FEDRO DE PLATÃO – um pronunciamento político

O discurso de Sócrates aos indecisos

1. Introdução

O Fedro é um discurso ímpar. É longo e acontece fora da cidade de Atenas, às
margens de um riacho, em um lugar campestre. Trata-se de um diálogo entre
Sócrates e um entusiasta e jovem ateniense, Fedro, por sua vez, amigo de Lísias, um
famoso doxógrafo, um sofista e fazedor de discursos (escrevendo ‘para’ em ‘função
de…’: escritor de aluguel!). O jovem Fedro, encantado com o discurso do amigo Lísias,
resolve lê-lo para Sócrates, querendo compartilhar com o mestre um texto que ele
achou interessantíssimo, igualmente, em buscas de uma opinião. Neste texto, lido
por Fedro, Lísias elogia e favorece uma necessidade de bem gerenciar e calcular o amor, como fonte proveitosa de prazeres, evitando compromissos, enlaces e os
excessos da paixão. Sócrates responde no sentido de mostrar que antes de falar de
coisas óbvias, no caso, evitar os distúrbios incontidos da paixão, uma definição do
assunto em pauta seria fundamental para não arriscar deixar ao lado coisas
essenciais: introduzindo desta forma um longo parecer sobre a ‘arte de bem dizer’: a
retórica. No decurso da caminhada ao longo de Rio Ilissos, uma lembrança,
aparentemente causal, motiva um parecer sobre os mitos. Portanto, esses três
assuntos bem definidos, amor, mito e retórica, fundamentam o diálogo, deixando
leitores, comentadores e editores incertos, imprecisos, a propósito da unidade, ou, do
‘fio discursivo’. Afinal, qual seria o justo subtítulo desse discurso: ‘do amor’, ‘da
retórica’ ou ‘da mitologia’?

2. Da adequação do diálogo

Afirmado por doxógrafos, esse discurso de Platão traz assuntos diversos que não
parecem se relacionar, conferindo ao texto um aspecto coloquial e aleatório; o que
causa certa surpresa, não sendo Sócrates, tampouco Platão, dados a conversas
corriqueiras. A busca do fio diretor desse discurso, empreendida por diversos autores,
gera uma plêiade de propostas criativas.

Perguntei-me se honraria o tempo dedicado, se valeria o empenho, estudar o Fedro
em busca da inteireza do sentido. Não sendo tão prudente como gostaria de ser, não
me passou pela mente a possibilidade de não encontrar o fio do discurso. Credito os
tradutores, portadores de talento e seriedade suficiente, de bem servir os textos que
traduzem assim como os leitores; apesar de algumas dúvidas relativas à tradução de
algumas palavras e expressões, referências e significados, entendo-os dotados do
gênio de bem transmitir o justo significado das frases. Ademais, credito os antigos,
pioneiros dessa venturosa epopeia filosófica, de diligência suficiente para não deixar
o significado dos seus textos depender da interpretação de um ou outro vocábulo, de
garantir o reconhecimento do sentido nas grandes linhas discursivas, na trama geral
e circunstâncias, um pouco como nesses afrescos em que a falta de alguns traços não
detrata a completude das imagens e a visão da beleza.

Veio-me à ideia que na autoridade de um diálogo milenar versando sobre a clareza
retórica e a perfeição da união amorosa, se a coordenação harmônica das partes não
se denotava de imediato, é, certamente, porque havia sido ofuscada, por prudência, ou, quiçá, exigiria para se evidenciar um pressuposto inerente à cultura de outrora,
uma ideia geral, antes presente no arco dialético, hoje subsumida em outros
entendimentos, encoberta ou desaparecida. Discursar para louvar e exemplificar a
retórica como forma inteligível, instrumento necessário da palavra que almeja chegar
ao essencial, outrossim, como outro motivo do discurso, apontar o amor como élan
em direção à unidade divinal, mística juntura visionada como reciprocidade perene
da alma e do corpo, correlaciona em harmonia o verbum e o moto num fio discursivo
que, sendo congruente, não pode se romper e que deve conotar a sabedoria
justificando o que é.

Portanto, ciente das possíveis dúvidas referentes ao pleno sentido do discurso, após
supervisar o texto e conferir os três temas evocados na narrativa: o amor – nas suas
várias dimensões e facetas; o mito – como algo que se aceita com piedade, ou de que
se duvida buscando interpretações prosaicas, ou, ainda, que se coloca entre
parênteses em busca de conhecer a si mesmo; a retórica – a oratória nas suas
diretrizes e ordenamentos profundos: nada mais simples de que me perguntar, na
forma de uma charada: em que possível universo tais assuntos – o amor, o mito e a
retórica – configuram, em conjunto, os fundamentos necessários das narrativas?
Em que prática cultural encontrar, enlaçados, esses temas: o amor, as imagens
sagradas e o verbum? Ademais, a peculiaridade desse discurso, que acontece fora
das muralhas da cidade, num cenário campestre descrito por Sócrates como
belíssimo e acolhedor – com um plátano, símbolo de renovação, cuja copa recobre os
visitantes de um temperado sombreado; um agnocasto florido e perfumado, símbolo
da castidade; as margens refrescantes do riacho e uma fonte de águas claras – me faz
rememorar as cantigas dos poetas que, em tantas odes, louvam a natureza como uma
catedral: o riacho, emoldurado por margens de relva, vem ser a nave que leva a esse
recanto sagrado como um altar, e, à luz do zênite, a sinfonia das cigarras verte a
glória celestial nesse coro verdejante.

