DO DIFUSO E DO FOCADO, DO SOL E DO FAROL

O místico entende-se como uma produção da natureza; uma realização cósmica, como o leito
de um rio, o recorte de uma costa rochosa, um estalagmite – essas colunas de calcário que se
erigem no solo de uma gruta em função do longo gotejamentos das águas, das reações químicas
entre os elementos contidos nos minerais, na água, no ar; do efeito da temperatura dos
ambientes e das forças essenciais – como a gravidade, o magnetismo, as reações atômicas e
moleculares. Advinha-se a sagacidade dos anciãos evocando os elementos como terra, água, ar
e fogo. É fácil imaginar cada pingo d’água como uma molécula primordial; um conjunto de
gotas formando uma célula; as formações esculturais da rocha, órgãos: a realização dessa
totalidade, um estado-de-ser que evolui e se eleva até tocar o teto formando um pilar
estalagmítico – um místico estatelado e espantado tocando o céu com a consciência própria.

O místico compreende não ser diverso da natureza que o contém, que a natureza se expande
em formações sempre mais amplas, num contínuo universal homogêneo: ele sabe. Ele conhece
porque experimentou, ao longo da sua história, que a evolução progressiva da consciência, de celular a orgânica, pertence a esse sistema como o perfume e a beleza das flores integram e
coroam o âmbito e a complexidade das relações. Tudo é um que se dissolve em fronteiras
infinitas em todos os azimutes. Om shanti, shanti, shanti om.

O distraído, diversamente, por carência de perspectivas profundas, não enxerga como um sol,
na envergadura da totalidade dos raios, mas entrevê as coisas em frestas estreitas de
consciência e visão: não conecta, não integra, e passa a ver como flashes de instantâneos. Ele vê
aqui uma pedra, lá um coelho, em cima um sabiá e além, um céu radicalmente diverso do plano
horizontal. Ele não reconhece, como as águias, que o azul e branco do mar é azul e branco do
céu. Ingênuo, ele passeia no mundo, no mar e no céu, como se fosse um farol isolado numa
pedra rochosa: olha isso, vê aquilo! Devem ter universos muito estranhos e diversos de mim
além desses negrumes distantes! Ele não se compreende, tampouco se reconhece como um
místico.

Farol acusa Esclarecido de ‘antropocêntrico’! Rindo, o místico responde que seria mas acertado
acusá-lo de abóbada antropocircunferencial! Que de fato ele, Farol, é o ‘antropocêntrico’ que
gira focando em torno de si para ver pouco, fala com as próprias visões como se fosse
alienígenas, confundindo coisas com representações, achando-se caído de outro astral, ou
assentado nos arquibancos da arena universal, como um prefeito em seu gabinete! – “Pois se
sou focado e rochoso, tu és difuso, totalmente calcário, meu caro!”. E assim continuam se
alfinetando, rindo um do outro.

Tenho denominado essa perspectiva incompleta, focal e dicotômica, de eixo de perspectiva
metafísica transcendente-transcendental e a perspectiva unitária e difusa de eixo perspectiva
metafísica cosmo-existencial. O primeiro caso reporta aos aprofundamentos filosóficos típicos
do kantismo onde o pensador, iniciado nessa postura de ‘ente separado do todo’, conecta a luz
da consciência com as coisas se questionando: mas e além da minha luz, existirá uma ‘coisaem-si’
misteriosa, radicalmente inacessível, outra? Ele responde:

– “Pressuponho que sim, caso contrário tudo estaria no aro da minha consciência, tudo seria
‘maya’, ilusório. Não pode ser, existe, sim, uma coisa-em-si. Aliás, uma suposição cujo
fundamento encontra-se corroborado na tradição e na visão comum. O mundo foi criado por
um deus que não é do mundo, tão misterioso para nós quanto essa ‘coisa-em-si’ que existe fora
do alcance funcional e necessário da percepção. O mundo se descobre, avançando passo a
passo, revelando novidades insuspeitadas, descortinando outros espaços, não se-trata de
construções radicais. A existência não pode ser algo como uma ‘categoria aberta do sujeito’, a
natureza e seus princípios não pode servir de base para a formação de uma ética naturalmente decorrente: a inteligência obriga a reconhecer, imperativamente, a necessidade de obedecer a
uma norma criada, pressupondo a necessidade do amor, de acordo com a lei divina e revelada”.

No caso da perspectiva cosmo-existencial, reporta aos entendimentos de diversos poetas e
místicos; em filosofia, notadamente, Espinosa, os pré-socráticos e, possivelmente, Sócrates
reportado por Platão, quando, em 246 dc, o ateniense afirma:

“O início é algo que não se formou, sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um
princípio. Este princípio de nada proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria
princípio. Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa
que não pode ser destruída. (…) Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos
exprimir de uma maneira racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma
nem a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que
se unem para toda a eternidade”.

Na perspectiva cosmo-existencial não há dicotomia rigorosa entre o que é do âmbito da
consciência e do mundo: estabelecessem-se relações fenomênicas, como atributos unidos,
chave e fechadura. A consciência é necessariamente de alguém, e algo, para se apresentar no
plano existencial, aflora na consciência de uma forma ou de outra. O posicionamento é
fronteiriço: a totalidade dos existentes fronteiram relações complexas e determinantes na
realização do processo criativo. Imagina-se uma membrana molecular formando-se em algum
meio, eventualmente, dobrando sobre si, criando um espaço interior: não faz pleno sentido
postular uma ‘radical distinção entre o lado de fora e o de dentro’, não há dois espaços do
ponto de vista original, ontológico: trata-se de uma unidade recondicionada pela forma
configurada. A estrutura membranosa evocada estabelece distinções, relações e destinos, tanto
quanto os demais seres criados, sem por isso originar lugares estranhos, radicalmente diversos:
os dois lados não configuram entidades opositivas e divergentes, a não ser nas interpretações e
normas de modelos e narrativas. O justo entendimento desconstrói questionamentos relativos
ao solipsismo e à ideia do mundo ilusória, maya, como se referissem a realidades absolutas,
ontológicas; são apenas modelos ou modos de compreender, sendo o modo cosmo-existencial
mais extenso, sóbrio e profundo – no momento, integrando melhor o que se sabe, logo mais
verdadeiro. Nessa postura, o pensador entende-se integrado a tudo quanto existe e possa vir-aser,
estabelecendo relações, descortinando aspectos do fluxo desse fenômeno radical.

Trata-se de um fundamento metafísico corroborado na tradição e visão panteísta, onde o
cosmos entende-se como fenômeno autopoiético. O ‘deus criador’ é o próprio Cosmos, incluindo todos os seres em enlaces misteriosos, universo cujo potencial em nada desmerece os
valores atribuídos ao deus sobrenatural dos teístas salvacionistas que consideram a vida uma
purgação, um introito para um mundo incriado de ‘energia pura’, sem matéria alguma. A visão
panteísta, apesar da modernidade do termo, reporta-se a muitas formas antigas de reverenciar
a natureza. O mundo se descobre como o infante descobre os próprios potenciais, o bebê o
corpo, o homem sábio entende a terra como uma mãe e o sol como um pai. A mim parece que a
existência é categoria aberta do sujeito que sempre existira, de uma forma ou de outra. Para
bem se dirigir e orientar nas coisas da vida, entender que somos uno dispensa a necessidade
imperativa de normas elaboradas em escrituras: a verdade grita no presente, na imaginação e
historicidade que transmuta sem deixar de se afirmar, até mesmo quando observo um céu de
estrelas que brilham num passado presente, lembrando imagens e ideias cujo surgimento não
sei locar no tempo – memória ancestral.

 

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