ENSAIO ESSENCIALISA 05 – EDUCANDO O ESSENCIAL

EDUCANDO O ESSENCIAL

Um dos grandes pecados da escola é desconsiderar tudo com que a criança chega a ela.
A escola decreta que antes dela não há nada – Paulo Freire
O que se conhece primeiro, serve de metáfora para o que vem depois – Régis Alain
Barbier

1. QUADRO DE AVISO

Nesse intento de compreensão sistêmica da educação a partir da razão filosófica, não esmiúço
assuntos técnicos, como o estudo das abordagens educativas relativas às faixas etárias; tampouco,
debato a necessidade de se fornecer conteúdos específicos em cada fase dos processos pedagógicos.
Como um arquiteto, concentro o meu discurso nas linhas existenciais eco-humanistas e
fundamentais a um bom projeto educacional. A necessidade de pontuações firmes, na tentativa de
demonstrar como o conservadorismo se organiza e se perpetua ao longo de um vetor de causalidade,
iniciado a partir dos planos conceituais míticos e filosóficos, é proporcional ao descomedimento
filocrático1 da sociedade. Embora educadores excepcionais promovam modelos humanistas – ecohumanistas
– de educação, as grades de ensino, os currículos estatais, continuam distantes do que
deveriam: a pétrea pirâmide societária permanece, como um núcleo estável e impositivo, apesar de
nóxia e anacrônica. Comparo a situação societária atual, global e geral, notoriamente geradora de
desassossego, injustiça e abuso, corrupta, à mutação patológica de um estado potencial de boa saúde
comunitária. Essa mutação ou situação patológica é crônica, com agudização recorrente. Defino o
estado de boa saúde social como uma polis comunitária, libertária, dialógica e eco-humanista, como
uma tribo de amigos: não se trata de um idealismo, mas da evocação modelar de uma situação
adequada, fazendo jus aos potenciais sapientes da humanidade, geralmente apregoados,
considerados notórios: uma organização social, delineada algumas vezes ao longo da história, onde,
por definição, predomina o respeito às intenções sinceras, aos cuidados específicos no sentido de
prezar a vida, a natureza. Do ponto de vista habitacional, neste estado de saúde social, não há
tumores urbanos, ácidos e caóticos; não existem áreas extensas de carências e desencontros,
escassez celular e fibrose – “as casas iam rareando, modestas casas espalhadas sem simetria e
ilhadas em vastos terrenos baldios”; (Lígia Fagundes Teles, Histórias do Desencontro, p. 83) – não
existem prédios como carceragens suspensas, penhascos na beira de abismos de solidão e
isolamento. Cada casa é um canteiro no jardim; cada praça, uma fonte. O teatro central dos debates
sociais é um salão comum e aberto a todos os poetas e filósofos. Não prevalecem reações
autoimunes, violentas, não há autoanticorpos, bandidos, contra autoantígenos, parentes; as pessoas
não se comunicam como máquinas insensíveis; obtêm alimento em hortas, não em supermercados
com clima de néon e ar frio enlatado.

2. DA INEFICIÊNCIA DAS FILOSOFIAS SUBSERVIENTES

A Filosofia da Educação representa a aplicação do pensamento filosófico aos processos educativos.
Uma aplicação passiva de orientações, objetivos, abrangências e direcionamentos diversos na
geração de conceituações: 1) orientada em direção ao entendimento dos processos educativos
atuantes no próprio contexto sociocultural gerador do estudo, uma busca homocêntrica; ou, 2)
investigando métodos educacionais de outras culturas, uma busca excêntrica, nos moldes da
antropologia. Tais buscas acontecem de acordo com o entendimento filosófico operante e peculiar
dos pesquisadores: o filósofo educador, necessariamente, tende a definir o que é educar em relação à
natureza da sua própria educação, em uma escala de valores, do que apreendeu; pressupõe-se que as
investigações de outras culturas sejam aptas a evidenciarem pontos contrastantes, áreas divergentes,
abrindo espaços para renovadas interpretações ou modelos – contudo, pré-juízos, de alguma forma
limitantes, são esperados, quase inevitáveis2
. Uma investigação filosófica da educação, incidindo
acriticamente sobre a sua própria esfera formativa, âmbito cultural de origem, com frequência, não
passa de um enaltecimento da própria cultura, uma apologia: estudiosos encomiastas,
comprometidos em cargos funcionais, geram uma filosofia da educação eminentemente
conservadora, senão presunçosa. Para obtenção de resultados rigorosos e satisfatórios, seria
necessário que os investigadores fossem isentos de sectarismos, libertos de afiliações e militâncias,
capazes de deslocamentos cognitivos transcivilizacionais, conhecedores das definições profundas,
filosóficas, relativas aos conceitos de educação vigentes em outras culturas e civilizações, fundadas
a partir de estruturas míticas e perspectivas metafísicas diversas. Para a obtenção de resultados e
compreensões operativas abrangentes, universais, para observar, comparar, experimentar a tudo o
que se refere a essa atividade de transmissão e criação cultural, educar, uma máxima flexibilidade e
lisura são fundamentais. Um intento teórico, orientado em busca de esclarecimentos ponderados e
isentos, versando sobre a filosofia da educação, implica incluir a si mesmo, com consciência, ao
iniciar o processo de entendimento filosófico: conhecer-se como fenômeno conhecedor,
historicamente nutrido de compreensões mediadas pela cultura, e, de conhecimentos imediatos
resultantes da experiência vital. Apenas garante a universalidade do estudo a contemplação lúcida do
estado-de-ser humano, seus fundamentos, sua essência, no intuito de defrontar as necessidades
existenciais basilares, atinentes à condição humana genérica, como experimentada e conferida à luz
do bom senso, com sobriedade, levando em consideração, na análise, as aferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos gerais, reconhecidos sensatos, decantados e louvados em estruturas
culturais e civilizatórias, de tradição humanista e orientação racional.