Na imaginação surge a imagem de um templo; nesse transporte, quase um delírio,
de imediato, Sócrates aparece como sacerdote universal advogando a causa do amor
nobre, da virtude e da conduta reta; um hierofante centrado na abóbada do mundo,
embora, vivendo no interior das muralhas dessa cidade onde, cidadão acusado de
subverter a ordem instituída, deverá ser condenado a beber cicuta.

Desde o início, o discurso é destinado a transmutar os passos cotidianos, os passeios
citadinos, em epopeias e pegadas de gigantes: – “Meu caro Fedro! Para onde vais e
de onde vens?” 227a. A essa abertura vertiginosa corresponde um fim encurvado e
recolhido no altar do próprio coração, onde, numa prece final, evoca-se uma
comunhão espiritual:

SÓCRATES: – Divino Pã – e vós deus outros destas paragens! Dai-me a beleza da alma, a
beleza interior e fazei com que o meu exterior se harmonize com essa beleza espiritual. Que o
sábio me pareça sempre rico; que eu tenha tanta riqueza quanto um homem sensato possa
suportar e empregar! Teremos mais alguma coisa a desejar? Creio que pedi o suficiente. 279c

Fedro, como se fosse um fiel frente a um sacerdote intercessor, responde a Sócrates:
FEDRO: – Pede para mim a mesma coisa, pois os amigos tudo devem ter em comum.
Sócrates, quem sabe, talvez resignado com a atitude delegante do jovem, fecha o
diálogo com um “vamos, então!” que ressoa no bosque como um “que assim seja!”.

Quem poderá negar que esse diálogo possui uma eloquência religiosa, como uma
homilia, uma missa paisana, pagã? Não há dúvida: trata-se de um pronunciamento
devocional, um oratório engastado num diálogo arejado e crítico, evocando uma
conduta e uma convicção, um manifesto com graves repercussões individuais e
sociais, um apelo a favor de uma purificação e renovação, uma profissão de fé! Fedro
de Platão é uma exortação, um oratório, que por necessidade deve evocar o amor e a
poesia mítica dentro de uma retidão discursiva, ou doutrina, incluindo perspectivas
metafísicas e mitologias agregadas – nisto, configura-se a unidade teológica-política
do diálogo.

3. Da polêmica

Sócrates, aprendendo-ensinando aos que ousam pensar por si mesmos, demonstra
um projeto existencial e advoga uma política cuja meta não harmoniza com o apego e
a sede de possuir e imitar que impera na cidade democrática. Mas Sócrates não pode
falar das tribunas onde será condenado; às medianias oportunas exortadas e
obedecidas sem exame ele prefere a dialética do provável e orienta e estimula os
aspirantes a bem dirigir seus próprios pensamentos e passos. Divertido, ele escuta e
fala com Fedro como se escuta e fala a um jovem incauto por não saber estar
evoluindo entre dos grandes atractores que condicionam uma aventura delicada.
Uma epopeia onde se é chamado a fazer seus votos, seja a favor de uma vida sub-
rogada, apegado a coisas efêmeras e mutantes, poderes ilusórios, ou, diversamente,
em prol a uma liberdade plena por reconhecer que as raízes do ser mergulham no
ilimitado e perene, além da morte e do nascimento, espaço sagrado onde as
antinomias se reúnem num todo misterioso que reabsorve as rupturas do intelecto
dogmático no grande círculo luminoso e dialógico do saber.

Como, nesses atos-de-ser antagônicos não acontecer dois ordenamentos, duas
maneiras de trilhar as rotas, metas míticas, atrações, desejos e eloquências distintas?
Como não acontecer diálogos acirrados onde se conotam o compromisso dos
oradores, apontando e batalhando direções opositivas? Intrínseco à natureza
variegada dos ânimos, pontos de partida similares demarcam direções e lugares de
chegada diversos, polêmicas que se explicitam nessa trina de assuntos definidos no
Fedro. Não será típico das democracias o advento de um discurso dominante e de
uma massa correspondente de partidários apoiando os demagogos, e, ilhados, uns
poucos excêntricos, visionando luzes além das brumas? Interpolado, um grupo
menor de indecisos que não discriminam, um povo seduzido que repete frases que
não compreende, encantado pelos sons e rimas das orações, indefinidos que não se
orientam, girando, presos no interior dos muros da cidade como peixes enredados.

Em meio a essa multidão, prudente e irônico, dialogando e examinando sem
exortações frontais, Sócrates constrói novas relações, discrimina, separa e ajunta
conceitos em diretrizes que ele sinaliza e que bifurcam, insuflando no ar da cidade
um renovado ânimo deliberativo, um vento que norteia. Por ser o amor ao Belo seu
assunto predileto, como se fosse um estrangeiro nessa cidade prosaica, Sócrates
parece falar desse lugar paralelo, à margem das estradas, dessa beira-rio
esplendorosa cuja geografia conhece como a nascente conhece a criatividade
transmutativa do riacho.

FEDRO: – Tu, porém ó homem excêntrico, és o homem mais extraordinário que já se viu. Com
tuas palavras, dás a impressão de ser um estrangeiro que necessita de um guia, e não um
cidadão da capital. Pouco sais da cidade e parece que nunca vais para fora dos muros. 230d

Imenso, mas irônico, o homem mais sábio de Atena, simplemente responde:

SÓCRATES: – Perdão, meu ótimo amigo! Eu desejo aprender. Regiões e árvores, entretanto,
nada desejam me ensinar, somente os homens da capital ensinam-me.

