devoram a vida.
Centrado na singularidade, acordado na unicidade, pensa-se o
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questionamento referente à comunidade, ao pertencimento social, de modo
civítico, jamais como partidarismos guerreiros, por exemplo.
Note-se, o confronto Epicuro-Heidegger, motivo central deste ensaio, não é
‘exatamente’ focado para ilustrar um debate histórico relativo a
‘contemporaneidade versus antiguidade’; esse debate está incluso como
decurso e ilustra o peso do estado-de-crise entendido como flutuação e
inclinação desarmônica e acidental do estado-de-ser nos potenciais da
manifestação; o confronto evocado repercute os grandes motivos filosóficos,
revela considerações existenciais assimétricas e desproporcionadas: 1) um
“estado-original-de-ser”, sagital e esférico, que denomino gentílico, pagão,
indígena, natural, primo, criança, criativo, renovador etc, e 2) um ‘estadodesnaturado-de-ser’,
dissociado, desengajado, frontal como um teatro ou
espetáculo, um desfile uniforme, sociocrata, conservador, coletivizado,
desautorizado. O posicionamento primevo, original, não se exemplifica na
busca ontológica e inscrições partidárias desnaturadas de Heidegger, mas é
profusamente demonstrado e expresso, simplesmente, por selvagens como o
velho cacique de Seattle, os Epicuros, os Sócrates e outros ilustres pagãos.
Antes de estar em algum lugar do tempo passado, fazendo história, como
Martins Heidegger gosta de mensurar, o primevo faz sentido sagital, perene, e
está locado agora e aqui, no coração simples e justo: um sentimento cuja
lógica não se intelectualiza totalmente, mas que opera em harmonia com o
que é e se conhece de imediato numa apreciação e expressividade singela.
A filosofia de Heidegger orbita nesse ‘nós’ dissociado e posto num plano
frontal, enquadrado na bancada de exame de um sujeito observador elitista e
privilegiado: não reporta a um abraço participativo e sagital, autoral, dado à
existência, a um laço que incorpora o vivente ao mundo em que vive. O
discurso heideggeriano surge moldado em cultura não desafiada,
culturalmente, no interior do estado ‘abissal’ consequente à aplicação dos ritos
que desintegram e estranham o ‘eu’: a ruptura e deslocamento histórico e
acidental do ‘eu’ decanta num coletivo, como povo, nação, raça, num ‘nós’
somado a um resíduo angustiado de si, como um pesadelo vagamente
lembrado. Uma cura implica reconhecer a impossibilidade de fundamentar
uma filosofia útil e sensata fracionando o que é um, idealizando ‘entes’ e ‘ser’,
cogitando ‘tudo’ e ‘nada’; isto, é girando em torno dos portais da lucidez e da
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imaginação, sem sentir e apreciar o belo que exubera no que é e sempre será:
o momento, lugar portentoso e místico, harmonia em que a vida dança,
convida e reúne os indivíduos em cosmos, fundidos num abraço unitário. O
paradoxo, motivo raiz das elucubrações, não é uma dicotomia separando ‘ser’
de ‘ente’, é a própria estrutura do estado-de-ser, em si e por si. Tais
dicotomias, especulações magnas da busca latina, não configuram assuntos
reais de discurso, tampouco cogitos essenciais, senão para um ‘eu’ deslocado,
dissociado da pessoa que é, um ‘eu’ identificado a termos e ideias; logo, presa
fácil de conjugações ideológicas onde coletivos abstratos (‘nós’, ‘a nação’, ‘o
povo’, etc.) pretendem substituir o que apenas existe, o indivíduo: como
exemplarmente escreve Luiz Borges em “O Outro”, “só os indivíduos existem,
se é que existe alguém”.
O que nos reporta aos Epicuros que constroem espaços vitais e filosóficos
(jardins) respondendo com maestria ao questionamento latente: como pensar,
conjuntamente, a singularidade e a necessidade de pertencer à comunidade?
Epicuro poderia ter sido senador, ou preceptor do imperador, quem sabe?
