Essencialismo

O essencialismo versa sobre o essencial: a sua raiz profunda é a unidade indiferenciada; acolhe o que é, partindo da inefabilidade, do marco zero, cerne silencioso do estado-de-ser, comungando uma apreensão metafísica a partir de onde se trama e constrói a perspectiva filosófica cosmo-existencial; autêntico, sem adjetivações, pondera o que é, sem ruptura ontológica. A essencialidade não gravita, como um jogo obsessivo de antagonismos, em torno de um eixo organizador e condicionante onde sujeitos, imaginando-se neutros, investidos de objetividade soberba, matemática, sentados nas arquibancadas da academia, há vinte e cinco séculos, debatem a substancialidade das “essências”, platônicas e aristotélicas, ou as relações entre “essencialidade transcendente” versus “atributos existenciais contingentes”, ou, ainda, pensabundos, reativam uma forma de misticismo intelectual pitagórico, transferindo as “cogitaciones” para o plano da linguagem, pensando os vocábulos como condutores de essências puras e originais, geradores inatos, celestiais, de impressões psíquicas significantes, verbum, independentemente das correspondências telúricas, entendidas como simples apontamentos, a posteriori, em descensão, de concretudes ultimamente inferiores. O essencialismo, ciente do mistério socrático, “o saber do não saber central”, igualiza, em-si, a junção sagital e unitária do estado-de-ser à essência: bem ou mal ressentida, fonte de todos os debates, o âmago do estado-de-ser é a essência unitária, sua identidade e origem. Bem acolhida, com bom senso, a essência existencial desdobra-se como um agregado filosófico conjuntivo, radical presente e original, substancial e criativo, de expressionismo, existencialismo fenomenológico e naturalismo. Por decorrência, o essencialista típico é aberto à experiência, anuindo positivamente com a existencialidade, disposto a comungar vitalidade num ânimo criativo e sereno, apto a ‘sentir-e-intuir’ a magnificência do estado-de-ser; manifesta uma intenção de respeito e louvor ao que é, elaborando uma estética-ética etológica, assentada no ethos eco-humanista, intentando contribuir à instalação de uma ordem filosófica e civítica centrada, dialogal e comunitária.

Como filosofia e movimento, evidencia ser transcultural, por resgatar o termo ‘essencial’ do esquecimento e das extrapolações nos quais se dissipou depois da condenação e morte de Sócrates e progressivo desvio idealístico e hierarquista, construído por Platão, divorciado das ponderações jônicas e da herança heraclitiana, mesmerizado pelo dualismo ético, cósmico e teogônico, sobrevindo nos enlaces das invasões de Cirus II, generalizando as concepções sobrenaturalistas da antiga religiosidade pérsica, o zoroastrismo. Os binômios clássicos tais como: divino versus natural, ideal vs real, subjetivo vs objetivo, poético vs prosaico, absoluto vs relativo, experiência vs cultura, e outros, gravitam e estão contidos, na órbita da fonte unitária e suprema a que tudo se refere e de que tudo advêm. A perspectiva cosmo-existencial, essencialista, supera a perspectiva sobrenaturalista, assim como a sua versão leiga, kantiana, dicotômica, “transcendente-transcendental”, que domesticou e tamisou o clarão iluminista, ainda regendo os teleologismos idealísticos, teológicos, assim como o positivismo [fisicalismo, cientificismo]: ideologias complementárias e dissecantes, sempre assumidas e preservadas nos enredos dos movimentos culturalistas; a filosofia setecentista ainda subjuga o intelecto geral, imperando nos arcaicos fundamentos da escolástica. Assentado nos ditames da razão qualificada, o essencialismo, não é destinado, nem aspira, a tornar-se um movimento de massa, uma simples reformulação atualizada da cultura, uma ideologia: é um posicionamento sóbrio, responsável e não hierarquizado, exigindo independência intelectual, liberdade e criatividade na reconstrução dos significados e reconhecimento do estado-de-ser, nada prometendo, exaltando o esforço próprio, sem expectativas sobrenaturais, em prol à realização da sabedoria filosófica na existencialidade e enfrentamento da realidade. O essencialismo é o fundamento filosófico de um devenir eco-humanista salutar sóbrio, como alternativa a uma possível auto-aniquilação apocalíptica.

O Universo segue, inexorável, o seu infindo processo de criação e destruição. O Kósmos não está a serviço da humanidade, tampouco a Natureza atende às rogativas, ensejos ou idiossincrasias, da sociedade: é a transferência e conversão sábia da harmonia cósmica, esteticamente contemplada, para o âmbito social, na forma de uma constelação bem-humorada de virtudes eco-humanistas, em sintonia e correspondência com os atributos universais, que revela ser a vocação mais alta da humanidade: vindo da rosa-dos-ventos às virtudes cardeais, traduzindo exatidão cósmica em justiça humanista, inexorabilidade em coragem, organização em prudência, adaptação evolutiva em temperança, e, no centro da encruzilhada mística, transmutando unidade em união e amizade. É uma sintonização empática e construtiva, operada do interior, na junção unitária e essencial, “estado-de-ser”, um louvor ativo que cada um deve intentar refletir na comunidade dos humanos, tornando-se criativo, contribuindo à instalação da paz, vertendo essa transposição de momento a momento. Os conceitos típicos da filosofia essencialista configuram ser: imo silencioso e essencial do estado-de-ser; perspectiva filosófica cosmo-existencial; valores “est-éticos”; razão qualificada; eco-humanismo; virtudes cardeais, união, serenidade filosófica, nova ordem metafísica, religiosa e civítica – uma transformação renovadora, hoje essencial. 

Régis Alain Barbier – Aldeia, Recife; 21/08/2008

 

 

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