4. Definição metafísica e dialética decorrente

Nesse diálogo, Sócrates leva a intuir e reconhecer que um conceito filosófico
profundo, essencial, conhecido ou ignorado, delimita potenciais fundamentais, vitais,
e induz uma praxe, um modo de viver correspondente; que seja introjetado sem
exame, deturpado por contágio com um âmbito societário cuja multiplicidade
demográfica, cultural, ritos dominantes, convenções, intensidades políticas e
urbanísticas compelem, ou, bem examinado, escolhido com autonomia e
responsabilidade, resultante em atitudes e posicionamentos aparentando
inconformistas, excêntricos e transgressivos em relação ao que é desfocado e vulgar.

Tal eixo de perspetiva – seja aburguesado, acompanhando as expressividades e
entendimentos histórico-culturais dominantes e populares, simbolizados pela polis
democrática, murada e protegida; seja outro, seguindo em direção ao que é essencial,
poético e inspirador, acompanhando as águas puras de um riacho em busca de
margens bucólicas e da inspiração das musas – encontram-se esquadrinhados no
Fedro, onde se teoriza e se exemplifica esses dois programas existenciais divergentes,
na tentativa de delimitar e responder ao questionamento subjacente a toda busca
filosófica: – “como viver, justamente, em harmonia com o Cosmos e em meio aos
seus pares?” – logo, evocando as argumentações necessárias e posicionamentos que
deverão considerar as coisas da razão, do saber e da visão – retóricas, amores e mitos.
Um triplo ato e apreço da razão: o entendimento justo, a visão clara e a definição
precisa do que é aspirar, ou amar, conjuntamente, configuram o conteúdo e o moto
fundamental desse diálogo. O que se discute e demonstra é que um posicionamento
existencial é centrado ao redor de um entendimento, de uma visão e reconhecimento
do que se é, explicitados no que se vê, no que se ama e no que se fala1: o que resulta
em modos de ser e viver, de fazer e ter, de existir, urbi et orbi, que poderão
examinar-se e reconhecer-se como sábios ou ilusórios.

O ‘grau de memória’, abertura às inspirações vindo das musas, filhas de Memosina, o
reconhecimento intuitivo, sensível e qualificado, inspirado e visionário, referente à
relação, amorosa, entre a alma e o mundo, ou, nos nossos termos atuais: o
reconhecimento da reciprocidade testemunhada e vivida do mistério consciência-existência, exige e comprova uma direção clara e precisa do entendimento, isto é uma
retórica enraizada em perspectiva filosófica e poética profunda, que se adequa a um
modo, postura e conduta apropriadas.

Talvez, uma das razões da sabedoria de Sócrates resulte em evocar a natureza
humana como totalidade criativa onde se coordenam corpo e ânimo numa
reciprocidade que não se delimita. Dessa forma, ele amplia o verbum diretor do
estado-de-ser, agregando as noções de mistério e de fenômeno num círculo infinito
cujo centro é o momento; no caso, o aprumo zenital desse lugar bucólico marcado
por esse grande plátano. Em poucas frases, o extraordinário ateniense engloba o
Cosmos no arco do discurso, do começo ao fim, dos azimutes da natureza-ser, fresta
mais misteriosa e genésica, ao termo mais atual e responsável da homo-sapiência.

Somente o que a si mesmo se move, nunca saindo de si, jamais acabará de mover-se, e é, para
as demais coisas movidas, fonte e início de movimento. O início é algo que não se formou,
sendo evidente que tudo o que se forma, forma-se de um princípio. Este princípio de nada
proveio, pois que se proviesse de uma outra coisa não seria princípio. Sendo o princípio coisa
que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não pode ser destruída. (…)
Quanto à denominação de imortal, isto é algo que não podemos exprimir de uma maneira
racional. Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem a suficiente clareza,
que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se unem para toda a
eternidade

Entende-se que a existência, seus caminhos, como um ser vivo que se locomove, uma
narrativa, um discurso, bom ou ruim, criticável e corrigível, acontece respeitando ou
desrespeitando o Mythos, contidos numa visão, numa ordem, num Logos, que
justifica um Ethos, bem ou mal. Bem viver exemplifica uma relação orgânica,
sistêmica, uma manifestação onde as reciprocidades, justamente ponderadas,
apontam uma unidade essencial, uma dialética cosmo-existencial que transcende os
assuntos corriqueiros e prosaicos da cidade, e, onde: amar ou não amar o outro,
qualquer que seja a forma, é amar ou não amar a si mesmo, entender e respeitar ou
não a experiência existencial no que oferece de essencial.

5. Da necessidade e do valor dos mitos

Como poderia num discurso onde se destaca a justa conduta do indivíduo virtuoso,
desprezar a importância do mito, espaço poético e espantoso onde se diluem e se
unem imaginação própria e coisas celestiais? Não se faz uma retórica, justamente apontada, sem sinais míticos que são postos avançados, bandeiras dos que trilham os
caminhos do Olimpo.