Mas não. O insight epicuriano revela uma distinção filosófica-metafísica que
resulta em afirmação cosmo-existencial e expansão civítica consagradas na
vigência da morte: ponto terminativo do indivíduo, destinado a interromper o
evento vital sem desafiar ou diminuir o seu sentido e grandeza
incomensurável; morte, previsão que apura e destaca o essencial da
existencialidade. Em Epicuro, a morte termina a vida, mas abrilhanta o seu
fulgor e amplia o sentido portentoso da existência: a perspectiva da morte
projeta a vitalidade fundamental numa epifania que integra e celebra a
cosmicidade. Gloriosos, o mistério e a plenitude do momento integram a
morte ao evento vital numa unidade paradoxal e perfeita.
Heidegger exemplifica uma retração subjetivista-transcendental, um
retrocesso no interior da caverna frente a uma visão de vida e morte que
diminui e denigre o sentido e brilho da produção vital: um movimento
retraído do intelecto que, desesperado, não consegue mais apostar em
reinados transcendentes e além; mas, que, apoético, carente de estetismo,
deturpa em direção ao domínio público, ao campo histórico-cultural, levado
no vozeirão das massas e dos líderes, exemplificando uma visão tragada em
narrativas alheias e que não se dominam; espaços desvitalizados e
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depressivos: simbolicamente, o campo dos ‘nós’. Em Heidegger, a morte
termina e denigre o sentido da existência, aborta a vitalidade essencial,
evapora em historicismos teleológicos frustrantes e hipotéticos. A angústia e a
miséria das horas que passam, lentas ou depressa, carentes de mistério, fazem
da morte um inimigo que desmente a atualidade do singelo e do belo em
histórias que não foram.
Sem dúvida, existem erros mais intensos, como os de Rorty e muitos outros:
“não há como desviar de nossa linguagem descritiva para alcançar o objeto tal
como é em si mesmo – não porque nossas faculdades sejam limitadas, mas
porque a distinção entre “para nós” e “em si mesmo” é uma relíquia de um
vocabulário metafísico, que sobreviveu à sua utilidade”3. Evidente que “para
nós” não pode estabelecer nenhuma relação significativa com “em si mesmo”;
‘nós’ é uma abstração, uma reflexão matematizada e animada numa retórica
soberba relativa a uma soma de indivíduos massificados numa representação
trágica, reflexos carentes de identidade: uma imagem, um reflexo, não têm
profundidade ‘em si’, não se tocam, não têm espessura.
Se ‘nós humanidade’ não veicula consciência e valores filosóficos algum, não
impede que ‘eu posso’, com facilidade, oriente a minha linguagem descritiva
para bem alcançar e sentir a intenção, tal como é, em si mesmo – não porque
as minhas faculdades sejam extraordinárias, mas porque o entendimento
examinado, “para mim” e “em si”, revela e expressa a realidade de um
enraizamento bem enlaçado, unitário e paradoxal, evidente e imediato,
metafísico: uma atualidade, uma fonte, que jamais se objetifica – tampouco
envelhece ou morre.
Novamente, ‘escutamos’ Rorty: “Devemos interpretar a expressão
‘compreender um objeto’ como uma forma equivocada de descrever nossa
capacidade de relacionar velhas descrições com outras novas. Ela é
equivocada porque sugere, como faz a teoria da verdade como
correspondência, que as palavras podem ser confrontadas com não-palavras, a
fim de descobrir quais palavras são adequadas ao mundo”. Não sou uma
descrição, eu não sou uma representação frontal e chapada num quadro negro,
3 RORTY, Richard: Gadamer e sua utopia
http://ghiraldelli.files.wordpress.com/2008/07/rorty_gadamer.pdf
Observação. Texto cedido ao Centro de Estudos em Filosofia Americana para tradução e divulgação – CEFA.
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não sou função decretada, não sou uma peça ou recurso de robótica instituído
em bancada: eu mesmo sou a pessoa que discrimina, sou evento autopoiético
que examina a mim mesmo, igualmente, existência e Cosmos. As palavras no
sentido pleno, diacrônico, desde um som primitivo e gutural, um grito de
prazer ou dor, e, no seu sentido sincrônico, elaborações de praxes atualizadas,
quanto bem ditas, por mim, para você ouvir e compreender, juntos, talhar a
vida e fazer o momento, as palavras chegam ao alvo com magna e indubitável
precisão; elas correspondem ao que fundamentam e criam com perfeição.