Iniciamos pelo caminho mais sóbrio, direto e mais econômico: uma busca a partir de si, busca
filosófica por excelência. Assumo o âmbito civilizacional vigente, hoje global, como gerador de
uma estrutura e métodos educacionais instrumentados como expressões conservadoras, de reforço;
tal articulação ideológica é o ponto inicial e de procedência a partir de onde se afirma essa
dissertação. Iniciando pela observação, descrição e contemplação, despontam questionamentos
ligados aos métodos de ensino: os métodos são centralmente implicados no ato de educar; a
ideologia estrutura métodos que condicionam as diretrizes educativas, filtrando e reduzindo aquilo
que se transmite. A ideologia vigente desconhece o bom senso que assinala a complexidade e
inefabilidade estruturante do estado-de-ser, em favor de um reducionismo abusivo concretizado na
tentativa de se aplicar o método positivo-científico para a investigação e regência de uma ordem de
fenômenos não quantificáveis: a totalidade do estudo da ação humana no contexto social – como na
sociologia aplicada, psicologia social, pedagogia e economia. A experiência humana não é: 1)
idealista, redutível a alguma entidade de ordem subjetiva, nem 2) positiva, redutível a objetos
materiais, tampouco, 3) ‘realidade’ entendida como uma relação cristalizada entre estas duas
hipóteses, de fato incognoscíveis, i.e., de um lado o ‘ideal’, do outro o ‘objetivo’, ou positivo: a
experiência humana é um fenômeno, uma unidade viva, analiticamente incognoscível, inefável e
imponderável na sua essência. Ser ciente de si configura um conhecimento direto, imediato e auto
conferido, portanto não convencional, não se tratando, tampouco, de uma observação científica
implicando neutralidade da parte do observador, resultados provisionais3
. O ser humano age
motivado por escolhas inscritas em atos e causalidades indetermináveis, em termos de qualidades e
quantidades: uma criatividade avessa à categorização. Escolhas insondáveis nas suas profundezas
determinadoras; mas, não por inatismo sobrenaturalista – algo como um “livre arbítrio” – e, sim,
devido a uma imensa complexidade: o surgimento da capacidade de escolher como fenômeno
intrínseco à complexidade e autoconsciência. A atitude cientificista, ensaiando delimitar os
processos educacionais embasando a análise em dados pré-definidos, implica a negação da
insondável e ímpar criatividade humana, o desrespeito à natureza primordial e única do estado-deser.
O educador, seguidor de tal orientação metodológica, coloca-se numa situação ilógica: a
premissa reducionista não garante uma antecedência predicativa maior, a não ser que o educador
positivista se enxergue como espécie diversa, um super sujeito dotado de uma inteligência fundante
e superior – o ato da redução racionalista como ato supremo de inteligência. A abordagem
cientificista, normativa, exclusa, por redução, do âmbito cognitivo pleno da razão natural e
inteligência das interações, implica: 1) empobrecimento por diminuição da diversidade; 2) redução
dos potenciais e iniciativas a um nível consensual estatístico médio; e, do ponto de vista das
aplicações; 3) acentuação e possível generalização da amplitude e intensidade de atos educativos
elitistas e selecionados, uma forte tendência para o fortalecimento de uma ação educacional massificada, objetivista e rústica. Esquemas educacionais alienados e alienantes, propensos a induzir
desinteresse, empobrecimento dos valores, talentos individuais, diversidade e criatividade. Efeitos
reforçando o desenho societário vigente, a manutenção conservadora, homogênea, dos esquemas
societários filocráticos já implantados, o status quo. Caso se entenda por educação o que de fato
significa, um processo desenvolvente e criativo, a renovação e transmissão cultural através do
diálogo, compartilhamento, do ‘e’ ‘ducere’, lucidez irradiada a partir de si mesmo, maiêutica: tornase
evidente não ser possível algo como uma “educação estatal” ou uma “educação teológica
sectária”. A dita educação de estados ou igrejas se caracteriza como instrumento teórico,
confirmador do enquadramento geopolítico de indivíduos, com eficiência e intensidade proporcional
e relativo ao PIB; um processo orientado na implantação e cultivo, através de ministérios
específicos, burocratas, funcionários associados, intenções, finalidades e elitismos pré-definidos em
concílios ou conselhos fechados.

O ato educador só pode emanar de uma relação de admiração frente à insondável criatividade e
originalidade humana; de respeito à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser; de um
método valorizando e fortalecendo a capacidade de escolha do aluno – escolha entendida como
fenômeno intrínseco à complexidade e à autoconsciência. O ato educador, sensato, tem como
objetivo, a partir do início da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos
peculiares e singulares. Não ilustrando, e comprovando, nos seus fundamentos, essa natureza
dialógica espontânea, fluida; o ato dito educativo, não é educador, mas simples demonstração e
manifestação de prepotência e autoritarismo.

3. DOS PRÉ-JUÍZOS INQUIETANDO E SITIANDO OS HORIZONTES PEDAGÓGICOS

A saga infantil elabora-se por toda a vida, seja permanecendo nos limites balizados pela cultura e
estrutura socioeconômica, ou, divergindo: aqueles que se expressam, poetas, filósofos e artistas,
elaboram esta experiência. O círculo espiralando dos cromossomos às galáxias, chegando aos
pensamentos, vem e vai, a partir do mesmo negrume de inefabilidade, gerando espanto e dúvidas.
Profundo ceticismo, a partir de onde, a razão, integrando em sincronia os esboços mnemônicos e os
da imaginação, desenha significados e coerências, tal qual ao perceber as figuras criadas pelo
sistema de integração visual, extraindo padrões, observando texturas e formas aleatórias nas
paredes, no chão, na grama ou nas nuvens. O indivíduo pode, ao menos em parte, ampliar ou mudar
os potenciais evocados na infância, para plantar e cultivar o que bem desejar, todos os sentidos e
perspectivas existenciais possíveis: zênite, nadir ou globo universal – o que não se refaz, se supera e
reinventa. Muitos acompanham as normas, acentuam os traços da catedral societária, invocam a
grandeza dos representantes de ideais, ou hipóteses, vislumbram personagens infinitamente
supremos onde outros só enxergam negrumes misteriosos. Outros, mais orbi de que urbi, deixam
aos césares, reais e míticos, o que lhe referem, sem ingerência: compreendem as esferas naturais,
geometrias orbitando no vazio, como força e matéria divinais.