Ao longo do riacho que percorrem em busca de um sítio para conversar, surge uma
observação sobre a veracidade de um mito lembrado em referência a um lugar ao
longo dessas margens – o mito de Bóreas que evoca o espirito do vento, simbolizando
o sopro da força criadora. Sócrates responde que se ele fosse, como alguns doutos,
destituído de respeito relativo aos mitos, tentaria interpretar essas histórias em
termos concretos, associá-las a coisas racionais e lógicas, a eventos históricos; o que
seria, talvez, interessante, mas, como os mitos se conectam à totalidade da mitologia,
exigiria um esforço impossível, improdutivo. Procurar dar verossimilhança a esses
eventos usando as logicidades corriqueiras denota uma sabedoria um tanto obtusa,
anacrônica, que não auxilia a apreciar a vida como convém. Ainda caminhando ao
longo do riacho, Sócrates demarca em poucas frases os grandes mitos vertiginosos,
de apreço universal, dessas fábulas de campanário que referem a uma plêiade de
deuses – reis e rainhas ancestrais ligados a comunidades e tradições regionais – que
devem ser respeitados, mas que não demandam uma inútil aplicação da inteligência
dedicando-se a eles mais de que a si.

Sócrates pondera a relação do mito e da razão de uma forma sutil, demostrando
considerar a veracidade dos mitos, não sendo incréu, estando ciente de que os relatos
da tradição serão certamente ofuscados em fábulas, e, que investigar a si mesmo a
ponto de conhecer-se, como essência, isto é, como possível participante de um
misterioso destino, é tarefa, certamente, mais importante. Os conceitos ‘apreciar’ e
‘lazer’ aprecem no discurso, evocando opções existenciais que valorizam a liberdade,
a atividade desinteressada, criativa e livre de metas prosaicas. Epitomando a visão
mais condigna, no lugar e tempo em que vive, de imediato, ele mira o mistério
perenal e agrega o mito a si mesmo abrindo o domínio interior e privado à mais alta
intuição. Diz ele:

Ainda não cheguei a ser capaz, como recomenda a inscrição délfica, de conhecer a mim
próprio. Parece-me ridículo, pois, não possuindo eu ainda esse conhecimento, que me ponha
a examinar coisas que não me dizem respeito. Não me interessam essas fábulas e conformome,
nesse sentido, com a tradição. Não são as fábulas, que investigo: é a mim mesmo. Talvez
eu seja um animal muito mais extravagante e cheio de orgulho de que Tífon; ou, porventura,
um animal mais pacífico e menos complicado, cuja natureza talvez participe de um misterioso
e divino destino, mas que não se enche com os fumos do orgulho…

O sábio não desdenha as intuições e histórias mais notórias que sombreiam e
enriquecem as aporias rigorosas de uma orla utópica, como franges hibridas, musgos
nascidos das relações poéticas entre as clarezas da razão e as sombras do incógnito:
lugares onde se pode projetar esses lances hipotéticos da alma nas profundezas dos
potenciais.

Sócrates se envolve em diálogos surpreendentes e enriquecedores ao apropriar-se
dos não saberes dos seus interlocutórios – “ainda não sei”, “ainda não cheguei” –
expressando-os na primeira voz em contiguidade e sintonia com o seu conhecimento
terminativo da insuperabilidade do mistério essencial; um ensino e saber singular
referido pela pitonisa como: – “ele sabe que nada sabe”.

6. Retidão e retórica

No Fedro de Platão, examina-se as qualidades do amor, dos mitos e a arte da retórica,
discute-se o ato diretor do bem querer; a conduta que convém frente ao exercício do
desejo; a arte de bem se conduzir frente à necessidade de agir em busca de satisfação.
Sendo ensejo geral a busca da felicidade, configura-se uma praxe de magnitude
fundamental, tanto no que refere a um indivíduo quanto a todos os que pertencem à
comunidade, à polis. A felicidade de um indivíduo não pode ser a infelicidade de
outro por ser a amizade e o respeito, a paz e a harmonia, componentes necessários do
estado feliz; o ensejo, sendo geral, determina um destino de consequência societária,
ou seja, um programa, uma política em busca do bem comum.

Tanto quanto não se separa a inteligência dos seus agregados intrínsecos, a razão, a
capacidade de apreciar o belo e a visão, nada se compreende (e empreende) sem
motivações e desejos. Élans diversos abrem um leque de opções, de simples gostares
voláteis a amores intensos cuja natureza apega ou liberta na dependência dos
discursos que se configuram examinando e dialogando. Como avaliar a conduta de
um indivíduo, ou de um povo, com retidão sem comtemplar, ao menos, essa trina de
aspetos fundamentais: as apreciações e gostos que se cultivam; a racionalidade e
congruência das buscas e discursos; junto à visão que norteia o destino e os fins – isto
é aquele que legisla, ajuíza e guia? Nestes termos, seria possível examinar uma
conduta fundamental sem falar, conjuntamente: da expressão do desejo, do amor; da
razão que existe dita nas prosas bem ordenadas, e, das imagens e paradigmas que norteiam, dos mitos e das visões, símbolos e significados que conectam o efêmero à
trama que perdura?

Não será essa metáfora da carruagem uma imagem concisa desse condutor que dirige
o discurso de acordo com as visões, razões e apreciações, tentando equilibrar o
veículo entre dois atratores opositivos? Não será essa imagem da retórica como um
animal ou corcel de boa constituição, com cabeça, tronco e membros, uma excelente
representação da vivacidade do orador quando opera na primeira voz, enuncia
construções e definições bem norteadas, apontando e marcando o rumo do amor?