A verdade filosófica que corresponde aos fatos não é frontal, deslocada e
deitada no plano junto com os fatos, desenhando puzzles em arranjos infinitos,
abstrações e matematismos desumanos, produção de observadores
perpendiculares e neutrais; a verdade filosófica é autoral, sagital, põe em
correspondências inelutáveis e enlaçadas o que é para mim, em mim e mundo
em si (ou para tu, em tu). É o sensato e belo em si do estado-de-ser que me
tocam, comovem e espantam: nessa apreciação, as minhas palavras, como
pássaros alados, transportam a minha consciência nas intenções justamente
batizadas e denominadas, sem desvio. Trata-se de uma verdade por
correspondência sagital, verdade que engloba o alvo; uma verdade que não
abre trincheira alguma no cosmos, mas que compreende claramente o estadode-ser,
o espírito das coisas, as coisas do espírito: eu conheço, eu sei.
Esconjurei a totalidade dos ritos que deportam e apartam, e, como Epicuro,
pagãos e indígenas, eu sei que não sou, tão só, uma entidade cronológica, mas
sei que o ser que sou é momento: eu sou, desde sempre, estado-de-ser que
transmuta sem início nem fim, sei, tautologicamente, que o que existe existe
essencial, porque existe. Sei que se deuses e deusas existissem fora do meu
olimpo, não possuiriam substância alguma, tanto quanto esse “nós,
humanidade”. Sei que eu não morre para mim, mas quem sabe para ti, sei que,
para tu, tu não morres tampouco, quem sabe para mim. Sei que não se pode
compreender existencialmente a morte, ela não pode existir para mim: vivo,
vivo, morto, não vivo. Eles morrem para mim, não para eles, eu posso morrer
para eles, mas não para mim. Conheço a infinita unicidade paradoxal do
Cosmos e da existência: Epicuro, as crianças, os antigos, os poetas, os filósofos,
os simples e eu conhecemos com mais lucidez natural e razão filosófica do que
o povo, a nação, o partido, o regime, ‘nós humanidade’. Dizem que na fase
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final da vida, Heidegger intuiu que a filosofia (dele) não podia cogitar
profundamente em nosso ser. Diz-se que o seu pensamento ‘mais poético’
oferece um modo de pensar sobre o que significa ser um ser humano num
mundo sob ameaça de destruição ambiental! Eu digo que a filosofia dos
antigos, de Epicuro, em específico, demonstra e significa o que é ser e existir,
como mundo e existência, como ser humano, respeitado, florescente e
próspero. Uma filosofia que previne a formação das políticas societárias,
sociocracias coletivistas, que devoram e objetificam pensamentos e
pensadores.
A cura radical da destruição ambiental exige curar o evento perturbador sim.
Como? Deixando as crianças conhecerem as águas dos riachos, as flores que
brilham na chuva, os pássaros que cantam, as cores das borboletas, a música
que nasce nos ouvidos, deixá-las falarem de si para si, em si mesmo e entre si,
escutar e sentir o belo em uma geração abençoada com os ritos mais justos e
que curam a ‘estraneidade do ‘Eu’, que reúnem o estado-de-ser em abraço
radical, acabar-se-á a crise: este planeta voltará a brilhar, curado, à luz plena e
natural da razão filosófica original e plena, caminho, verdade e vida – com
efeito, filosofia jônica, indígena e pré-colombiana; saber que desceu da cruz,
foragido, como nesse Poema do Menino Jesus de Alberto Caeiro. O jardim
existe. Ele é encontrado pelos vanguardistas que, de si e em si, sabem
asseverar e corroborar a perspectiva metafísica que convém a uma virtuosa e
poética apreciação do processo cosmo-existencial – eu sou indivíduo, eu sou
Cosmos.
Agradecimento: agradeço ao Professo Thiago André Moura de Aquino, senão
concordante irrestrito, cujas comunicações esclarecedoras permitiram
auxiliar a prevenção de interpretações imprecisas.

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