As diligências culturais, os aspectos específicos da cultura e as providências comunitárias, os dados
da experiência vivencial definem, com intensidade, categorias existenciais e fundadoras: marcas
batismais, aplicadas na infância por intermédio de parentes, imediatos transmissores de usos e
costumes, ou por agentes culturais, sacerdotes ou educadores, políticos, a serviço das culturas.
Cogitans, atributos culturais mais abstratos, ligados aos domínios míticos regendo religiosidades, e
naturans, modelos de relações relativas ao ambiente, ao habitat, à vida familiar, originam dois
declives coligados, mas diversos. Motivo bivalente promovendo aliagens, seja com acentuação da
esfera estável e genésica, familiar e comunitária, ou intensificação dos reflexos e relações
societárias, das sombras mutantes no fundo da caverna mítica evocadas por Sócrates, narradas por
Platão. O modelo comunitário e familiar poderá ser: orbi, naturalmente inserido e contextualizado,
assentado num habitat típico, em sintonia com o ethos eco-humanista; ou, urbi, uma vivência mais
artificial, burguesa4
, dissociada dos enraizamentos relativos ao ethos original, posições
instrumentadas em escalas classistas relativas a privilégios, capacidades funcionais e produtivas. O
modelo cultural poderá ser gerador de práticas sacramentais e dimensões espiritualistas, com
frequências antipódicas: estruturas normativas, regidas por representantes hierarquizados, instalados
em igrejas, evocando domínios imaginados sobrenaturais, mediando rogações; ou ritos mais
naturalistas, proporcionando encontros frontais e espontâneos com a natureza, reconhecida sagrada,
todos os seres. O vigor, integração, ou alienação, da configuração nativa, e, do outro lado, a
intensidade e qualidade das normas culturais, são fatores entrelaçados na administração do destino
do estado-de-ser: fenômenos envolvidos na criativa manutenção da existência, ou no seu
depauperamento. Cada indivíduo se posiciona: acompanhar os determinismos infantis ou divergir;
não se trata de seleções intelectualmente lógicas, escolhas racionais; essas matérias são selvagens,
extracurriculares e sub-reptícias, a bifurcação a ser vencida depende de uma apreciação íntima,
intuitiva, parcialmente consciente.

Apenas o ser humano dotado de intuição cognitiva madura, liberto de medos e receios pode,
deveras, decidir e se posicionar frente às alotipias e graves ambivalências sitiando o núcleo
civilizatório como vozes sussurrantes: – És um ser vindo de planos sobrenaturais, criatura
acidentalmente, caída na matéria, em busca de resgate e redenção; ou apenas uma criatura
naturalmente assentada no seu habitat, povoando a esfera planetária? És um predador universal,
como um gafanhoto migratório, ou uma entidade bem aninhada e locada no seu ethos essencial?
Uma vez postas as dúvidas, hesitando, imaginam-se similia e similibus soluções, afirmadas por
inúmeros agoureiros e guias, acreditadas por muitos, estabelecendo-se jogos dramáticos,
indecisões sem remédios, a não ser: obedecer sem questionar, divergir ou desistir da problemática,
cuidando do pão cotidiano. Impressões psíquicas aplicadas na infância emulam tendências, mas não determinam o destino. Ou o medo de deixar de ser, ou não ser, se alivia em expressões de culpas,
proselitismos ou facciosismos, em esperanças ditas e reditas como missas, do alto das tribunas,
garantias apocalípticas bem badaladas; ou essa angústia, toda humana, tende a serenar, se aquietar: o
pavor de deixar de ser curando-se pelo pavor de sempre ser, salvando os valores reais, saboreados no
decorrer dos dias, o presente infinito. Nas junções, nos enlaces dessas circunstâncias, configuram-se
epopeias: trata-se, de uma decorrência radical, de raízes; o genésico, o que está na origem, e as
atitudes gestam um termo. Vetores apontam para o reconhecimento consensual de interpretações
sociológicas e históricas, vindos debaixo das umbrelas cognitivas dos doutos, ou então, vivazes
como uma encarnação de princípios atuantes, impulsionam maioridade e liberdade. Os ditames
pedagógicos das estruturas societárias superestratificadas obstam a justa compreensão da
universalidade e enraizamentos cósmicos do estado-de-ser, mas não travam com força irrestrita, o
seu reconhecimento, a educação encaminha um destino, não compele. As âncoras batismais ou
comunitárias, suas nuanças, a natureza peculiar do estado-de-ser individualizado criança interferem
na indução do destino. Garantido, é que a vontade, a sensibilidade e criatividade da criança – e
adulto, sabendo guardar em si o infante cultivando a arte de perguntar e ser curioso – sempre
desafiará os rigores das pré-definições, automatismos, tradições e do logicamente decorrente.