Animado de vida e luz intensa, imbuído de entusiasmo e de grandes virtudes,
Sócrates não lança ao ar uma palavra, sequer, um signo, que não seja uma seta
apontando a meta. Uma supervisão desse diálogo, como se contextualiza e acontece
nas beiras do Rio Ilisso, ilustra e conota o posicionamento político exemplificado e
justificado por Sócrates e reportado por Platão. Os amigos se dirigem para fora de
Atnena, cidade cerceada de muros, conquistada por plutocratas servidos por
demagogos que reduzem a arte de amar a uma praxe econômica e prosaica em busca
de máximo benefício e mínimo desgaste, exaltando o amor aos bens, ao conforto,
fama e poder, ao detrimento do amor ao que é Belo e verdadeiro. O riacho que
Sócrates e Fedro margeiam contorna a cidade em direção a um prado inspirador,
lugar dedicado a Achelous, rio-deus da abundância, simbolizando um processo
purificatório em busca da riqueza dos sábios. Mas Fedro traz escondido embaixo do
braço esquerdo um discurso leviano que ele imagina digno de nota, edificante.
Inicialmente, prudente, às vezes irônico e ambíguo, conhecedor dos embates e da
corrupção reinante, mas vivendo na comunidade, Sócrates, atendendo a vontade do
amigo empenhado em memorizar essa peça de oratória que ele julga magnifica, não
desconstrói o escrito de imediato, mas clareia com luz baixa, velada, aquele que pode
merecer alguns comentários, sem criticar com rigor o soberano demo citadino
manifesto no texto de Lísias. Logo, no cenário, uma via conectando a cidade murada
e o campo, no enredo, discutindo o bom senso e significado do desejo, aparecem,
fortemente esboçados, dois argumentos: um discurso elevado e profundo, exigindo
sabedoria, e, uma vereda inferior e vulgar, rabiscada num discurso insensato.
Sócrates, o dialético, encarna o sábio, e, Lísias, o logógrafo demagogo, o arauto
defensor de uma política de posses e poderes, mas destituída de amor. As condutas, princípios e consequências e das duas vias, são elencados no diálogo, deixando a
cada um a responsabilidade de escolher e seguir um ou outro posicionamento.

Na resposta inicial, envergonhado, a cabeça coberta simbolizando estar proferindo
um parecer a meio mastro, de pouca inspiração, atendendo o pedido insistente do
amigo, Sócrates, acompanha os arrazoamentos de Lísias, resgata o senso comum
contido neste discurso que se limita a criticar a paixão insensata e elogiar as praxes
da razão, pretendendo abordar a temática do amor, de Eros.

SÓCRATES: – Como? Será preciso que o discurso seja elogiado por mim e por ti? Temos de
afirmar também que seu autor disse tudo que era necessário, que cada expressão é clara, bem
elaborada e compreensível? Seja, farei isso por amizade para contigo, se bem que eu, na
minha incompetência, não tenha notado tal coisa.

Uma vez satisfeito a contente o desafio de Fedro, tendo respondido e enfatizado os
conceitos sobre o amor, ou Eros, ditos e conotados no discurso de Lísias:

“(…) Quando o desejo, que não é dirigido pela razão, esmaga em nossa alma o desejo do bem e
se dirige exclusivamente para o prazer que a beleza promete, e quando ele se lança, com toda
a força que os desejos intemperantes possuem, o seu poder é irresistível. Esta força todopoderosa,
irresistível, chama-se Eros ou Amor”.

Irônico, Sócrates se levanta com a intenção de fazer o caminho de volta para a cidade.
Fedro o interpela sentindo que não havia dito tudo sobre o tema; como se caindo em
si, recebendo de repente a intuição do seu daimónion, Sócrates esclarece que, com
efeito, como havia falado, apenas elogiando a prudência, condenando o erotismo
apaixonado, não esgotava de fato a temática evocada por Eros, ou Amor:

SÓCRATES: – Trouxeste-me um discurso horrível, (…) em certo sentido, ímpio. Pode haver
coisa mais horrível? (…) Já não crês que Eros é filho de Afrodite, e como tal é deus? 242d
FEDRO: – Sem dúvida. É o que diz a tradição.
SÓCRATES: – Mas tal fato não foi mencionado (…). Ora, se Eros é, como de fato é, um deus ou
um ser divino, não poderá ser mau. (…) Esses discursos pecaram contra Eros. Além disso, a
sua tolice é cômica (…) enchem-se de importância porque conseguiram iludir alguns ingênuos
e ganhar os seus aplausos. (…) Antes que venha a sofrer pela ofensa feita a Eros tentarei fazer
a minha palinódia, mas com a cabeça nua e não, como antes, embuçada. (…) não foi verídico
este discurso ao dizer que, apesar de se ter um amante, é prudente conceder mais favores ao
não apaixonado, porque aquele é louco, enquanto que este possui discernimento. Isto seria
verdade se a loucura fosse apenas um mal; mas, na verdade, porém, obtemos grandes bens de
uma loucura inspirada pelos deuses.

É quando o sábio desenvolve a contente o seu argumento: o amor verdadeiro,
entusiasta, deve ser orientado pela filosofia. O que justifica uma vida lucida é a
prática do amor, que se exercita plenamente quando o estado-de-ser se orienta
através do uso atento da palavra, ou retórica, que deve auxiliar a discernir e definir
os objetos enunciados nos diálogos, diferenciar o justo e virtuoso do que não é, ser
instrumento e veículo dessa busca. Sócrates encarna o filósofo exercitando um dever:
critica e corrige a temática, esclarece os conceitos, as palavras diretoras e os
pensamentos, para que os que queiram escutar e apreender possam-se orientar em
direção ao justo e verdadeiro, reconquistando um nobre destino, individual e
comunitário, em prol a uma renovada dimensão política, ou civítica, que introduz e
aponta os caminhos da harmonia e do Belo.