A capacidade de ser sensível ao Belo, à vitalidade e natureza da condutividade estética – entendida
como a capacidade conectiva dos que visionam os alinhamentos das sequências causais – revelando
circularidade, são fatores regidos pelo grau de intensidade e presença natural da configuração
nativa; círculos, girando além das perspectivas filosóficas, perfazendo unicidade. Unicidade
alimentando e gestando essas perspectivas profundas e familiares, onde padrões sinérgicos
despertam, para apresentarem-se na existência, realmente, balizando as confluências e o destino,
entre o estado-de-ser singular e o universal, sossegando, unificando. A observação de dicotomias, o
estabelecimento de distinções contrastadas e rigorosas, fracionando o todo em delimitações,
números e letras, fatores regidos pela vigência e rigor da configuração cultural como habitualmente
apresentada nas escolas normativas, geram dúvidas, inquietudes.

4. DAS FORMAS DE EDUCAR – EDUCAÇÃO ANUNCIATIVA E ARGUMENTATIVA

A educação societária – aqui denominada educação anunciativa – possui seletividade e desígnio
específico, geradora de problemática inerente: ela é aplicada a partir de uma estrutura hierarquizada,
suspensa além do que é específicamente humano, acima da razão, um pressuposto que não pode ser
efetivamente contornado à luz de conceitos pedagógicos assentados em juízos filosóficos exatos e
prudentes. Apesar de revestida dos argumentos da pedagogia contemporânea, a educação societária
geral mantém a estrutura teleológica típica do tomismo. Para o funcionário educador da República,
o conceito de humanidade é selado de acordo com as normas decantadas ao longo da epopeia
histórica, ou de acordo com um dogma irracional incorporado nas igrejas oficiais ou de massa.

Abaixo desse conceito supremo e definidor, enfatizado ou pressuposto em silêncio aquiescente ou
cordato, o ser humano, instalado num contexto histórico e socioeconômico definido, pode ser
‘educado para algo’, como objeto ou recurso da nação. Na esfera societária, a educação é antes de
tudo um cuidado, como a atenção que o jardineiro dispensa às plantas, um zelo que se aplica com a
participação do educando, no intuito de atualizar potenciais inatos, entendidos como sementes
dignas de se cultivarem. O que é julgado bom para florir é normalizado de acordo com uma
deontologia: é a realização de um ideal, o cumprimento de um tratado de deveres pré-definidos –
uma pedagogia5
. Não se trata de favorecer a germinação espontânea de uma ética, brotando livre,
florindo da natureza; há uma tutorização, restrição forte, bem supervisada, aplicada de um patamar
superior, não se trata de uma interlocução respeitosa, encontrando riquezas e desafios nas leituras e
representações criativas e genuínas, até mesmo únicas, dos educandos. Educar é formar, realizar atos
dentro da pessoa com a participação ativa do educando, é uma operação pré-definida, aplicada com
a colaboração necessária, para atingir o interior; o sucesso se demonstra em atos que se conformam
a uma instrumentalização: educar para x ou y. Enquanto Aristóteles fala de potência “como
capacidade de comunicar ou receber algo”, a educação societária entende potenciais como a
contenção de qualidades aptas a germinar ou não. Demonstrar capacidade de trocar informações,
comunicar e receber, é certamente diverso de conter um conjunto de qualidades como potenciais: no
primeiro caso, caraterísticas funcionais abrem perspectivas indefinidas; no segundo caso, um
inatismo genésico predetermina as formas. O poder e eficiência da boa educação estão certamente
agregados a valores; mas, não são valores educacionais objetificados, instrumentados como
utilidades, isso, porque um ser humano só se educa, de verdade, na esfera da liberdade e do valor
dado a si mesmo. No âmbito da organização educacional anunciativa, estatal ou celestial, a norma
mais alta e suprema caracteriza-se pela ausência de razão; o fundamento é dogmático, sobrenatural,
ou norma de estado: razão de estado é norma, dogma é crença. Se a razão final é um credo, educar é
preparar a aceitação do dogma e da norma, e a função magna do educador é se credenciar frente ao
aluno para suscitar aderência, fé salvadora, obediência e sucesso societário.

Compreendida como intercâmbio, sistema de trocas, dialogal, a função magna do educador e da
educação – aqui denominada educação argumentativa – não é essencialmente ‘cuidar’, como uma
mãe, ou um jardineiro, isso já é proporcionado pela família e âmbito comunitário. Educar, em
primeiro lugar, é estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório
horizontal, compartilhado, um reconhecimento mútuo de respeito e admiração, possibilitando
debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico, confiante na razão e bom senso.
Entendendo-se bem posicionado no seu estado-de-ser, existencialmente adequado, exercitando a
razão natural, o indivíduo descobre ser uma junção misteriosa de ser e existência, de absoluto e
relativo, uma expressão de liberdade, gratuidade, naturalmente revestido da graça da criatividade
manifesta. Tal realização, associada à volição, como poder de aquiescer ou negar, dizer sim ou não, faz dele um ente apto a escolher e valorar o que se dá à existência, ele, em primeiro lugar. Saudável,
experimentando a adequação evolutiva e seletiva, o indivíduo tende a valorizar a experiência com
virtude, alegria e coragem. A razão assentada no reconhecimento e presença imediata do estado-deser,
na consciência de si, revela um contexto existencial criativo, por isso, sujeito à impermanência.
Nesse contexto existencial, decorre sensato e bom ser fluido, tolerante, desapegado, cordato,
ponderado, justo e amigo. À luz da razão natural, o H. sapiens se reconhece nas mãos da
providência, mas, sujeito de si mesmo; um estado-de-ser adequado, de si mesmo sujeito e objeto, é
oportuno, propício e benigno: a adequação e bondade são naturais do ser humano que bem se
reconhece e se valoriza.