7. Conotações decorrentes

Quem sabe discursar é responsável, dotado de uma inteligência suficiente para
compreender e reconhecer o que diz, orientar o seu discurso, reconhecer a que causa
está servindo, se é verdadeira e virtuosa, ou não. Quem dita um discurso sobre o
amor e não encaminha o ouvinte ao Belo e sublime, mas a um rateio de bens
efêmeros, poderes e prazeres imprudentes, sabe em prol a quem trabalha e por quais
razões, logo, não se compara em virtude, tampouco em poética e retórica, a quem
exercita um diálogo, ou faz um discurso, inversamente direcionado e tenta guiar seus
ouvintes na busca das grandes realidades existenciais, da verdade e da boa vida, bem
examinadas.

Os que na cidade discursam em favor de apoio e aclamação, não admiram e/ou
abominam os discursos por sua capacidade de veicular a verdade ou a mentira, mas
por reconhecerem o grande valor da oratória soberbosa em aumentar, quiçá diminuir
o poder de quem fala; poder consagrado na aprovação populista que se aduba e
exacerba em lisonjas, elogios e críticas bem distribuídos.

Se os estadistas receiam fazer discursos não é por temerem o veredicto da
posteridade, serem considerados sofistas, demagogos ou logógrafos a serviços de
interesses vulgares e prosaicos, mas, sim, por recearem discursar sem a astúcia e
demagogia suficientes para garantir a aprovação das massas, votos para aumentar
seus poderes e haveres. Receiam não serem capazes de encher o povo de esperança
para que seus gritos de aprovação alicercem a sua sede de conquistar mais medíocres poderes: em breve, receiam não serem dotados da astúcia necessária para produzir
discursos sedutores e vistosos, parecendo virtuosos e profundos, mas avolumando o
mercado da vulgaridade e mediocridade política, ofuscando a verdade e o essencial.

Quando os oradores envolvidos nesses afazeres e lutas se criticam, acusando-se de
meros repetidores de discursos sem substância, não apontam os abusos e as
deturpações corriqueiras das palavras midiatizadas afastadas da verdade e alugadas
a favor de causas escusas, mas, através dessas detratações e elogios públicos
negociam alianças e ataques de acordo com uma praxe competitiva e sovina cuja
meta é vencer e conquistar, ganhar aprovação e poder: fama. Cercados de aliados
eloquentes e populistas, como ovelhas em torno de uma mina de sal, os governantes
mais soberbos amam proferir discursos, sabem que as massas adoram os que
demonstram ascendência e poder, bajulados por um séquito de seguidores satisfeitos,
catalisam promessas de prosperidade para a maioria dos votantes.

Será que nesses enredos típicos das cidades dirigidas por plutocratas e tiranos
carentes de filosofia, será necessário examinar cada um dos discursos para decidir se
é bom ou mau? Ou, simplesmente, perceber o contexto em que são ditos: com que
intenções e propósitos são elaborados e para quem servem? Sócrates ensina a Fedro
e o exorta a reconhecer que não é necessário examinar cada frase e estilo de cada
discurso para saber o que valem, basta não se deixar levar pelo “canto das sereias”,
reconhecer a fonte inspiradora das falas, para onde se dirigem e a favor de que ou de
quem – a retórica. O mito das cigarras exorta que não se deve esmorecer ao meio do
dia, deixar de aproveitar a hora e o saber disponíveis, permitir o fastio e necessidades
prosaicas impedirem ou atrasarem o exame lúcido dos assuntos dignos de nota à luz
da filosofia mais inspirada e mais alta. Desprezar e não entender o sentido dos mitos,
confundi-los com fatos históricos distorcidos, arranca a sabedoria do mundo, cega.
Evidente, bem sabem os artistas, poetas e filósofos dignos: o sentido profundo da
existência só pode ser intuído na contemplação intuitiva das formas profundas,
ilustradas e adaptadas ao entendimento dos homens e das suas culturas – os mitos.
Na retórica vulgar, de vocação demagoga, se escreve e se fala pactuando em
conformidade com a força política das opiniões, não de acordo com o saber genuíno e
autêntico.

As escrituras e falas que se condenam são as que mistificam os leitores e ouvintes
elevando à esfera mítica os feitos dos demagogos e tiranos entronados; é a oratória que se usa para desacreditar a graciosidade suprema do entusiasmo amoroso, galgar
poder e recursos para jogar lama e arreia nas causas essenciais e ofuscar os que
sabem, fazer as demagogias parecerem argumentos necessários. Acusa-se a escrita
sem inspiração, que encobre as verdades que se reconhecem ao conversar com
crianças, intuindo e admirando a beleza do dia e das flores, simplesmente, sabendo
escutar o canto das cigarras – o Mythos leva Eros na retórica do sábio.

8. Deixando as margens do Rio Ilisso

Sócrates versus Lísias: duas vias, duas perspectivas, modos e intensidade de viver
contrastantes: o Fedro define uma encruzilhada, discute duas orientações, cujos
assentamentos na comunidade demonstram as políticas que acontecem e levam a
uma forma existencial reta, verdadeira, de acordo com o fluxo vital, ou a uma outra
que é falsa ou contrária.

O diálogo socrático, filosófico, é um ato e uma via, um movimento efetivo que amplia
e purifica a lucidez dos dialogantes atentos até à realização do estado-de-ser como
verdade, amor e união. Assim sendo, nas circunstâncias políticas que levariam o
orador mestre à condenação e morte, sentenciado por desviar os jovens das
obediências e cultos da cidade, o diálogo se carateriza com um ato político por
afirmar ser o poder de exercer a virtude e bom governo assentado no coração do
sábio e não do tirano: ser rico é ser sábio. O significado unitário do discurso se
carateriza e se afirma como um ato político em defesa do governo dos sábios; um
diálogo prudente, mas, nessas circunstâncias democráticas, transgressor.

A virtude fundamental atribuída ao mistério de existir, manifesta uma intuição
metafísica, um eixo de perspectiva e coordenadas decorrentes, configurando um
posicionamento existencial – e civilizatório – fundamental, logo, uma política,
instituidora de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem
aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria
natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e
concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida
digna. À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural,
previsto na bondade e no valor que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da
virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e
potenciais do estado-de-ser.

9. Considerações teológicas e políticas

O fenômeno existencial não se contextualiza como ‘Ser’ soberbo, dominador, existe
como estado-de-ser, igualmente, ser-e-estado e ser-em-estado, identidade unitária
e paradoxal que busca realizar e afirmar sem desvios sua forma original; e, por
imanar da essência, quando possível, supera o debate determinístico em iniciações
vanguardistas, intuições estéticas e éticas. A configuração existencial condiciona um
dever sem impor, uma conduta sem obrigar: um ordenamento consagrado na
apreciação benevolente e sábia do dado-a-ser, consequente e virtuosa expressão
ética e civítica.

É ilusório e vão, levado por idealidades ou enquadramentos culturais, procurar a
essência em arquiteturas subjetivistas que negam a natureza do estado-de-ser, ou
que desviam da coexistência. Projetar o motivo, enredo e eticidade da própria
história em campo alheio e sobre-humano, imaginar resoluções contidas em teorias
que não sintonizam com o estado-vital que se experiencia, caracteriza um desvio
excêntrico. Neste deslocamento metafísico-existencial enraíza a quase totalidade da
patologia. Uma resolução, que não seja apenas uma relaxação compensadora,
implica numa intuição filosófica, inspiração decantada em generalizações sóbrias e
precisas, abstrações e conexões estéticas que reconciliam a harmonia ser-e-estado
desvelando uma unicidade poética e paradoxal.

Frente a uma intuição desfocada relativa à identidade e origem do estado-de-ser,
pretender compensar um possível sentimento ambíguo, talvez amedrontado, por
um escapismo consolador inscrito em afirmações opinativas, políticas e educações
dominadoras, avilta mais ainda a razão e a liberdade. A história e historicidade dos
indivíduos demonstram a patologia e amplidão dos sofrimentos decorrentes desses
desvairos. Não reconhecer a sua afiliação ao Belo, não aceitar o que se é, como se
manifesta, força vital cocriadora, vontade codeterminante do destino, infirma e
desresponsabiliza do ponto de vista estético e ético, transformando potenciais
proativos de veracidade e adequação em desinteligência, minusvalia e padecimentos.

Uma nobre realização ética e civítica exige o reconhecimento da integração cosmoexistencial:
isto é, a) um fundamento visionário, mítico, senão suficiente, frente à
necessidade das outras virtudes: b) afirmação proativa e dessa unicidade, amor fiel,
e, c) retidão teórica, retórica justa. Uma integração que preza e valoriza a adequação
do estado-de-ser se elabora e amadurece no cultivo da harmonia. Nesse fenômeno, os potenciais de realização, como processos progressivos e evolutivos, gravitam em
torno das relações que se estabelecem e discriminam entre si e o que é outro.
Relações sintônicas facilitam esse processo e entendimento conjuntivos, relações
opositivas o dificultam, evocando desvios educacionais e políticos.

Pertence aos potenciais do estado-de-ser adquirir uma ciência progressiva e bem
situada de si, Ethos: o que implica o judicioso cultivo da razão, circunstância que
leva a reconhecer o dado-a-ser como evento onde colapsam identidade e a origem
no fenômeno autopoiético em si – Logos e Mythos. Generalizando maximamente: a
impossibilidade de estabelecer uma distinção ontológica clara entre o que é ‘simesmo/interior-em-si’,
e o que é ‘outro/coisa-em-si’, implica uma situação
cognitiva-existencial paradoxal, um fenômeno e aporia que tendem a se agigantar e
universalizar em inspirações sensíveis e vanguardistas, intuições estéticas,
configurando-se uma relação/realização mítica.

Uma intuição mítica-metafísica, de alguma forma, consagra e regimenta essa tensão
existencial em duas possíveis orientações: a) uma conjunção integradora e essencial,
mística, cujo significado e valorização operam ao alcance do estado-de-ser, no
interior-em-si, ou: b) uma ruptura que degrada essa relação confluente, projeta a
essência num ignoto hipotético, deixando o estado-de-ser em posição de exclusão e
menoridade em referência ao significado, dignidade, ou mérito da sua natureza
profunda. A intuição metafísica fundamental decorre de uma dupla evidenciação: a)
da absorção mimética e irrefletida do padrão cultural, formalizado e inscrito em
sentimentos, mitos, retórica, ritos e etiquetas, urbanidades: em teologia-política; e,
b): da revisão filosófica, tributária de uma busca, de uma educação: uma pedagogia,
e política educacional, revela ser decisória para uma edificação consciente e elevada
apreensão do estado-de-ser que se experiencia.