A junção unitária se enraíza no estado-de-ser; o valor atribuído aos outros depende do valor
atribuído a si mesmo, e, o valor próprio e real, essencial, não é alienável nem sujeito a tributação
sem degenerar: existe em si, no ato mesmo de ser; fenômeno experienciado, conhecido de imediato,
mas inexplicável, junção do absoluto e do relativo. O valor magno é o sentido próprio outorgado ao
estado-de-ser, o melhor sentido, a melhor conduta, a mais profícua, benigna, é o diálogo, a
participação, o compartilhamento; o estar juntos, aprendendo a busca do melhor entendimento e vida
social. Um objetivo certamente prático, eficiente e centrado, sem equívoco e bem argumentado,
respeitando o imponderável para ser merecedor de respeito. A razão lúcida, exercitada sem crenças
apostas, sem mapas prévios e sem tutela, é suficiente para revelar o que é, com adequação e máximo
benefício. Evidência demonstrada nas praças de Atenas desde os primórdios: a razão virtuosa,
efetiva, justa e prudente, só pode ser natural. A confiança decorre na apreciação filosófica de que o
exercício livre da razão leva à percepção e realização de uma ética positiva e humana, socialmente
engrandecedora. Além de instruir saberes, o educador deve corroborar na educação de um ser
humano de verdade e respeito, jamais um crente no absurdo, um fiel ignorante.

Será a história destinada e determinada a frutificar em paz; ou então a permanecer um reinado de
formigas; ou ainda, algo intermediário, nem isso nem aquilo; quem sabe? Estimular a criatividade, o
senso crítico, a imaginação, a intuição e o senso investigativo é tornar vivo, é criar sujeito, é
vivificar em busca da verdade, da compreensão imediata e plena da presença, do seu mistério e
profundo respeito. É auxiliar o outro a se pôr no lugar, ética: fazer do mundo um reino cordato de
paz e confiança. Estamos vivendo em dois planos: o plano da razão natural, primeva e
filogeneticamente familiar, e o da irracionalidade social e histórica, moderna e pós-moderna. Por
estar envolvidos, necessariamente, em planos conceituais, é impossivel apresentar-se com postura
neutra: não se pode pensar, falar, agir e memorizar, atitudes inerentes do ser humano, sem ser
influenciado por discursos; ser lançado na tensão entre o poder da verdade comunitária, assentada
em bases éticas e filosóficas, ou, das ilusões societárias, assentadas em ideologias, filocracias,
vontade reativa e narcísea de poder.

A filosofia é a arte da manutenção da atividade humana no plano nativo, lúcido e juvenil, da razão
universal; enquanto isso, a ideologia sustenta o plano e os determinismos de ordem histórica e
social. Vivendo na cidade – espaço societário essencial -, envolvido por esses planos, estamos
sempre deslizando entre um e outro. Estar ciente desses lugares e planos é o começo de uma busca
destinada a construir, um espaço de verdade, onde possa morar a ética, ou um espaço ilusório, à
manutenção de um reinado de aparências e fatuidades excessivas. A estratégia mais sensata,
ponderada, é ir em busca de um convívio de respeito; fazer desse momento uma ordem de paz: o
amor que faz nascer, é o selo, a marca por onde guiar e orientar a evolução do processo, que, desta
forma, pode vir a ser mais sensato e suave. A essência da educação real é ir ao centro, dar morada ao
outro no contexto do encontro, como se fosse receber a visita de um amigo: isso é dar ethos. E dar
ethos é ser ético; é fazer incidir a luz da natureza sobre o outro, receber o mistério e presença de ser
humano, aqui, agora, no ato do encontro, como se fosse abraçar um familiar. Não espelhar as
máscaras atribuídas, impostas, ou usadas como fardas, papéis; mas, ser um reflexo profundo, como
um lago nas cordilheiras, um Titicaca refletindo um céu de estrelas, um olhar de mulher-mãe
compartilhando o mais real, profundo e sensato, o mais verdadeiro que a natureza colocou em nós
da mesma forma e de modo diverso.

5. DA PRÁXIS FAMILIAR E COMUNITÁRIA À SABEDORIA FILOSÓFICA
HOMENAGEM A PAULO FREIRE

Paulo Freire (1921-1997), pedagogo e filósofo brasileiro, não tomista, não positivista, não
acadêmico, distuingui-se por praticar uma filosofia viva, aplicando elevada compreensão, conceitos
filosóficos primordiais, no âmbito da educação. Apesar de, vulgarmente, aparentado ao marxismo,
reportando à burocracia socialista, é notório que o discurso de Paulo Freire é, na sua essência,
poderosamente antitético aos herarquismos e jugos dos estados6
. Trata-se de um discurso estruturado em conceitos filosóficos essencialmente fundados no pensamento da antiga tradição libertária,
humanista, transitando e dialogando em busca de se assentar na comunidade, desde os jônicos
antigos, infância da filosfia, até os dias atuais. Para Paulo Freire, a educação societária típica, de
estado, é burlesca como um carnaval ideológico, comercial, “bancária”: impositiva, normativa e
taxativa. Aplicada como depósitos numa conta destinada a render juros, a alimentar movimentos de
massa, coreografias dirigidas, orquestradas e sustentadas pelos supervisores, reitores e presidentes
das escolas. Uma educaçao de alunos engavetados e enquadrados, classificados em graus e séries.
Trata-se de uma cumplicidade interesseira, lucrativa: treinamentos, adestramentos e
enquadramentos.

Os princípios subentendidos, latentes e patentes, na exposiçao teórica freiriana relativa à filosofia da
educação, referem-se a manifestações e espaços filosóficos inconfundíveis, ilustráveis com
conceitos libertários lapidares, imortais, tais como (apenas ilustrando): 1) uma vida não examinada
não merece ser vivida; ou vive-se de acordo com o seu próprio juízo, ou é condenado a viver de
acordo com os juízos e poderes alheios; 2) o estado-de-ser, é uma confluência de dois intelectos: o
sensível e o racional; a razão lógica, por si só, não é suficiente à construção de uma sabedoria
adequada; 3) hábitos e tradições servem de base a partir de onde reconstruir uma fortaleza de
saberes, fundamentada na verdade, à luz da razão: não são modelos ou padrões fixos exigindo eterna
reprodução; 4) os critérios mais exatos e profundos enraizam no Logos, no “espírito universal”
refletido em cada pessoa, simplesmente, por ser o que é, natureza humana; critérios enraizados na
consciência íntima, no juízo próprio, na aplicação de métodos para bem guiar a razão, aliados a um
exame bem experienciado, humano – não apenas exercitado à luz de ideais e normatizaçoes.

Para Freire, a função magna do educador não é essencialmente cuidar como uma mãe ou um bom
deus, como o fazem educadores inspirados por determinismos religiosos – tal cuidado, sendo o caso,
não é específico, já é proporcionado, ou deve sê-lo, pela família e comunidade. Educar é, em
primeiro lugar, estabelecer com o educando um contato, um relacionamento interlocutório
horizontal, compartilhado, de respeito e admiração mútua; em segundo lugar, confiante na razão, é
debater assuntos à luz da experiência imediata e do saber simbólico. A confiança decorre na
apreciação filosófica, em que o exercício livre e criativo da razão leva à percepção e realização de
uma ética natural, positiva, humana, desejável e socialmente engrandecedora. Em Freire, além de
instruir saberes, se educa o ser humano, de verdade, com respeito, não, necessariamente, à procura
de praticantes ou eleitores fiéis. Freire escolhe não trazer pautas pré-estabelecidas, dando valor a si
mesmo, respeitando-se, e ao outro, como ser humano criativo, aberto ao diálogo, à participação e ao
compartilhamento, aprendendo juntos, em busca de um melhor entendimento e vida social: um
objetivo certamente prático e eficiente, centrado, adequado à instalação e manutenção de uma vida
eco-humanista, filosoficamente apropriada. Nisso reside o seu mais alto e admirável valor: a
essência do método, a ideia, que não é estranha aos filósofos: é a alma da filosofia jônica, grega,
arcaica, pagã, campestre, pré-zoroástrica, indígena e tribal, perenal, comunitária. É um antídoto curativo ao que se faz, prega e arquiteta nas sociedades superestratificadas e conquistadas. Trata-se
de um intento educativo criativo, filosófico, na tradição de Buda, que sai do seu castelo; na tradição
socrática que maieuticamente extrai do vizinho verdades mais profundas, assentadas em posturas
contemplativas e silenciosas, juvenis e criativas, frente à grandeza da natureza onde mais vale o
amor e o respeito de que todas as certezas. Uma abordagem inscrita na tradição do hilemorfismo
aristotélico, na tradição unitária de Espinosa, no impulso vivo e ativo da elevada autoestima de
Nietzsche; Gandhi, e tantos outros, assentados numa firme tradição não violenta e fraterna:
refletindo partes essenciais da ética; encontrando aplicações filosóficas verdadeiras, adequadas aos
seus momentos e afazeres.

Aplicada a um método específico de alfabetização, a filosofia educativa freiriana nada perde da sua
orientação e vigor, torna-se mais depurada, explícita, essencial, um método efetivo e simples como
uma árvore: raízes, tronco e dois galhos grandes, desdobrados em inúmeros ramos. Para Paulo
Freire, alfabetizar não pode se restringir aos processos de codificação e decodificação. Dessa forma,
a alfabetização de adultos promove: a compreensão do mundo e o conhecimento da realidade social
– as raízes; a conscientização acerca dos problemas cotidianos – o tronco; a leitura/interpretação,
veículo de contato e comunicaçao; a escrita, meio ativo de contribuiçao e integração criativa – os
dois ramos principais dessa árvore freiriana do conhecimento. A Etapa de Investigação configura
uma busca conjunta, entre professores e alunos, dos vocabulários, palavras, temas e conceitos mais
significativos e usados na comunidade – respeitando o linguajar típico. Levanta-se o universo
vocabular do grupo, através de interações, aproximação e conhecimento mútuo, conversas
informais, participativas. Depois de construído, o universo gerador é apresentado, na Etapa de
Tematização, em cartazes e imagens, onde as palavras são identificadas e conhecidas como símbolos
gráficos a serem estudados através da divisão silábica – semelhantemente ao método tradicional:
criando fichas de palavras para a decomposição das famílias fonéticas correspondentes. O passo
subsequente consta da formação, e eventual descobrimento, de novas palavras, usando as famílias
silábicas já conhecidas. Simultaneamente, ocorre a tomada de consciência, através da análise dos
significados sociais, temas e palavras: esboça-se a criação de roteiros para os debates, os quais
deverão servir como subsídios, sem seguir uma prescrição rígida. Nos círculos de cultura, na Etapa
de Problematização, inicia-se uma discussão no intuito de significar os termos, na realidade do
grupo de estudo. Busca-se recriar situações existenciais caraterísticas do grupo, inseridas na
realidade local e fundante, devendo ser discutidas com o intuito de abrir perspectivas conscientes
sobre os problemas (locais, regionais e nacionais): uma postura conscientizada. Os alunos são
desafiados e inspirados a superar a visão mágica, ideológica e idealista do mundo, caminhando de
uma cultura intransitiva para uma cultura transitiva, crítica e ética.