Vigemos como atualidade radical, desvelando uma presença criativa, fundamento
de todas as noções, abraçando o conceito de absoluto e aquele a que se refere;
imersos em estruturas psicofísicas, inefabilidade universal, intuições, perspectivas e
coordenadas metafísicas, mitologias e sistemas teóricos, evoluímos como estado-deser
numa cumplicidade cosmo-existencial gerundial. A metafísica e mitologia
unitária fomentam uma comunhão proativa e responsável em todos os níveis,
permitindo reconhecer a integração fundamental da essência à esfera existencial.
Desperto nestes mistérios, o indivíduo vanguardista reconhece e elabora narrativas que elevam a manifestação existencial a uma expressão imediata de princípios
sempiternos: intuições arquetípicas, alegorias universais, visões, concentrando o
poder de saudar e celebrar no cotidiano o que mais nobremente significa: a
culminância metafísica destilada e espiritualizada à luz da razão natural.

Intui-se a possibilidade de uma realização, reforçando as boas providências
essenciais num círculo proativo de lucidezes, conectando em ressonância todas as
facetas do estado-de-ser: coordenadas que dignificam a existência, celebrando o
eixo de perspectiva metafísica de maior anuência e respeito, mais genuíno e sóbrio.
Um projeto-de-ser que irradia como um sol, uma mandala, cujo centro enraíza lá
onde imagens e metáforas fascinam e comovem, contemplando e experienciando o
real sem deixar hipóteses, receios ou preconceitos, tradições que sub-rogam o
oratório, turvarem a beleza das evidências que se delimitam nos intercâmbios da
natureza respeitada, da cultura desafiada e do melhor convívio: uma dinâmica
integrada, burilando sensório e imaginação nos apuros mais construtivos da
percepção e semântica.

A inspiração resultante da vivência dessa unicidade paradoxal, gera um espanto e
admiração jubilosa, que, por glorificar e potencializar o estado-de-ser, reforça a
intuição metafísica diretora, fornecendo uma confirmação vital da adequação e
retidão do entendimento filosófico. Estabelece-se um âmbito de certeza que,
embora, não assentado em experimentações empíricas, tampouco em dedução
lógicas rigorosas, predicativas, afirma, com uma razão plena e qualificada, intuitiva,
uma infinita inteligibilidade universal, ou consciência cósmica.

Sendo o princípio coisa que não se formou, deve ser também, evidentemente, coisa que não
pode ser destruída. 245d-e (…) Nós conjeturamos, sem disso termos experiência alguma nem
a suficiente clareza, que um ser imortal seria a combinação de uma alma e de um corpo que se
unem para toda a eternidade.

A dedicação amorosa do guia, focando a sua atenção no indivíduo, evocando a
intuição metafísica e retórica que condizem, explicitando e exemplificando as
atitudes decorrentes, realiza um posicionamento metafísico em conjunção com um
ato pedagógico: o que exemplifica uma teologia-política que ao integrar seus
métodos aos seus objetivos e propósitos, engrandece a humanidade, consagrando
autonomia e liberdade em prol a um exercício existencial visionário, belo e razoável.
Tal abordagem, desprovida de ordenamentos normativos constrangedores, só poderá operar do singular ao universal, numa atuação personalizada que se
reconstrói e reformula, continuadamente, nas expressões sábias e multíplices dos
que participam da sempiterna reatualização cultural e afirmação do momento,
kairos.

Um esclarecimento eficiente se realiza e se atualiza em cada indivíduo, não encontra
as suas justificativas circunscritas e quantificadas em apreciações locadas em
parâmetros históricos-cronológicos, mas afirma-se na perduração e nos ecos dos
ensinos sábios, especificamente referenciados, ou não. Entender a dimensão
filosófica profunda e política de Sócrates e outros mestres de sabedoria, exige
alguns reconhecimentos consequentes e positivos: a) a realização mística é uma
consagração individual; b) que se burila e se afirma por intermédio de uma
educação singular e particularizada; c) que o ato político-pedagógico que condiz
com essa busca e realização deve aspirar uma reforma continua e atualizada do
entendimento; d) ser exercitado ao longo de um eixo metodológico variável,
pontuado entre os polos conservador e renovador dos posicionamentos e decursos
políticos; e) de acordo com as necessidades dialógicas e contextualizações
manifestas nesse momento vivaz que eternamente perdura, d) transmutando e
renovando a fluidez e inteligibilidade do estado-de-ser: aquele que é eternamente
vivaz e em fluxo não se acha em rastros, não se loca em época.

Portanto, o programa político-teológico socrático se exercita: a) através de uma
transmissão cultural criativa, diáspora continuada e transpessoal; b) incorporada
pela natureza humana que se renova em atos pro-criativos, nascimentos e mortes.
Comprova-se a elevada efetividade do programa constatando que 2400 anos após a
sua instalação, coordenados nestes termos, os desafios lançados continuam
exercitando os seus efeitos, ressurgindo como uma fênix, envolvendo milhões de
indivíduos ao redor do globo.

10. Da alegoria

O Fedro, além de diálogo é alegoria: estamos todos caminhando ao longo de um rio
com duas margens e duas direções. Uma leva a esse lugar natural e campestre onde
existe uma fonte e se escuta o canto das cigarras; outro leva a essa cidade sitiada,
tomada por plutocratas, onde os discursos são negociados. Na dependência do que se sente, vê, escuta e diz – Eros, Mythos e Logos – o estado-de-ser dirige-se para
uma, ou, outra direção – via socrática ou via lisiástica. Terá essa viagem um fim?
Boa caminhada!

 

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