6. O IMO ESSENCIAL DE UMA FILOSOFIA EDUCATIVA UNIVERSAL

Se a Filosofia da Educação representa, deveras, a aplicação do pensamento filosófico, por
excelência, aos processos educativos, em busca de esclarecimentos ponderados e isentos, implica, ao
iniciar o processo do entendimento filosófico, conhecer-se como fenômeno conhecedor,
historicamente nutrido de conhecimentos imediatos resultantes da experiência vital, antes das
compreensões mediadas pela cultura. Apenas a contemplação fenomenológica lúcida do estado-deser,
no que tem de essencial, considerando as condições e necessidades existenciais basilares
atinentes à condição humana, como experimentada e conferida à luz do bom senso, com sobriedade,
garante a universalidade do estudo, a qualidade filosófica fundamental da busca. O ato educador só
pode emanar de uma relação de admiração e respeito, frente à insondável criatividade e
originalidade humana, de apreço à natureza integrativa e sempre renovada do estado-de-ser, de um
método valorizando e fortalecendo, antes de tudo, a capacidade de escolha do aluno – escolha
entendida como fenômeno intrínseco à complexidade e autoconsciência. O ato educador sensato,
isento de sectarismos, liberto de afiliações e militâncias, leva em consideração, na análise, as
aferências teóricas oriundas dos princípios filosóficos decantados e louvados em estruturas culturais
e civilizatórias de tradição humanistas e libertárias, em sintonia com a máxima expressão e
engrandecimento do estado-de-ser. Para que seja possível, adequadamente, observar, comparar,
experimentar tudo a que se refere essa atividade de transmissão, compartilhamento e criação cultural
que é educar, máxima flexibilidade, criatividade e lisura, são fundamentais. Exige-se, desde o início
da relação, reconhecer o que cada um pode ensinar ao outro, os talentos peculiares e singulares, na
busca de resultados e compreensões universais.

O H. sapiens não se humaniza sem uma forte transmissão cultural de saberes, sendo o saber mais
fundamental: ter a oportunidade de aprender a reconhecer-se como é, não como uma escola, ou
alguém, gostaria que ele fosse; ser respeitado na sua individualidade e criatividade, provido de
liberdade cultural para trilhar novos caminhos, gerar formas imprevisíveis de cultura a partir do que
se recebe da tradição. Realizar-se implica reconhecer-se como existencialmente adequado, livre de
finalismos, utilitários ou teleológicos: um estado-de-ser vanguardista em harmonia material,
energética e histórica com o seu meio, fenômeno atestado pelo simples fato de predominar como
espécie, de existir. Progredir em busca de autodeterminação, ser responsável por si mesmo, ciente da
sua natureza, das suas atitudes, comportamentos, sentimentos, pensamentos, em contato com os seus
talentos únicos, singulares, exige receber e beneficiar-se de uma atenção peculiar, individualizada,
além de um mero aconselhamento geral ou currículo mínimo. Uma profunda integração, congruente
e confiante, torna-se possível ao desfrutar de uma receptividade e escuta atentas, tendo oportunidade
de expor suas dúvidas, percepções e intuições. Estimular a expressão, definição do pensamento, das
ideias, compartilhar entendimentos, elaborar juntos: é o método fundamental para se construir planos conceituais, filosóficos e educativos, renovados: superar os influxos ideológicos, a
massificação e atomização, em busca de uma sociedade humana aberta, criativa e genuína.

A ética exige clareza, o ser humano apresentado a todos os pontos de vista, todas as formas de se
conduzir como indivíduo, povo, tribo ou nação: a ética exige liberdade para escolher a organização à
qual se afiliar, pelo tempo que quiser, que achar bom, proveitoso, criativo, enriquecedor. Haveria
ensino mais essencial do que reconhecer no outro a casa universal onde reside a moral, a ética;
apresentar-se como inquilino honesto e sincero da mesma casa; reconhecer-se eterno lugar de
expressão criativa, respeito, abertura e amor; ser honesto na sua própria dimensão de ser? O dever
do educador fiel, honesto, é apenas afirmar o que de fato conhece, apresentar mitos como mitos,
lendas como lendas, suposições como suposições, dúvidas como dúvidas, crenças como crenças,
verdades como verdades, conhecimentos como conhecimentos, nada ocultar. Apresentar-se como
formador de opinião, contador de histórias a serviço de uma seita, tradição, porta-voz de um grupo
ou nação, de uma associação, não é educar para ser humano; mas, ser sócio, associado, sectário,
partidário: é condicionar e implantar no ouvinte as raízes do fanatismo. Cada qual nasce depositante
creditado de bilhões de anos de experiências cósmicas, e, buscando, cada um poderá se conectar
com a herança de muitos povos e nações, com a sabedoria de muitos filósofos; confrontando-se com
escolhas das mais importantes: decidir ir além das suas tradições, superar e enriquecer o que foi
dado e aprendido como se fosse por osmose, ou não; ser portador de um archote de luz viva e nova,
essencialmente humana, ou então, ser veículo passivo de imagens e representações desenhadas por
outros, em outros tempos, com outras palavras, outras classificações, resservir antigos planos
conceituais, desadaptados, frios e desencarnados, como efluxos vetustos de outras épocas e tempos.
A essência vital dos saberes práticos não é o seu conteúdo; mas, sim, o modo como se originaram
no contexto triplo: necessidade, momento histórico e entendimento disponível. Essa interação
observada, criticada e comentada, permite atualizar a capacidade de rever e repensar os saberes,
ademais, de aprendê-los e fazer bom uso.

Educar não é podar ou treinar para um fim apontado, determinações consensuais, políticas – isso
seria ‘inducar’ -, educar é germinar e alimentar o que vem de si, é ensinar um começo, um
princípio, auxiliando o aluno a entrar em contato consigo mesmo, com a sua origem e natureza, com
o mistério do estado-de-ser, força ativa, inteligente e sensível, experimentadora. Educar é evocar
uma curiosidade aberta, disposta a desafiar todos os conceitos em terreno de igualdade, respeito,
amizade e confiança: a confiança de ser portador de uma herança energética infinita, empática e
simpática ao cosmos, universal; receptor e transmissor de uma cultura filosófica a atualizar e burilar:
uma cultura necessitando ser reconstruída a cada nascimento, em cada sopro de vida. Educar é
ensinar a habilidade suprema: ser humano, simplesmente; criatura universal, filho(a) do sol, das
estrelas, do dia e da noite, do espaço-tempo, natureza. Humano é ser capaz de reconhecer em si
todos os potenciais para paz, alegria criativa, ou para a guerra, o fundamentalismo mais sisudo e
rígido: i.e., bem ser, ou mal ser; mas, capaz de escolher ser bom, porque ciente e apto a reconhecer e entender que ser bom é bom, que procurar ser feliz, eutímico, é o melhor estado qualitativo de ser
possível num mundo onde tudo se transforma, refaz e recria, onde tudo surge para se dissolver e
ressurgir, de outras formas, na imensa arquitetura, em movimentos criativos acontecendo em
coordenadas e compassos além do entendimento possível a uma simples parte do conjunto.

O enquadramento adequado à aprendizagem de ser humano é o círculo aberto: no arranjo circular,
não se pode colocar gente em excesso, massificar, diametralmente afastando integrantes tendentes a
se tornar inaudíveis, menos visíveis. No círculo público, todos são iguais, sabedores de que
compartilham os mesmos ciclos vitais, a mesma origem e destino, a mesma natureza: na estrutura
circular, a vida é apreciada como se apresenta, inteiramente, nas proporções adequadas, na
geometria universal das esferas. O mundo é um círculo aberto, de limites indefinidos, possivelmente
infinitos, o horizonte contextual, igualmente: ocasionalmente, não se distingue se a experiência vem
antes dos conceitos ou se os conceitos determinam a experiência. A dialógica gera inúmeras vias,
revela infinitos potenciais, descortina uma inteligência imprevisível, jamais um caminho já traçado,
para sempre: ela é criativa, resulta em saberes que se potencializam, ampliam e se aperfeiçoam
como elaborados por gênios – o gênio que somos em conjunto, reconhecendo cada um como
criatura genial. Todos são portadores da mesma complexidade, forjada na mesma universal herança
e duração: todos merecem o mesmo profundo respeito, o direito de compartilhar o que é igualmente
dado pela natureza onde o sol brilha para todos, onde a terra não é de ninguém, mas tudo possui,
reabsorve e recolhe. O diálogo não revela, como através de uma força oculta, uma via privilegiada,
alheia, repleta de conceitos fantásticos, impossíveis de proceder naturalmente, de se contextualizar e
frutificar no plano onde se aplicam. A dialógica revela uma complexidade impossível de ser
dominada, mitificada, corrompida, por um grupo coligado, uma seita, um único elemento: é a via da
clareza e da virtude, o meio onde fazer valer e canalizar os saberes múltiplos e diversos de uma
multidão de contribuintes individuais, testemunhas do real, impossíveis serem corrompidos7
: a
corrupção resulta do secretismo, círculos fechados, instalados no topo das pirâmides exclusivas das
ditas democracias contemporâneas, necessitando serem reconstruídas em reformas radicais.

O bom educador sabe que se aprende ensinando: a escuta criativa do aluno e as suas respostas
imprevistas atestam ensinos vivos, abertos, verdadeiros, em harmonia com a força criativa e
renovadora do sistema universal. Ser natureza é reconhecer-se sem fantasias redutoras, aceitar-se
com gratidão, livre de imperativos imaginados e rígidos, aberto a mudanças; reconhecendo antes de
tudo os limites da racionalidade, da essencialidade do conhecimento imediato, construindo e
presenteando pelo ato simples de ser no mundo, do mundo, de pertencer por inteiro à natureza, como
se percebe, mas, reconhecida inalcançável na sua grandeza e majestade. Nesse lugar, passagem entre
dois infinitos distantes, passado e futuro, graça configurando possibilidade de destino, opções e
escolhas, onde, por fim, nossos corpos e cinzas hão de alimentar os seres que nos nutrem: ser virtuoso, prudente, comedido, modesto, corajoso, justo, temperado e amoroso, é ser inteligente. Bem
educar é escutar, ser atento ao outro, essencialmente: para isso, é necessário reduzir o que aparta a
comunidade e natureza humana, principalmente, o nível dos projetos, das relações e da organização:
na contemplação filosófica; na esfera econômica; na esfera política: um fundamento mítico,
funcional e humanista, não deve separar o cosmos em plano divino e plano humano, mas reunir os
planos, respeitando o mistério como acontecia na Jônia, antes do advento do zoroastrismo. Numa
sociedade, onde predomina o mito separatista, um elitismo ou apartheid fundamental, segundo o
qual, de um lado, as almas e os espíritos detenham o poder, a luz e a força, e do outro a matéria, os
corpos, a carne, o denso e o opaco estarão separados, em frequência inferior, segregados em baixo,
no escuro, tateando em busca de uma orientação, direção e destino, apenas advindo da clarabóia de
cima: a vitalidade é refreada, reprimida e contida, em favor de um gerenciamento monopolista,
piramidal, que sangra e destrói a existência, empobrece, ao ponto de miséria, a experiência
existencial, semeando escassez e desordem. Apenas a elevação natural da autoestima existencial ou
essencial, poderá gerar uma miríade de comunidade, assentadas na escala humana, onde o poder
decisório de cada um seja igualmente considerado: paradoxalmente atomizando o poder para que ele
seja uno na essência e no ethos onde radicalmente se assenta.

Bibliografia:

• O método de Paulo Freire”; texto de Sônia Couto Souza Feitosa como parte da
dissertação de mestrado defendida na FE-USP (1999) intitulada: Método Paulo Freire:
princípios e práticas de uma concepção popular de educação.
• Freire, Paulo; Professora sim, tia não. Cartas a quem ousa ensinar; Editora Olho D’Água,
10ª ed., p. 27-38; 1993.

Baixar post:

130616051206_F_ENSAIO.ES_Edu_05_(2)

 

 

Deixe um comentário

(0 Comentários)

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *