Página 2 de 2

MANUAL TERAPÊUTICO-FILÓSOFICO PACE – PSICODINÂMICA e ABORDAGEM COSMO-EXISTENCIAL

Como orientação precípua, a terapia proposta pretende posicionar o indivíduo no rumo da universalidade; minar as impressões societárias impositivas e limitantes (oriundas de debates e contendas histórico-culturais fatuais e acidentais); transcender as fixações dúbias em veracidade e legitimidade.

Baixar Livro:

121123101442_Manual_PACE

MANIFESTO ESSENCIALISTA

Expressar uma intuição filosófica é verter um conhecimento imediato e mítico à inteligibilidade, o que conduz a reciprocidades cujo valor existencial depende da virtude da intuição genésica.

1.Tese

(…) uma impressão metafísica batismal infeliz não entrava a realização de opções mais sublimes e côngruas, apreciações e escolhas filosóficas livres e conscientes.

1.1 Introdução

O intento filosófico essencialista perscruta os assentamentos fundamentais do estado-de-ser e as vias existenciais decorrentes, logo, é passível de ser comprovado, em maior ou menor profundidade, por todos os humanos típicos, visionários e criativos. O (re)conhecimento filosófico profundo permite apreender a unidade consciência-existência como uma juntura que induz o surgimento e a configuração de eixos de perspectivas metafísicas que norteiam a organização psicossocial e política das civilizações e impérios. Ao focalizar o fundamento intrínseco e terminativo do estado-de-ser, revela-se a juntura consciência-existência como um sistema recíproco, categórico e permanente, cuja intuição imediata, subsequentes repercussões emotivas e significados, se configuram e se condicionam em relação com as impressões míticas cultuadas pelos probantes.

Neste fundamento primeiro, instituído na apreensão profunda e original da juntura
consciência-existência, estabelece-se um ou outro eixo de perspectiva metafísica que se generaliza e se transmite através das imersões e contágios culturais, mitos e ritos correspondentes, para moldar as estruturações psíquicas e societárias dos indivíduos, condicionar vivências, realizações, refrear ou liberar potenciais – vias psicossociais e políticas de prazeres e sofrimentos. Necessariamente, um eixo de perspectiva metafísica, intuição-e-valor existencial, prepondera e ordena o psiquismo.

A compreensão da importância vital dos eixos de perspectiva metafísica como princípios civilizacionais estruturadores demanda investigações filosóficas profundas, posicionamentos éticos e estéticos ponderados. A revisão filosófica dos sentimentos e visões, dos entendimentos e dos mitos que reportam ao estado-de-ser, poderá modificar as intuições, perspectivas, ritos e decursos existenciais; uma impressão metafísica batismal infeliz não entrava a realização de opções mais sublimes e côngruas, apreciações e escolhas filosóficas livres e conscientes.

1.2 Status quo

A filosofia essencialista focaliza o ‘interior-em-si’, ambiente onde consciência e existência comungam e revelam uma ineludível reciprocidade. Postula-se a união existencial da consciência, do corpo e do mundo numa totalidade paradoxal. Essa unidade é reconhecida
como categoria existencial original: refere-se à configuração metafísica primordial que explicita a harmonia natural e encoraja a justa inserção do estado-de-ser frente à sua destinação cósmica. Sendo a unicidade indissociável, juntura cósmica da totalidade dos significantes e dos significados, é, igualmente, símbolo imediato e conjuntura metafísica: o fenômeno existencial é a identidade do dado-a-ser, a relação consciência-existência é o tabernáculo da essência: esse reconhecimento (re)estabelece o eixo de perspectiva metafísica primordial, modo de ser evidente e virtuoso em que o Cosmos mensurável e o ser sensível ajuntam-se num estado-de-ser único, integrado e esférico.

Essa impreterível coordenada metafísica evoca intuições sensíveis e poéticas, abstrações correspondentes: o justo reconhecimento do status quo existencial motiva o exercício atento e equânime da razão qualificada, coordena o vivente em direção a uma praxe digna e sentimentos poéticos que fazem reconhecer o Belo. A coexistência indissociável e recíproca dos eventos simbolizados e simbolizantes, realiza um espaço vital e fenomênico e criativo onde a consciência, num enlace intuitivo e espantoso, tende a manifestar e colapsar o que se discrimina e intenciona– revela-se um momento criativo em que o estado-de-ser lúcido propõe-se a celebrar e cultivar a harmonia genésica que origina e vitaliza.

Aceitar a reciprocidade unitária do estado e do ser é reconhecer a adequação da natureza humana frente aos universais: é prezar a relevância ética do mistério e a excelência da razão natural, é ser virtuoso. O espanto filosófico, resulta da justa intuição dessa natureza-ser.

1.3 Do estado-de-ser

A relação consciência-existência é ineludível, configura um ato e estado-de-ser categórico, uma coordenada metafísica. O estado-de-ser, juntura metafísica, signo e evidência unidos, é símbolo num sentido pleno e vital. A coordenada consciência-existência configura um fenômeno metafísico que pode ser intuído e significado com razão qualificada, amor próprio, consciência e responsabilidade; ou, inversamente, desconhecido de modocondicionado e irresponsável. O significado mais prudente dessa junção misteriosa se institui e se explicita à luz da autoridade filosófica do estado-de-ser: no ‘interior-em-si’, ao abrigo das aparências e preconceitos culturais.

Afirmar a realidade do estado-de-ser como união indivisível e paradoxal de consciênciaexistência reporta a uma evidência imediata e caracteriza uma intuição-e-valor essencial: um eixo de perspectiva metafísica. Nesse contexto metafísico-existencial intuído como
juntura consciência-existência indivisível e recíproca, o caráter real e relacional do ‘Eu’ não é, e jamais pode ser, de estraneidade, mas de unidade – o ‘Eu’ é natural, nativo, conterrâneo ou ‘terrâneo’, indígena. Dito em termos spinozianos, o estado-de-ser é conjunção unitária e criativa de dois atributos, físicos e cogitativos, e, por extensão, juntura unitária de existência-consciência, physis-arché, homo-sapiens, logo, buscar uma purificação, ou realização filosófico-terapêutica, é uma praxe, ou experienciação, que exige um duplo processo: descoberta e afirmação, isto é escolhas.

Manifesto como humanidade, o processo existencial afirma a sua vitalidade e justifica a sua natureza e identidade quando, proativo, valoriza e recorda o que é mais fundamental: a união original, o Cosmos. O estado-de-ser, justamente compreendido, expressão vital e existencial configurada humana, coordena um caminho de lucidez, uma praxe, que é a afirmação de um enlace concordante, unitário e essencial.

1.4 Coordenadas lúcidas

Na proposição e abordagem cosmo-existencial o ‘Eu’ existe integrado ao corpo, ao mundo, sendo, in totum, Cosmos, ou ‘esfera divinal’. Essa compreensão resgata o justo valor do estado-de-ser e permite superar, de pronto, minus valias e traumas construídos e alimentados em outro eixo de perspectiva. O eixo de perspectiva metafísica cosmoexistencial (ePMCE), saber e realização essencial, desvela a reciprocidade consciênciaexistência e consagra o estado-de-ser como existe em natura, bem apreciado, com sobriedade e prudência filosófica. Sóbrio, o ePMCE esclarece e verdadeira natureza do estado-de-ser e revoga a necessidade de visionar a totalidade do momento vital como algo acidental de consequências dolorosas, um sofrimento primordial, e, a transcendência supernatural o motivo magno e central da orientação e destino existencial.

O eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial fomenta saberes que fazem jus à
experiência dos indivíduos, aspiração e motivação das escolhas e das buscas; afirma-se que uma realização cultural ponderada e inteligente, logo, virtuosa, favorece a manifestação de correspondências onde predominam plenitude e alegria. Consagra-se uma visão totalizante que fomenta as virtudes cardeais e sociais, uma realização que tempera a realidade em direção às ponderações desejadas, realizando o estado-de-ser original cujo lema civítico pode ser: respeito, convivialidade e criatividade. Em todo caso, exemplifica-se sempre, em todos os níveis, individuais, comunitários e globais, uma incontornável veracidade por correspondência sagital, onde, concernente à relação metafísica consciência-existência: a qualidade que se intuí e visiona comprova-se por necessidade.

1.5 Saber existencial

A virtude fundamental atribuída à juntura consciência-existência, mistério metafísico, manifesta um posicionamento existencial e civilizatório, ou um eixo de perspectiva metafísica, instituidor de trajetórias, experiências, sentimentos e narrativas que correspondem aos valores elegidos. Ser de si consciente demanda a realização da sua própria natureza: uma apreciação verdadeira deve explicitar essa relação recíproca e concordante do ‘ser’ e da sua ‘natureza’, desvelando potenciais de harmonia e vida digna.

À luz de uma razão simples e desembraçada, o encontro com o Belo é natural, não relata a uma dialética culturalista, tampouco depende de fundamentos sectários, mas é previsto na bondade e valores que o vivente afirma: para o sábio, o exercício da virtude não é facultativo ou ocasional, é uma necessidade congruente à natureza e aos potenciais do estado-de-ser.
Nessas harmonias inúmeras, quando a beleza das flores encanta os jardineiros, o amor se manifesta – a justa apreciação do Belo implica uma realização estética.

Uma via filosófica deve permitir o reconhecimento dos possíveis eixos de perspectivas metafísicas, mitologias, ritos correlatos e decorrentes coordenadas metafísicas secundárias (CM2) que configuram os ordenamentos psicossociais, socioculturais e sociopolíticos dos indivíduos. A busca filosófica qualificada define e afirma o eixo de perspectiva metafísica através do qual se elaboram as coordenadas secundárias que permitem o exercício da virtude, da civítica e das artes. Configura-se uma trindade de eventos: as CM2 do Ethos, Logos e Mythos onde se integram o corpo e o mundo, o saber e a inteligência, revelando-se uma sublime inspiração. Afirmar a integração metafísica unitária, criativa e paradoxal do estado-de-ser, permite uma benéfica superação do dogma da estraneidade teológica, política e cientificista.

2. Antítese

(…) A civilização e estado-de-ser padecem nos ordenamentos de um prejuízo dicotômico e central raramente desafiado: a ideia de um sujeito alienado, por necessidade, estranho ao corpo, ao mundo e a um hipotético ‘plano divinal’: a estraneidade do ‘Eu’ como pilar da edificação societária.

2.1 Acusação

O eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE) é considerado original, típico das crianças, indígenas e filósofos pré-platônicos, sendo o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (ePMTT), vulgarizado por imposição ideológica e revolução cultural, considerado excêntrico e desagregador. O ePMTT, hoje, globalizado, configura uma gestalt imperativa, sectária e hierarquista, que dinamiza e coordena as expressividades políticas e socioculturais típicas da nossa era-calendário: estruturações econômicas, políticas e pedagógicas em acordo com as configurações míticas que correspondem.

No âmbito do ePMTT, os sofrimentos naturais resultam acrescidos de sofrimentos
exorbitantes e distúrbios culturais que: desvalorizam a dignidade, o bem-estar ético, de ser o que se é; exaltam os sofrimentos e desassossegos decorrentes desse assalto à congruência recíproca e dignidade natural; fomentam atuações políticas repressoras e desnecessárias; deportam num além e futuro hipotético o que se pode viver no presente.

Nesse âmbito, os sofrimentos mais embaraçosos são de ordem culturalista: a doutrina correlata ao ePMTT onera o processo existencial de dimensões surreais e determinismos hipotéticos que exaltam o sofrimento e o sacrifício. Instâncias metafísicas que renegam os evidentes enlaces cosmo-existenciais de integração e harmonia desnaturam e desafiam a identidade cósmica e a inteligência original do estado-de-ser. Epistemes, paradigmas esistemas que degradam a dignidade essencial do estado-de-ser e exaltam o sofrimento impossibilitam o advento de uma comunidade virtuosa.

Advogar e existência de uma ‘consciência pura’, separável do estatuo existencial e sensível, evocando um conhecimento privilegiado e reservado, caracteriza um eixo antitético de perspectiva metafísica e uma negação da natureza e valor próprio. Neste eixo sectário de perspectiva metafísica, amplamente catequizado nesta era-calendário, nega-se a realidade do estado-de-ser como união consciência-existência, caracterizando e acusando uma metaafísica imperante e improvável. Apostolar ser estranho ao mundo e ao corpo, atribuído de
um tele-significado deslocado no além, não se adequa com a experiência e o imaginário das crianças venturosas, dos poetas, dos artistas, filósofos vanguardistas, ou, ainda, dos naturalistas. Mesmo condicionado e educado em circunstâncias ingratas e carentes de saber, levado a pensar-se estranho à existencialidade dada-a-ser, surreal e banido, o indivíduo, intuitivo e criativo o suficiente, sente-se traído, depauperado do essencial, sem identidade e sem rumo.

2.2 Alienação

As grandes escolhas existenciais afunilam entre: o posicionamento metafísico original, cosmo-existencial, criativo e combinante; o posicionamento metafísico excêntrico, transcendente-transcendental, sectário e hierarquista, fonte de inquietude e dúvidas. O ePMTT vulgariza o conceito mor e dualístico da modernidade, a ‘estraneidade do Eu’, decaindo o indivíduo num ‘sujeito-objeto’ coletivizado e massificado – um pagador de penitências e promessas, joguete dos sociocratas e hierarcas, paciente alienado e incurável das psicanálises.

O dualismo teocrático e o cientificismo, desvios de foco comungantes e brotando do ePMTT, instituem e conformam fenômenos societários regidos por uma trina correspondente de Coordenadas Metafísicas Secundárias (CM2): o subjetivismo, antítese egoica do Logos; o objetivismo, desnaturação insensata do Ethos; o dogmatismo, desvio idealístico e exorbitante do Mythos. Assim triangulados, civilização e estado-de-ser padecem nos ordenamentos de um prejuízo dicotômico e central raramente desafiado: a ideia de um sujeito alienado, por necessidade, estranho ao corpo, ao mundo e a um hipotético ‘plano divinal’: a estraneidade do ‘Eu’ como pilar da edificação societária. Não saber visionar metáforas integradoras e narrativas concordantes para descrever a juntura consciênciaexistência,
compreender-se estranho a tudo, ao corpo, ao mundo, imaginar-se degradado e
deslocado de algum plano divino-universal, condena à angústia e ao sofrimento.

A polarização sectária e elitista do horizonte metafísico inibe a floração do estado-de-ser e impede a evolução biopsicossocial da natureza humana das esferas mais instintivas em direção aos decursos civíticos da razão qualificada. Tais desentendimentos e desvalorizações são fadados a condicionar a elaboração de narrativas e historicidades incôngruas, resultantes processos psicossociais e políticos discordantes, sectários e defensivos.

De interpretações opositivas, condicionadas em mitos, seladas em ritos, usos, costumes, retóricas e etiquetas excedentes, em cultura sub-rogada onde poucos ousam falar por si, mas produzem discursos feitos e pensados por outros, ou para outros, resultam circunstâncias frustrantes que condizem com o que, obsessivamente, se acredita ser e se cultua: delegante e excluso da esfera criadora.

3 Do interior-em-si

Um ‘nós’, um ‘vós’, não sendo majestade, é um somatório de ‘Eu’. Dois, três, quatro, um número infinito de indivíduos não é um grande ‘homem de quetelet’ autônomo, mas uma representação matemática, um indivíduo-estatístico. Quem pode pensar ou não querer pensar, aceitar ser pensado por outros, introjetar os determinismos inscientes da cultura: é cada um, em si e por si. Uma abstração coletiva – como ‘o povo’, ‘a academia’ – não pode imaginar, provar, pensar ou dizer algo: não existem!, são figuras ou representações. A conjugação do verbo ser faz sentido filosófico, original e correspondente, no singular, no plural parece demagogia. ‘Eu’, ‘tu’, ‘você’, ‘me’, ‘ti’: tudo bem! ‘Nos’, ‘vos’, ‘o’, ‘a’ não é reto: é oblíquo e hipotético, não justifica o verbum. Tudo o que vi, ouvi, sei, sou eu quem vi, ouvi e
apreendi, em mim, de mim. Claro, aprendi muito com outros indivíduos que, certamente, como indivíduos e apenas assim, conheceram ‘isso’, ou ‘aquilo’, ouvindo e aprendendo a respeito de outras coisas, vindas de outros indivíduos, e de outros, num processo infindo.

Quem pode conhecer ou não conhecer? observar isso ou aquilo, pensar e afirmar: – “Eu vos digo, em nome de tudo quanto existe de mais sagrado, não sou apenas um indivíduo-pessoa indissociável, sou espírito transpessoal e sobrenatural!”; ou então: – “Senhores e senhoras, é postulado científico que, antes da existência dos seres vivos, existia matéria sem vida!”. Indubitável, quem pode entender, (des)entender, pensar, imaginar e dizer essas coisas, ter ouvidos e razão para conceituar, é, de uma forma ou de outra, um indivíduo-pessoa!

Cosmos, deuses, deusas, infernos, paraísos, jardins de flores ou crianças, todas as coisas, existem apenas com/e através dos indivíduos, o que existe, existe na vigência da afirmação do indivíduo-pessoa – só existe aquele que é, aquele que não é não existe e não há um Cosmos a ser cogitado sem a correspondência dos indivíduos: não será por isso que tudo é um, universo e indivíduo?

“Só existem indivíduos, se é que existe alguém”, como diz o excessivamente poético Luis Borges no conto ‘O outro’: o filósofo profundo, sincero, ‘autoral’, como deve ser um filósofo, só pode focar os questionamentos do ‘interior-em-si’, ambiente onde a consciência e existência comungam e correspondem, lugar onde tu, leitor, deverás reconhecer e decidir quem és, ou deixar outro decidir por ti. Certamente, há quem acha essa correspondência radical, mistério e paradoxo, um tremendo desconforto preferindo o mito do espírito transcendente cuja irrazoabilidade categórica pode consolar, porém degrada a luz da razão natural e a retórica com as consequências que bem se testemunham no jogo cultural, histórico e atual, das coordenadas metafísicas que decorrem.

A opção essencialista cosmo-existencial imerge as raízes do estado-de-ser no vórtice do mistério, como fez Heráclito, devotando seu pensamento à deusa natureza sem entregar uma migalha de razão ao altar da ignorância: à luz natural da razão, garante-se um espaço onto-poético suficiente para Sisífo brincar, quiçá infinitamente. Uma redenção para quem aspira ser filósofo, poeta e razoável.

Efetivamente, nessa objetivação subjetivista e dogmática globalizada, alguns poetas mais lúcidos, com arte e razão, inspirados, encontram o caminho da realidade cosmo-existencial com mais facilidade de que certos pensadores prolixos e bem ordenados, instigados a pensar alinhados às ordens da tradição, refletindo sombras do fundo da abóbada cavernosa. Esses procuram a verdade nos pergaminhos e no passado, longe do momento resolutivos e intensos que parecem desconhecer: pensam, citam e citam, e, de citação em citação,
regridem, acompanhando as frases até às escrituras latinas da escolástica, onde suspendem pensamentos e críticas, convertidos e doutrinados, ou, no caso de desvencilharem-se da ordem latina, indo mais longe, chegam à Odisseia de Ulisses – o que é, melhor, incomparavelmente. Mas, na primeira voz e consciência, recordando e recordando, de recordação em recordação, chega-se até aos primórdios verdadeiros, ao início do dia, ao momento no qual o mundo nasceu comigo. Eu e a natureza somos gêmeos, mostramos tudo
um ao outro, à luz da razão e do Sol; flores são mandalas, portais abertas ao infinito, estrelas são pensamentos elevados e poeiras são mundos: evidências poéticas e categóricas nesse grande presente unitário onde ‘Eu’ existe integrado, sempre o mesmo, e sempre diverso, universo.

Enfim, leitor, é você quem deve definir o seu valor frente a si mesmo e ao que é outro, definir a relação da sua própria consciência com a existência: o seu estatuto metafísico. Desde o início, por enfocar o ‘interior-em-si’, o ambiente singular onde a reciprocidade consciência-existência comunga e dialoga, a filosofia profunda interpela o indivíduo. Homo sapiens, querendo pensar, fazer jus ao que és não poderás fugir da tua responsabilidade! Quem és tu? Autonomia ou servidão?  dequação ou inadequação, bondade ou maldade? Escolhe o teu destino.

Baixar post

MANIFESTO-ESSENCIALISTA

 

O ESSENCIALISMO NOS PORTAIS DA CIVILIZAÇÃO

Diálogo da poesia com a razão – ensaio em filosofia pré-socrática

Ensaio publicado: Filosofia, Ciência & Vida Especial – nº 2; Editora Escala, SP; Portal
da Existência, p. 72 – aqui revisado e completado.
Régis Alain Barbier

O PORTAL

Viajar na direção pré-socrática requer um veículo sofisticado: o engenho do tempo-mítico. O deslocamento não é um movimento linear: o entendimento deverá ser reposicionado em outras coordenadas. Um encontro que exige receptividade, autonomia e confiança: distanciar-se das suas âncoras batismais requer método. Sugiro acompanhar essas instruções.

Ao portal da civilização, despeça-se dos filósofos basilares: Platão e Aristóteles.
Sócrates oficiará o rito de passagem: “friccione os pés nas cinzas de acácia; a
brisa levará o pó. Lave mãos e rosto; deixe secar a pele ao sol”. Oferte teus
haveres: livros, relógio, anéis e medalhas. “Vista essa túnica” – falava o
homem mais sábio de Atena – “agora, ô filósofo, inicia a travessia!”. Receoso
do desconhecido, tu sentirás um calafrio caótico. A história retrocederá; num
átimo, as iluminuras medievais, as imagens do oriente, como pergaminhos e
tapetes, se dobrarão em rolos; as do Egito se aproximarão e se afastarão. Um
cruzeiro grego, rosa dos ventos, orientará o horizonte simbólico.

A luminosidade dos azuis volatiliza a trama da causalidade; a criatividade
sopra a poeira e o peso da memória. Deméter, mãe terra, envolta de céu e mar,
povoada de vales e montes titânicos, resplandece: revela-se a beleza e
esplendor do ambiente. O momento portentoso desata o entendimento
metrificado em correntezas de saber, convertendo mitos em evidências.
Depois de Deméter e Poseidon, Eros e Afrodite, chega Apolo, rei da luz solar; Ártemis, lua no horizonte; Hermes, o mensageiro: o olímpico panteão. Nesse
povo, vivendo à luz dos seus mitos e saberes, em cidades irmanadas ao longo
de um litoral labiríntico, um sereno naturalismo comprova o seu império.

RAÍZES HISTÓRICAS

Dos Bálcãs, vieram os Aqueus, ramo antigo dos gregos (a cultura da espada,
do homem a cavalo): invadiram o litoral, área de civilização cretense; cultura
descrita por Aristóteles, séculos depois, como amável e benévola, “os servos
desfrutavam privilégios de cidadãos”. Os cretenses, descontraídos, de ritos
matrimoniais corteses, desfrutavam considerável liberdade (a cultura do
cálice, da mulher e do touro). Desse encontro na Idade do Bronze, surgiram os
Mecenas. Através de contatos seculares com os marinheiros mediterrâneos (os
fenícios: comerciantes e divulgadores de arte, lendas e saberes da Ásia, África
e Europa); do zelo pela sua própria herança cultural; do aporte de Creta: os
Mecenas irradiaram séculos de rica influência cultural nas praias do Adriático
e Egeu.

Outro grupo, os Dóricos, desalojados e migrantes, irrompeu, rachando a
civilização micênica entre ‘áticos’ e ‘jônicos’. Os áticos integrariam a cultura da
península, um dia destinada a se polarizar entre Esparta e Atenas. Mais
independentes, os ‘jônicos’ rumam na direção oeste: mar Egeu. Na Jônia
(agora Turquia), encontrariam uma geografia favorecendo as viagens
marítimas e contatos comerciais; a formação de ‘polis’ como Mileto e Éfeso:
circunstâncias propícias à boa convivência, à independência e consenso.

RAÍZES CULTURAIS

A gratidão de viver nessa região evidencia e ativa uma consciência natural e
descontraída permitindo se reconhecer descendente da mãe terra, Deméter, e
do manto celestial. Para o nativo dessa cultura, o Cosmos, objetivo e mítico,
configura uma família de seres fascinantes: ‘sagrado’ é um sentimento
cotidiano; encanta como a luz do mar. Héstia, deusa do lar, e Hera, protetora
das mulheres, habitam o Monte Olimpo, entidade natural e surreal, assim como a morada de cada um: o lar e o coração que ama. Um vínculo unitário
imediato, tornando-se lógico secundariamente: quando pensado e descrito em
versos e prosa, nessa ordem. Trata-se de uma harmonia causal e necessária;
não acidental. A Jônia, ou a Iônia, é o berço onde a poesia uniu-se à razão,
gerando o gênio humano: a razão dialogando em união com os versos de
Homero e Hesíodo.

A formação mítica dos gregos, e possivelmente dos cretenses e outras tribos
do mediterrâneo, tende a ser naturalista e integradora. Trata-se de um
monismo espontâneo, nascido em boa terra e circunstâncias culturais, nas
quais as distinções genésicas: 1) justificam a criação sem dicotomizar; 2)
delimitam como fonte criadora o ato da distinção em si – ato da natureza ao
alcance da cognição: cosmovisão cuja dimensão mítica é parte da decisão
cotidiana. Simbologia integrando a existência humana ao universal. O mito
monístico sela unidade na dimensão onírica e psíquica do ‘in-divíduo’: união
raiando em expressões poéticas, artísticas e técnicas. Na Jônia, essa fundação
permitiu o surgimento de uma ética horizontal e natural, em decorrência: uma
política comunitária e de conselhos. Um forte sentimento de unidade, um
monismo, presente desde a formação e expresso na imaginação surreal da
mitologia; fundamenta e sustenta um realismo imediato ou natural;
permitindo divagações e abstrações até os limites mais abertos, criativos e
extremos da realidade – mas, jamais extrapolando em visões quiméricas,
sobrenaturalismos ou dogmatismos.

No berço da filosofia, há harmonia entre as esferas da mítica e da lógica: como
duas mãos unidas, prevenindo sectarismos e radicalismos. Na direção das
ontologias, nos limites do microcosmo e macrocosmo, no interior e exterior,
em prosa e em verso: sabemos não poder conceituar o essencial de forma
lógica. Mas, espantado e indagador, o sentimento primeiro de união
existencial permite percepções criativas e renovadas, delineamentos
provisionais (e até mesmo competitivos) do fundamento ou princípio unitário
‘arché’, jacente na natureza ‘physis’: ambos unidos no mistério do Estado de
Ser.

A ANTIGA ESCOLA

Citações de Platão, Aristóteles, Heródoto, Diógenes Laércio, Hipólito e outros,
muitas vezes repetidas, diversamente entendidas, servem de acesso aos
pensadores da antiguidade.

Tales (625-558 a.C.), mercador de sal e azeite de oliva prospera, prevendo
fenômenos meteorológicos e de mercado. Sabe matemática e astronomia,
possui capacidade para prever o eclipse solar de 585 a.C.. Do alto, mede as
distâncias separando navios no horizonte, a altura de uma pirâmide:
triangulando proporções a partir de um bastão pré-mensurado e das sombras.
Tales triangula criatividade à luz da matemática e dos mitos. “O Sangue
derramado de Urano originou e gerou o grandioso; da espuma formada no
mar, nasceu Afrodite”, canta o mito. De physis, ele escolhe a substância-água
para teorizar e triangular uma demonstração do ‘arché’. Imagino Tales
falando: “quando afirmo a natureza úmida; digo que a água é para a natureza
próxima, e nossa, como aquele que é, na correta proporção, para todo o
cosmo: é fluidez e ânimo; vida!”. Para Tales, o princípio de todas as coisas é
água. “O morto resseca; de água até o fogo necessita; cheias de deuses estão
todas as coisas”. “A água é o princípio, a terra, o Cosmos inteiro flutua”.

Anaximandro (c. 610-545 a.C.), 25 anos, e Tales, com 40 anos, observam
juntos o eclipse de 586 a.C. Aluno de Tales é conhecido pelos seus gnômons
(dispositivos indicando equinócio, solstício e meridiano). Teria escrito um
livro e confeccionado um mapa-mundo. Anaximandro ensina a evolução das
coisas e das espécies: “os animais nasceram do mar, e o homem se formou, no
princípio, dentro de peixes, onde se desenvolveu e donde foi expulso logo que
se tornou suficiente para bastar-se a si próprio”. Para Anaximandro, o
princípio aquoso, de Tales, ‘sinaliza’ a fonte. As essências das substâncias água,
ar, terra e fogo ainda não são, para ele, simples o suficiente para justificar
arché, o conceito unitário. Imagina essa quaternidade se sublimando numa
quintessência criativa, um silencioso vazio, o ‘arché propriamente dito’, ou “to
ápeiron”: o infinito. Cogitar o infinito sem rodear é desposar o núcleo caótico, no clímax da poesia mítica e da razão: é ‘ser natureza-cósmica’, gerando a
partir dessa fonte, sem sofismar, ética, moral e saber humanista. “Ápeiron não
é nenhum dos elementos, mas uma natureza infinita, da qual nascem todos os
céus e os mundos; mas é, naquilo mesmo de onde provém geração para os
seres, que ocorre a destruição segundo o que deve ser; pois eles se fazem
mútua justiça (…)”. ‘Justiça’ para ele é o reencontro com o que inteira e
completa: o ciclo da vida, por si, justifica-se, por nós se qualifica.
Anaximandro faz recordar o conceito dos naturalistas chineses, o Caminho,
princípio criador, sintetizador e harmonizador.

Podemos imaginar os três em Mileto: Tales, 60 anos de idade; Anaximandro,
45 anos; e Anaxímenes, 20 anos (c. 585-525 a.C.). Este escreveu um livro que
deverá também se perder. Dedica-se ao estudo da meteorologia e astrologia;
cogita a lua como refletindo o sol. Com ele, o princípio passa a ser um
processo: um vir a ser. A fluência e ânimo de Tales se reveste de infinito
alento: pneuma-áperion. O princípio aeróide (como arché) transmuta a
fluidez infinita da natureza (physis) num dinamismo: de ar a fogo até éter e
infinito; e de ar a vento, nuvem, água, sais e terra.

Agora descrito e declamado, o Logos, ato de ser com toda a estética, lógica e
intuição, já opera em direção a uma cultura universal. O discurso dos pré-
socráticos não analisa a silogística de ser ou não ser. Intenso e intuitivo,
transporta a cognição, em prosa e versos, até o limite dos atos de fala,
motivando, com razão qualificada – em arte, ciência e consenso -, um ato de
ser universal: uno, ciente e virtuoso. Trata-se da aplicação existencial do mito
unitário vertendo água, ar, alento e infinito respeito na comunidade humana.

IRRUPÇÃO

Reinava na Pérsia Cirus II (580-529 a.C.) aliado à hierarquia zoroástrica: seita
órfica recém fundada preceituando a antítese ‘mal-bem’ como princípio
absoluto, transcendental e determinador; anunciando a vitória final do bem,
mas condicionada à obediência, normas e prescrições reveladas. Cirus iniciou
um grande movimento de conquista: através da Lídia derrotada (em 546 a.C.) controlava a Jônia, colocando tiranos pró-persas na liderança das cidades.
Uma tentativa de revolta, iniciada pelos milésios, resultou em invasão formal.
Embora considerado um ‘ditador condescendente’, numa perspectiva
incluindo a conquista posterior da Babilônia, a cidade de Mileto sofreu ferozes
represálias: incêndios, massacres, escravizações e deportações. A partir das
regras impostas, iniciou-se um lento expurgo almejando adequar usos e
costumes às normas da religião de estado: o começo histórico de um crônico
combate às escolas de filosofia. Nesse momento, a cultura grega sofre
modificação de consciência mítico-ideológica, justificando-se a denominação
“Escola Jônica Antiga”, ou de Mileto, versus “as novas escolas pré-socráticas”
– a Jônica Nova; Eleática e Itálica, ou Pitagórica.

Compreendemos que os antigos percebiam-se em conjunção unitária na
natureza-‘physis’ como expresso e refletido nos mitos. A mudança impositiva
abalou a congruência do mito original, desafiando a sua força prescritível. É
esse o ambiente ideológico-mítico antípoda das ‘escolas novas’ em relação à
‘escola antiga’. Poucos distinguiam; o resultante de escolhas, entendimentos e
possibilidades humanas; do princípio unitário e natureza, positivamente
apreendido, experienciado com congruidade, adequadamente expresso em
palavras e atos: isso é o Logos. ‘Logos’ como razão manando poesia e prosa em
sintonia com ‘arché’ e ‘physis’. Refletindo um estado de miséria e dominação,
a cultura popular tende a absorver os dogmas do orfismo; mas não os
escolares. Esses superam as imposições teológicas, superpondo extensões
racionais e metafísicas – perspectivas filosóficas -, jamais subordinando, como
na Idade Média, a luz natural da razão à ‘fé cega’ (credo quia absurdum; creio
porque é absurdo); mas sim, cobrindo os abusos com os ditames da crítica
criativa.

AS NOVAS ESCOLAS

Tales falecera havia uma década; Anaximandro, no período da invasão.
Anaxímenes viveria ainda vinte anos. Plausivelmente, por isso, denota-se nele,
repensado em termos naturalistas, transcrições de influências religiosas
orientais, onde o princípio central é a ‘respiração cósmica’ (na doutrina mais idealista de Atmã). Nesse espaço resumido, estudaremos: 1) Heráclito de
Éfeso (c.544-484 a.C.), integrante da Escola Jônica Nova; 2) Parmênides, da
Escola Eleática; e 3) Pitágoras, da Escola Itálica.

Heráclito (c.540-480), da linhagem do fundador de Éfeso, renuncia ao título
honorífico de rei, preferindo, nesse tempo de ocupação, se dedicar à ciência e
Filosofia. Para ele, o princípio (arché) da natureza (physis) é um fluxo
transmutativo: conciliação e equilíbrio dinâmico entre polos. Um processo
refletindo em todas as dimensões; um fluir envolvendo a natureza e o ser na
totalidade das formas, de acordo com um ritmo. Por isso, no ordenamento
próprio, a montanha é destinada a ser vale, e o vale, montanha; o céu a ser
terra, a terra, céu: um movimento imperceptível à visão comum. Com firme
tenacidade, diz: “ser-deserto é igualmente não-ser deserto; ou ser oposto: isto
é ser-mar”, esse mar azul é branco da Grécia jônica. Na formulação mais
essencial: “o ser é não-ser”. Heráclito sabe transcender as definições redutoras
demonstrando apenas um lado e momento da grande completude. Com fogo,
criativo, ele tritura e dissolve os ordenamentos racionais do momento
histórico entregando-os ao rio Cósmico, reencontrando a unidade original.
Vivendo simplesmente, junto à fonte de um rio, anuncia a realidade do fluxo,
escrevendo em tábuas de ouro depositadas aos pés da deusa natureza: “o ser é
unidade, a unidade é a identidade dos contrários, e os contrários são os que se
excluem e se complementam mutuamente”. Muitos compreendem o filósofo;
mas, inaptos a viverem longe dos afazeres da pólis, consideram a palavra
como visão apropriada para deuses.

Parmênides nasceu em Eléia, sul da Itália atual. Possível aluno de
Anaximandro de Mileto e Xenófanes, outro emigrado vindo da Pérsia. Para ele,
nessa busca do princípio unitário, três mundos se intersectam: a esfera
natural (physis); a esfera política (polis); a esfera da razão lógica e poética
onde o princípio se define (arché). Flutuando no ânimo descrito por Tales;
inspirando o ar de Anaxímenes, Parmênides, régio como torre de marfim,
austero como mosteiro, sublime como um palácio de cristal, guiado pelas
etéreas Virgens do Sol, afasta-se do mundo em busca do “áperion” de
Anaximandro. Já na redoma, meditando ‘physis’ (metafisicismos), ele se descobre, como uma estátua de mármore branco, no centro uno da esfera
absoluta: os movimentos da vida acontecendo como reflexos, além da
translucidez. Parmênides vapora o mundo sensorial num tecido uniforme e
diáfano, com o qual constrói um balão; transforma-se no ar translúcido, e,
assentado no ponto central da insuflação cósmica, declara com firmeza: “é
preciso dizer e pensar o que é o ser, pois existe, sim, um ser absoluto e
imutável”. A seguir segue declamando o seu poema: “Jamais poderá existir
força de constrangimento que faça ser aquilo que nada é!”.

Pitágoras (c. 570 – 496 a.C.), nascido em Samos, uma ilha da Jônia, emigra
para Crotona, Calábria, e funda a Escola Itálica. É o pensador que mais
diverge da tradição filosófica: conhecedor dos ritos e disciplinas dualistas,
persas e outros, organiza a escola em comunidades semelhantes a conventos.
Contudo, ele faz jus à tradição Jônica, as suas pesquisas astronômicas e
matemáticas resultam em conhecimentos práticos (como o Teorema de
Pitágoras); elabora uma doutrina na qual os princípios matemáticos se
tornam agentes criadores. Para ele, as coisas se revelam e realizam como
transcrição dos números. Os números, delimitando o indefinido, parecem agir
como hoje se entende a função do R.N.A mensageiro: transcrevendo coisas.
“Ímpar” é considerado limitado e perfeito; “par”, ilimitado e imperfeito nos
seus potenciais. Pitágoras imagina o conjunto dos números como espírito
surreal do Logos, necessariamente transcrevendo infinito em finito, é o
pensador – como mais tarde os cabalistas – atribuindo substância surreal às
suas abstrações e aprendendo a dominar a arte de calcular, reveste-se da força
de um ‘mago-mensageiro do divino’. Decorrendo: o filósofo dotado de vontade,
razão e conhecimento, é quem está apto a fazer de si o mensageiro dos deuses.

CONCLUIMENTOS METAFÍSICOS

A filosofia, na sua fase pré-pérsica: 1) cuida de arquitetar sabedoria à luz da
razão natural; na sua fase pérsica e pré-socrática: 2) de consolidar e afirmar o
saber naturalista desafiado. A questão, então problematizada, converge na
primeira distinção mítica genésica vislumbrada nos confins e limites da razão
mais abstrata, no ponto mais intenso e concentrado da meditação, quando revela-se o campo eidético, onde os conceitos não mais se sustentam,
transmutando-se em imagens. Na configuração mitológica órfica, dualista,
talvez por apego amedrontado a uma racionalidade mais prosaica, calculista, o
princípio (arché) tende a ser excluso, tornando-se incompreensível e
inalcançável, perde-se contato com o conhecimento : a distinção separa
‘criador’ e ‘criatura’, deixando o ser sem rumo imediato, angustioso e carente,
suscitando irrealismo sectário e irracional, idealismo dogmático, formações de
sinais imaginados exógenos, alienantes – no sentido hegeliano. Na mitologia
monista, panteísta, a compreensão, extensa ao extremo, rende-se ao
conhecimento eidético, fenomenológico, princípio (arché) permanece ao
alcance, em inserção, apreendido de imediato, contemplado, comungado nas
relações e trocas, orientando o ser: a distinção justifica a criação sem separar,
ou dicotomizar, suscitando atos criativos centrados e em harmonia com a
natureza, motivando um sentimento de inclusão e adequação. Ambos os
experimentos, racionais nas suas raízes, na origem, no core e intenção,
investem-se de formações míticas nas brotaduras mais extremas, refletindo
um rito de passagem nas raias da compreensão, na fronteira do ignoto, onde a
razão mais abstrata em busca de saber se dissolve. Concepções diversas,
gestando assentamentos metafísicos divergentes, opostos, talvez
complementários, iniciando o surgimento de cosmovisões produtivas, e, por
decorrência, ações, mundos, férteis ou não, na dependência do seu valor de
verdade.

Baixar post

O-ESSENCIALISMO-NOS-PORTAIS-DA-CIVILIZACAO

O PARADOXO UNITÁRIO

Intuição, Virtude e Decisão

ÍNDICE

  1. INTRODUÇÃO BREVE
  2. NAMASTÉ!
  3. DA FILOSOFIA QUE AQUI SE EXPLICITA
  4. DAS EXTRAPOLAÇÕES DA CIÊNCIA FILOSÓFICA
  5. DO DISCERNIMENTO JUSTO E SAGITAL
  6. METAFÍSICA – SABER PARADOXAL
  7. DA NATUREZA COGNITIVA DO NÃO-SABER
  8. DAS COORDENADAS METAFÍSICAS SECUNDÁRIAS
    1. COORDENADA COSMO-EXISTENCIAL
    2. COORDENADA TRANSCENDENTE-TRANSCENDENTAL
  9. O NOVO ALVORECER

Introdução breve

Ser parte do processo existencial, dotado do poder de sentir, acertar ou errar, é inquietante; demanda um cuidado no intuito de viver bem e prevenir sofrimentos, quando necessário, curar, isto é, exige filosofia e terapia.

A busca de uma visão e realização que possa honrar e justificar, senão explicitar, essa existência, exige uma praxe eficaz que não deveria prescrever-se estudando apenas os pensamentos e reflexões, como sujeito, ou apenas a objetividade, os objetos: é necessário focar a atenção no estudo mais central do processo existencial: a relação da consciência própria com o que existe.

Em toda e quaisquer circunstância, a virtude mais íntima atribuída a essa relação consciência-existência institui e delimita modos de conhecer e enquadramentos geradores de experiências e trajetórias existenciais.

De acordo com os significados e valores escolhidos, essa relação da consciência com o dado-a-ser equaciona epistemes na regência das quais se delimitam e regulam potenciais existenciais – fronteiras de oportunidades e desafios,margens de felicidade ou sofrimento.

Uma vez singularizado, lançado na existência, o que mais profundamente pode determinar e orientar o destino? É a apreciação profunda, genérica, que se institui no interior e em si, na interface da relação consciência-existência,
gravitação na qual se configuram e estabelecem os eixos conceituais relativos às grandes dicotomias: ‘sujeito-objeto’, ‘eu-outro’, ‘eu-cosmos’, ‘eu-divino’, todos, atributos elementares dessa relação continente e central.

A natureza dessa relação consciência-existência é essencial: uma apreciação positiva e unitária, geradora de um processo íntimo de concórdia e serenidade, revelará um processo criador e dialógico, fenômenos opositivos e contrastantes, mas complementários, motivadores de disposições harmoniosas. À luz de um entendimento divergente, opositivo e dualista, imaginar-se-ão reações conflituosas, implicando rupturas incontornáveis, doutrinando-se alternativas esperançosas, até mesmo imaginando-se potenciais de reunificações em planos hipotéticos.

Do ponto de vista filosófico, a primeira atitude, vislumbrando uma natureza unitária e paradoxal frente ao processo existencial, se caracteriza como um monismo participativo e integrador; a segunda, perfaz um dualismo
dogmático e sectário. Esse monismo, instaurador de uma relação consciência existência combinante e serena se inscreve num eixo de perspectiva metafísica, nos meus escritos denominado cosmo-existencial enquanto que o dualismo se inscreve no eixo de perspectiva metafisica transcendente-transcendental.

A mim mesmo indaguei: essa relação da consciência com a alteridade, a relação consciência-existência que testemunho e vivifico na primeira pessoa, exemplifica uma união fenomenal ou uma ruptura abissal? Qual a sua apreciação? Reunir ou separar? É nessa espagiria operada no mais profundo do estado-de-ser, que se fecham e abrem destinos. Onde está a pedra filosofal capaz de curar e reunir o desunido, reposicionar o eixo cosmo-existencial – pedra sobre a qual erigir uma nova vida e civilização?

NAMASTÉ!

Imersos na natureza e nas formas gerais da cultura, somos congêneres, existimos no mesmo contexto. A consciência imediata de ser o que somos, as faculdades da imaginação, o estudo dos sentimentos e pensamentos, atitudes e comportamentos, a interação da sensibilidade e inteligibilidade no propósito de compreender as relações com o que é outro, configuram, em conjunto, uma forma de cognição compartilhada.

Como chegar-se a uma resposta filosófica apenas analisando ‘coisas’ e a logicidade dos ‘conceitos’, descartando o resto? Virtuosos ou não, os sentimentos são, com toda evidência, aspetos que determinam as escolhas que se fazem ao enfrenar a existência. Somos uma conjunção de atributos físicos e cogitativos; logo, além de ser um processo de descoberta, a busca filosófica é, paralelamente, um exercício de encontros, processos dialógicos, escolhas e decisões – tudo o que perfaz a realidade existencial se apresenta para ser apreciado e considerado de diversas formas, com diversos métodos.

Uma filosofia é uma filosofia quando reporta frontalmente à experiência de existir; ela deve realizar-se em amplas perspectivas, começar das instâncias mais terminativas e profundas, fornecer um ponto de partida e
orientação sólida, credível, para que se escolham condutas justas e sensatas. Sem uma apreciação intuitiva e estética que verte a consciência no campo universal, não se acha o ponto de mutação, o alfa e ômega que reporta o estado-deser ao que não tem limites.

Toda filosofia, mesmo complexa, elucubrando hipóteses, parece querer (re)estabelecer uma ponta, ou conexão, entre um sujeito angustiado e a intuição de uma realidade harmônica, do Belo que repousaria a busca em silêncio resoluto e sereno. Mas os usos e costumes da cultura que viceja – suas políticas destrutivas e hábitos sustentados em educação impositiva, ‘bancária’ nos termos de Paulo Freire – obstruem o contato intuitivo com a essência unitária que não se descreve em termos lógicos, como se fosse objeto.

Uma filosofia condicionada em especificidades cognitivas reduzidas não desvenda valores universais; uma escola que repousa as suas razões numa corrente infinda de citações que desaguam em coisas tradicionais, mas aceitas sem exame é doxa, reporta a opiniões. Não se pode conhecer o que é essencial a partir de perspectivas não examinadas, reportadas, latentes como tabus, ou cogitadas nos modos de um observador racional, mas inapto à justa consideração da intuição, valorização genuína da relação consciência-existência que vigora em primeiro lugar.

Uma filosofia lúcida, unindo o abstrato e o sensível, compartilhando inteligência, deve confrontar o estado-deser na arena existencial, não ofuscar a realidade evocando ‘testemunhas neutras’ almejando fazer do ‘mundo’ e do ‘sujeito’, eventualmente circunscritos entre parênteses, algo com uma entidade ou coisa que se pudesse testar e delimitar através de um instrumento quantitativo e lógico montado e instalado numa bancada de laboratório ou lançada em órbita.

Tampouco é suficiente ‘pôr entre parênteses’ processos racionais e dissociativos geradores de pareceres confusos, mas vulgarizados como heranças culturais: tais dubiedades e hipóteses não se superam por afastamento provisório, falsificação progressiva, ou negação simples; negadas, continuam servindo de contraponto referencial, comprometendo a clareza do discurso e da busca que passa a acontecer como uma escavação cega onde se tenta progredir rejeitando o que não é. Esse laboratório analítico não produz evidências que sanam a angústia existencial, tampouco o niilismo, que resultam do não reconhecimento e apreciação do que simplesmente se é – natureza-ciente.

A intenção que procura conhecer com naturalidade os mistérios da existência abrange o reconhecimento e domínio dos planos fundamentais; da justa percepção dessas relações e correspondências decorrem praxes sóbrias, instituídas em inteligibilidade e sensibilidade, onde abstrações evolvem em completudes totalizantes que satisfazem o intelecto e enlaçam o pensador em realizações numinosas5 que alegram o coração; tudo convergindo em estruturas que envolvem o estado-de-ser em modos e atributos incontornáveis e de profunda harmonia.

Visionários, poetas, artistas e filósofos que se reconstruíram muitas vezes nestas buscas e reflexões, não se apegam a ideais dicotômicas que imaginam romper a relação consciência-existência que se é, evocando um sujeito instituído em ideias, fiador de um saber reservado, contrastando com um eventual sujeito destituído de ‘razões puras’, incorporado a um mundo sensível e acidental. É possível reaprender a filosofar com sobriedade, como um indígena, um antigo mestre de saber, carregando no coração e pensamento reunidos, como um farol, a essência vinda da origem e selada na união generativa e amorosa dos gametas.

A filosofia fenomenológica de raiz, integrada e justamente compreendida, traz no seu bojo as ferramentas que configuram um justo e sóbrio entendimento, começando um discurso centrado, buscando a partir do ‘interior-em-si’,
lugar e fundamento onde se encontra a essência que reside na comunhão justamente apreciada da consciência e da existência.

Nesse processo, surpreende e comove a convergência identificadora que se estabelece entre a totalidade da cognição e seus objetos, o mundo mensurável (esse ‘estado extensivo’) e o ser inteligente e sensível (esse ‘cogito
filosofante’)’: ajuntam-se num sym-bállein7, estado-de-ser integrado, celebrando a vida, espargindo e refletindo universais, como uma mandala; conjunção onde a essência é amor antes de ser razão – a união não se analisa e o Belo não se formula, se intuem.

Um mesmo fenômeno biológico, social e psicológico, arquiteta a corporeidade e a cognição, corpo-e-visão, com razão e sensibilidade. Em si mesmo se consagram a unicidade de classes e categorias paradoxais, sem por isso acuar o vivente em angústias existenciais e dilemas insolúveis.

O estado-de-ser, singular e universal, é a estrutura fundadora, o que existe primeiro, contendo em unidade e justapondo em harmonia ser-estado e estado-ser em grau diversos de acuidade, presença e reflexão: essa interatividade, como apriorismo radical, é categoria existencial prima.

Não existem objetos da ‘história natural’ fora do campo da consciência historiadora e categorizadora, igualmente natural, a não ser como hipótese. Acontece uma triangulação integrada, de dimensões universais: lugar originário a que se pertence como vivente (Ethos), evidenciando um saber e uma inteligência intuitiva e reflexiva que se demonstra por ser o que se é (Logos): lugar e saber associados e unidos como irmãos em comunhão conjuntiva (Mythos).

A dualidade se transcende no surgimento desse rebis , feito de lugar existencial e
consciência integrados. O a priori de toda ciência, fonte suprema das teorizações, telo e teologia, jorra da experiência imediata e autoral do estado-de-ser, que seja mentor lúcido ou iludido.

O que devo escrever para expressar o que parece ter sido intuído pelos filósofos basilares até Sócrates, evocado pelos poetas, artistas e crianças de todos os tempos? O que devo dizer, até mesmo construindo um discurso contextualizado ao redor das ideologias vigentes, para apontar esse contato metafísico e poético, comovente, rompendo, como se fosse filó, as arquiteturas sofisticadas desse sujeito pensativo e recalcado, imaginando-se perdido, separado do mundo e do numinoso, necessitando guias, especialistas e normas para achar sentido e orientar o seu viver? Como exaltar um sentido sereno que aprecia a existência? Como assentar no coração as diástoles e sístoles desse mistério de aniquilação e reencontro universal?

Penso, até provar em contrário, ser muito adequado afirmar: a união existencial da consciência, e do corpo, e do mundo, é inabalável: a unidade paradoxal é o fundamento primal que sustenta a experiência, a totalidade da criação dada a conhecer. O reconhecimento dessa união primal desconstrói e desperta esse sujeito esquecido, estanhando a si mesmo, num imenso evento terminativo onde se revela a identidade original, substância e essência firmemente enlaçadas.

A paradoxal união da consciência e do cosmos desafia as reflexões hipotéticas em espanto e mutismo, nulifica os ‘telos’ fantasiosos que se substituem por sentimentos de fusão com os elementos: mar, sol, céu da noite ou do dia, percepções e abstrações sensíveis correspondentes: abrem se janelas de luz, novas inteligibilidades e saberes, por onde se desdobram as frases poéticas e indígenas de uma nova vida e civilização. Uma (re)união que revela um ‘eu-sou’ imenso, galáctico como um uróboro, incluindo a totalidade da criação, o todo.

Trata-se de uma razão filosófica sensível e qualificada, onde flui, em vias paralelas, ao lado dos saberes e das reflexões, uma praxe corajosa e prudente, que considera a situação existencial e rememora a historicidade em busca de despertar a grandeza e o talento da criança em apreciar o Belo.

A honra e o bom humor do estado-de-ser já despertado, igualmente indivíduo e totalidade, é fundamental na construção de um espaço filosóficoexistencial que possa coordenar uma renovada ciência-de-si, crescendo do singular ao universal em busca do sublime.

DA FILOSOFIA QUE AQUI SE EXPLICITA

Notifica-se que a filosofia aqui explicitada não é um repertório conservador de razões matematizadas e formuladas, ou, apenas, um romantismo. Não é uma filosofia que se conforma aos acordos reduzidos de um modo intelectivo e dissociado de pensar, não é cientificismo, palavra repicada em uso, costumes, etiquetas e prevalências.

Trata-se de uma filosofia profunda, ou ‘sistêmica’ num sentido que transcende o racionalismo metodológico: não se exclui nenhuma das funções psíquicas, integrando a totalidade da cognição nos processos investigativos.

É filosofia existencial, ética e estética, sendo a referência fundamental o conhecimento do leitor, juízo final de valor; um intento passível de ser decodificado e compreendido por todos os humanos com sensibilidade e veio poético; filosofia construída para encontrar a melhor forma de significar e experienciar a vida, em si e em coletividade, descrevendo um posicionamento autonômico e renovado em busca de mais sabedoria – eutimia e eudemonismo.

Compreende-se que não se trata de uma busca dirigida a objetos culturais, como ciência, arte, economia, política, história da filosofia ou obras de autores definidos: não é filosofia que instrumentaliza objetificações, não é positivismo, investiga-se o existente como existente.

Expressa-se o fundamento e orientação dessa razãoqualificada, criando o conceito ‘eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial’ (ePMCE) para flanquear essa filosofia ao nível das esferas teleológicas que compelem o
enquadramento civilizatório vigente, permitindo a superação da metafísica dualista e a sua trindade de ordenamentos: teológicos, cientificistas-positivistas e políticos-midiáticos: palanques e púlpitos a partir de onde
se molda, como um boneco de barro, e vulgariza o conceito mor da modernidade, esse ‘sujeito/objeto’, essa criatura coletivizada e massificada: ‘homens-de-quételet’.

Utilizo a expressão ePMCE para expressar a natureza dessa razão qualificada e aberta, evitando o uso central de termos como ‘ontológico’ e ‘ôntico’, envolvidos nas nuanças conceituais consagradas no kantismo e heideggerianismo – termos enclausurados em véus reflexivos, afastados das definições pré-socráticas e aristotélicas primordiais onde um empirismo ponderado (uma forma gnosiológica indígena), conectava o ‘ser’ às suas dimensões cósmicas permitindo um outro exercício de filosofia.

Nega-se essa subjetividade kantiana rigorosa, ponto de repique da filosofia racionalista-idealística, onde a busca dos princípios gerais acontece focada no paradigma apriorístico, ainda não suficientemente desafiado, de um
‘sujeito-objeto’ ensimesmado, possuidor de um ‘ser’ descrito, na melhor hipótese, como um ‘nós no mundo’, investigando um destino mediano envolto em negrume, esperançoso ou tenebroso, com uma mirada na história e
outra nas ideologias, laicas e teológicas.

Nega-se, como pressuposto construído em evidências simples e intuições estéticas e vitais, a possibilidade de delimitar um sujeito separado da sua natureza, de decantar um subjectum do sujeito, contrariando a premissas fundamentais do pensar filosófico instituído – entre outras, as tentativas husserlianas e heideggerianas.

Ao predomínio escolarizado desses conceitos dicotômicos e adernados em teologismos ultimamente enraizados no masdeismo, maniqueísmo e tomismo, respondo com os argumentos mais sóbrios e sensíveis do essencialismo13 e da metafísica cosmo-existencial.

Dito em termos filosóficos: advoga-se a incompletude e o sectarismo fundador de uma filosofia da ipseidade, construindo uma abordagem universal ao redor do conceito de asseidade 14 como significado equivalente ao conceito contemporâneo de autopoiese, evocando uma interface onde intuição, virtude e sentimento, em união com a razão, estacam inegáveis ordenamentos existenciais.

O espanto comovente de sentir a natureza e o cosmos como portadores fundamentais da nossa mesma identidade é suficiente para justificar e apreciar a existência dada a ser: aqui, Sísifo é criança, encantado e feliz, descobrindo
mundos em cada grão de poeira, ele rola a pedra em espirais infinitas, surpreendentes e sublimes.

Uma impressão metafísica infeliz, que desqualifica o estado-de-ser e resulta em vivências que desencontrem e empobreçam, não deve entravar a realização de uma apreciação filosófica consciente em busca de opções mais côngruas; uma transformação facilitada pela compreensão da considerável importância da ‘impressão metafísica batismal’: apresentação inicial e ritualizada de um ou outro juízo de valor relativo à relação consciência-existência. Intuído e reconhecido outro potencial e opção de valorização, é possível estabelecer um diálogo e superar com responsabilidade as introjeções condicionadas e reproduzidas em usos, costumes e educações que reforçam a estraneidade do sujeito, do ‘Eu’.

Não parece difícil reconhecer que uma pedagogia talentosa deve revelar a realidade imediata da unicidade, com profundo respeito e virtude, fraternidade e liberdade, em todos os graus, poderes e responsabilidades. Um parâmetro útil e fiel para definir o que vem a ser uma boa vida, deve, por certo, explicitar com valor de verdade, uma justa, nobre e concordante relação do ‘ser’ com a (sua)  ‘natureza’, o que implica o cuidado de não ofuscar as buscas com preconceitos desavisados ou paradigmas latentes e apriorísticos, apanhados em educandários onde, reduzida, a
razão mal sobrevive.

A filosofia aqui proposta, compartida entre inúmeros poetas e filósofos, todas as crianças, parte de um patamar atuante de autonomia e recordação onde a experiência de plenitude se inscreve como potencial natural e área de
conhecimento imediato17; odisseia primordial, mãe de todo filosofar: um conhecimento sempre ressurgindo, transcende as distorções típicas e sofísticas das edificações psicossociais que cambaleiam. A vida vale como ela é: um momento estranhamente criativo cuja possível glória se acha compartilhando e cultivando, com bom-humor e respeito, a unidade que origina e vitaliza.

Nesse processo cognitivo dedicado à investigação dos arcanos impreteríveis do pensar filosófico, num tempo relativo à dedicação e ao vigor das buscas, o estudo e a contemplação afunilam em saberes incontornáveis, referenciais terminativos de todas as ‘ontologias e -logias’: saberes efetivos, focados na origem e identidade da relação consciência-existência, saberes metafísicos suportando escolhas e decisões responsáveis.

DAS EXTRAPOLAÇÕES DA CIÊNCIA FILOSÓFICA

Antes de anuir com conjeturas ilhadas em equivocidades18, mais sensato é tentar compreender a sua natureza própria, imediata, partindo de evidências mais integrativas: o existente, originado e identificado aos seus
contextos, acontece e preexiste aos seus cogitos idealísticos! Os desvios metodológicos do idealismo e cientificismo, incluindo as afiliações batismais iniciais e institucionalizações subsequentes, condicionam uma postura artificiosa, ativa e prevalecente, mas oculta, em que filosofar acontece embutido numa representação alegórica; um lugar imaginário a partir de onde, seduzido, cooptado, o sujeito atua como se fosse ouvinte ou porta-voz representante de um verbum primordial.

Envolvido na alegoria, flutuando nas alturas incólumes da razão pura e reservada do ‘grande sujeito’, abaixo da arca verdadeira e enciclopédica, castelo de toda a ciência e filosofia, o adepto examina os pensamentos outros (alteridades), catalogados e indexados em escrituras e quadros negros, recuperados à luz dos preconceitos dominantes e mais citados; historiador, arqueólogo da consciência, supervisor mor e dileto das intenções alheias,
entendidas ‘anedóticas’, ou, consideradas relevantes apenas quando biseladas de acordo com as ‘metodologias’ da tradição – condição necessária de visibilidade.

Uma reserva metodológica prepotente e absurda extrapolada à categoria de instrumental cognitivo basilar da busca filosófica: por desconsiderar os fundamentos frontais e paradoxais do acontecimento existencial, e, por
escamotear as necessárias e primordiais impressões estéticas e éticas na construção da intuição filosófica cuja sensatez e vitalidade depende da virtude das apreciações e posicionamentos incorporados, escolhidos ou não. O cientificismo, essa postura operante e modernosa, alegoria laica correspondente ao dualismo teológico, não permite apreciar o estado-de-ser na sua justa esfera e tônus existencial.

O pressuposto tutelar amplamente difundido: “do ponto de vista da academia, não há filosofia melhor ou pior”19, acusa esse ‘cientificismo filosófico’, denotando e conotando: 1) que as elucubrações metodológicas
pertencentes à ‘visão-compromisso’ dessa academia não permitem, ou autorizam, alcançar um saber e conhecimento ciente e virtuoso; 2) que essa neutralidade cientificista e filosofante acusa um ponto de vista condicionado que não
consegue distinguir o melhor do pior; 3) que o ponto de vista dessa academia não é um belvedere suficiente para diferenciar o melhor do pior. Um posicionamento neutral, como uma bandeira içada a meio-mastro, evidenciando um intelecto ainda laçado nas adriças teológicas, assombrado, onde o melhor e o pior não se normatizam em concerto com a luz natural da razão, mas se ofuscam de acordo com a exigência dos dogmas; dogmas desacreditados como valores de verdade, embora, ainda não ‘de fato’, latentes como tradições batismais geradoras de estratificações
institucionais fundadoras de rotinas proveitosas.

Afirmar não haver filosofia melhor ou pior, significa negar o valor da filosofia e afirmar-se suposto detentor de uma valia superior, de uma mirada in excelsis instituída em dogmas. Essa academia instituída no status quo civilizatório, com frequência instalada em pátios de igrejas desertados dos poetas e livres-pensadores, cultiva um cogito preposicionado, ancorado à enredos políticos que compartilham a mesma tradição e fundamento metafísico. Com efeito, não se pode examinar o processo existencial na alegoria de descritor autorizado, testemunha tutelada, porta-voz midiatizado, comprometido com uma proferição de neutralidade, lavando as mãos, a não ser parodiando a existência como se fosse um teatro ou um jogo cultural metrificado em regulamentos. Ao afirmar essa ‘neutralidade’, os adeptos do cientificismo e positivismo assumem um ponto de vista soberano, idealístico e
ajuizador, regendo distinções a partir de critérios hipotéticos e contraintuitivos; fogem do ponto existencial e fenomênico que, com efeito, esclarece e neutraliza os desvios e abusos: não existem argumentos que suportam a estraneidade paradigmática do ‘eu’, medidas aptas a diferenciar figuras como ‘sujeito’ e ‘objeto’.

Retóricas e hábitos cognitivos reduzidos, descuidados, induzem a confundir hipóteses idealísticas, alegorias e metáforas, preferências e obediências fundadas em religiosidade supositivas, com posicionamentos metafísicos
confrontados sem intermediações, depauperando a filosofia em equacionamentos lógico-gramaticais e apoéticos, fazendo a vida parecer um palanque de discórdias e equivocidades. A dissociação cognitiva do vivente do plano fenomênico impossibilita o reconhecimento frontal do paradoxo unitário que acontece antes das diversidades, mas, igualmente, desautoriza o existente, fomentando extrapolações sectárias indutoras de ideologias coletivistas, personalidades autoritárias e movimentos socioculturais conflituosos e destrutivos.

Não se pode instalar a paz no mundo supondo-se portador de critérios de verdades pautados em dogmas revelados ou tradicionais, a partir de uma alegoriagnosiológica condicionada e decorrente dos ritos e sectarismos fundadores. Lançar a razão em órbitas, condiciona-la em metrificações relativas a preconceitos, ou jogando dados, não traz veracidade, tampouco sabedoria. Confundir superestratificações20 construídas em manobras artificiosas, instâncias de força e poder, com patamares de referência necessários e sensatos, poderá fornecer pontos de vista engenhosos, fortalecendo posicionamentos históricos proveitosos, políticos e culturais, contudo, relativos e correlatos ao artificialismo e dubiedade das suposições fundadoras, não fornecendo veracidades que justifiquem o processo existencial como acontece in natura.

Ninguém jamais poderá testemunhar o Cosmos a não ser como integrante típico e probante imediato, entranhado nos princípios e leis da natureza, pertencente ao espaçotempo correspondente à experiência. Ser para ser exige pertencer (um ter e ser em união), estabelecendo-se a existência de coordenadas paradoxais irrefutáveis e universais, apesar de encobertas e sub-rogadas nessas alegorias, estilos pedagógicos e anuências sociopolíticas: existir é acontecer no momento universal, agregando em união o campo do ser e do ter: não querendo perder-se em
desencontros, melhor é não confundir o real com representações prediletas e proveitosa, alegorias e máscaras tuteadas. Cultivar elitismos e circunscrever eleitores e alunos em classes, em nome de abstrações como ‘povo’ e
‘cidadãos’, ‘fíeis’ e ‘mercado’, instituindo perspectivas políticas e econômicas carentes de discernimento e virtude, estabelece graves rupturas, suficientemente comprovadas.

DO DISCERNIMENTO JUSTO E SAGITAL

É preciso retornar ao início, desembaraçar a mesa, reaprender a conhecer a partir da instância mais original do saber, instituída no fenômeno da diferenciação, onde um ato estruturador de distinções opera em campo unitário.

Trata-se, igualmente, do começo da ciência-de-si e do princípio realizador, chave de todas as criações cientificáveis: nada existe sem distinção, quer seja na esfera do objeto ou do sujeito, ou na diferenciação entre um e outro. Uma teorética remoção radical das distinções retira a possibilidade de qualquer ontologia. Não se cogita um vácuo absoluto, infinito sem distinção alguma: a imaginação do imaginador distingue-se do vácuo ou infinito imaginado: o vácuo absoluto não se distingue, a não ser como hipótese (a ‘não ser’): tal evento inexiste para o existente. Uma hipotética gênese primal, fundadora, irrupção metafísica primordial em busca de existencialidade, implica um processo de diferenciação: nada pode ser conformado à realidade e ao campo existencial, isto é existir, sem a operação de distinções fundamentais, sejam, confrontadas com sobriedade, contempladas, ou então, demarcadas em mitos e dogmas.

No âmbito dessa filosofia fundamentada no eixo deperspectiva metafísica cosmo-existencial (ePMCE), a distinção-em-si, a interface ontológica e dialógica do estadode-ser, é eleita como foco realizador, âmbito vivo e essência discernente, e, as setorizações (os atributos extensa e cogitans na mais ampla abrangência) como instâncias dialógicas. A partir desse eixo de perspectiva, compreende-se a capacidade de distinguir, como necessidade existencial criativa e primária: o fenômeno propriamente dito – um feixe de lucidez inscrevendo demarcações fronteiriças a partir de onde dicotomias relativas se revelam e se coordenam, manifestando oportunidades de interações instituídas ao redor das inscrições primárias como linhas traçadas em pautas brancas.

Os atributos definidos por Espinosa a partir das res de Descartes configuram-se delimitados em referência a um processo coexistente, conato e centrado, rebis atuante em campo unitário. Trata-se de um posicionamento sensato, instituído à luz da razão livre e natural, a partir de uma referência existencial testável no ato e foco da consciência que se experiencia e exemplifica: o ato discernente-em-si
frente ao dado-a-ser, no coração do foco discernente/discernível, isto é, o ePMCE é aqui considerado natural e original, posicionamento mestre, autônomo, sóbrio e prudente, de todos os viventes – como um bastão de ouro plantado em vale fértil. Nesse caso a distinção-em-si é escolhida e eleita como foco inicial do acontecer existencial, âmbito vivo de discernimento, e, as polarizações como eixos e instâncias dialógicas apenas reais na presença da consciência que diferencia e integra.

O projeto metafísico primário e generativo, relação operante da consciência de si com a consciência do que é outro, reporta aos fundamentos intrínsecos e inevitáveis da existência, onde o Mythos pertence a Psyché tanto quanto o Logos – integrando-se em união a relação consciênciaexistência, Ethos. Tal evidência imediata, intuitiva e primal, é expressa nas tradições e artes de muitos povos: os símbolos referentes a esse fenômeno metafísico expressamse em diversos mitos que ilustram essas separações e distinções como princípios fundadores exigindo posicionamento.

No Gênesis, os enquadramentos originais se expressam demarcando o espírito das águas – “o espírito divino se movia sobre a face das águas… Fez-se a separação entre a luz e as trevas… Deu-se forma ao vazio, criou-se amanhã e a tarde, o primeiro dia”. Na evocação mítica, o que vem primeiro estrutura distinções fundamentais: forma e vazio; manhã e tarde; espírito e água; luz e treva. Estar imerso em processos diferenciadores primários, inteligíveis e sensíveis, é vir à luz, experiência vivida por todos ao nascer: desperta-se luz e consciência do negrume da inconsciência, diferenciam-se as sensações proprioceptivas das sensações do clima, descobrem-se dias e noites, manhãs e tardes. De antinomias enlaçadas em negrume e lucidez, nasce o primeiro dia como uma estrela na noite.

Em outras mitologias, mais integrativas e dialógicas, o poder do mito, simbolizado como um bastão de ouro, busca um terreno receptivo e de concórdia: na Mitologia Andina estabelece-se um diálogo criador e gerador de harmonia entre ‘terra e sol’, ‘céu e lagos’, ‘montanha e vale’, ‘norte e sul’, ‘homem e mulher’ (o casal de irmãos Mama Occlo e Manco Capac): “no lugar onde o bastão de ouro penetrou a terra, em Cuzco, reconheceu-se o centro da civilização sagrada do sol… O irmão indo ao Norte e a irmã ao sul, reuniram todos no centro, na cidade, para bem viver em comunhão, homens cultivando e irrigando, mulheres semeando e colhendo”. Aprende-se a decodificar informações e denominar distinguindo sensorialmente os objetos, privilegiando contrastes opositivos ou harmonias complementárias.

Neste processo existencial: como reagir? O que sentir? Como intuir a natureza e o significado existencial dessas dicotomias criativas, igualmente, construtoras de saber e reveladoras de não-saber?

O processo suporta, ou afunila, dois entendimentos diferenciáveis como imediato-intuitivo, e reflexivointerpretativo. Uma demanda de inteligibilidade, do ponto de vista da cultura instituída e eventual, fomentou a possibilidade de entender o fenômeno existencial de duas formas, determinando o surgimento de dois eixos de perspectivas metafísicas, no momento divergentes, ofuscados, mas, efetivamente, imbricados como dois madeiros de um cruzeiro inscrito num círculo.

Existindo o estado-de-ser entranhado em contextualizações criativas, naturais e culturais, [Ethos]: as linguagens e relações simbólicas, as configurações explicitadoras, intuitivas ou interpretativas, que se revelam nos ordenamentos locutórios e perlocutórios [Logos], assim como as artes, poética, ritos, cultos, arquiteturas e cantos [Mythos] operam em sincronia: em conjunto denotam a
civilidade, a política e a gama de valores estabelecidos e vigentes. Essas relações, suas propriedades e características, correspondem, em tudo, aos significados dos termos descritores e conceitos definidores: precipuamente, as pedagogias e estruturas de saber e poder se vivenciam ao redor da apreciação fundadora e central da relação consciência-existência, ou, do modus metafísico que se reconhece: essa trindade essencial (Ethos, Logos, e Mythos) modula e instrumenta a apreensão metafísica que sustenta entendimentos, atos de fala, atitudes e realizações estruturantes do ponto de vista civilizatório.

METAFÍSICA – SABER PARADOXAL

Concentrar-se sem desvio no estudo dessa junção metafísica revela um estado-de-ser pleno, um rebis, como uma Fita de Möbius: uma estrutura paradoxal em que a
consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram um símbolo que ajunta as dicotomias em um enlace cujo sentido terminativo é união.

Uma convergência, que por unir, relativiza as diferenciações e, na busca mais intensa, nulifica ou reabsorve o ato primeiro de consciência tributário da
faculdade de discriminar: a união dissolve as distinções; repousam-se as luzes da razão no tálamo da natureza própria, uma junção radical onde inteira-se uma
grandiosidade unitária e paradoxal que bem se reconhece, mas que ultrapassa os potenciais da compreensão: nada sei. Um ‘não-saber’ experiencial que volta a ser compreensível na disjunção ígnea que se extroverte afirmando o continuado paradoxo original ao redespertar a luz da razão que agora discrimina. Assim constitui-se a primeira grande certeza filosófica, com honor e justiça, dita ‘socrática’, enunciada desta forma: sei, que nada sei – dita em termos
teológicos: epifania, intenção radical da consciência no arco misterioso do incriado e do criado.

A revelação unitária agrega os anseios de saber da filosofia com os arroubos infindos da espiritualidade, pondo os termos conhecer e compreender a dialogar: deste modo, configura-se o núcleo fundador de uma filosofia instituída no eixo de perspectiva cosmo-existencial.

Evidencia-se que o termo ‘metafísica’ refere a uma impreterível relação do Cosmos e da esfera existencial, com uma apreensão centrada e resolutiva na relação da
consciência com o que é ‘outro’, ordenando uma resposta, exigindo uma atitude. Num tempo só, um saber e não-saber testemunhando a impossibilidade de esclarecer a natureza, origem e limites da (auto)consciência como instância fundamental do próprio saber e existência; a impossibilidade de descobrir e delimitar as fronteiras da (auto)consciência com a substancialidade, fundindo-se a dialética das intenções buscadoras e das praxes numa estrutura unitária e paradoxal. Um saber não-saber onde a realidade, percepção, sensibilidade e representação colapsam como nebulosas em coordenadas cosmológicas, com resultante universalização da apreensão cognitiva do estado-de-ser, humano e cósmico.

O estado-de-ser envolto em mistérios fascinantes perfaz todas as revelações e ciclos descritos pelos antigos, para retornar ao seu estatuo manifesto de homo sapiens sapiens gerador de poética e visões, odisseias, que congregam Ethos, Logos e Mythos num triângulo claro e sublime, ético, intelectivo e estético, fundindo os potenciais do Cosmos planetário aos do olimpo reunidos como céu e terra – acontecimento e momento atual onde sempre se escuta tocar as trombetas e as conchas da vitória.

Um fundamento presencial, comparecimento nuclear, compartilhado por todos os existentes, idêntico e original, é a referência absoluta ao redor da qual acontecem todas as classes e categorias. Trata-se de uma referência que encontra expressividade exemplar na noção grega de momento (Kairos); uma apreciação tangível como uma mandala, instituída nas coordenadas da abstração e da estética sensíveis ao Belo; uma dimensão filosófica prima que coordena e flexiona todos os eventos e possibilidades, inclusive o conceito mais radical e sincrônico: ‘numinoso’,
ou divino. Ninguém poderá apreciar o sublime que enraíza na união terminativa das res cogitans e extensa, imaginando-se ao lado, ou acima, reduzindo e deturpando a experiência sensível de Kairos numa ‘eternidade sobrenatural’, intangível e reservada. Apenas o momento criativo e absoluto, a partir de onde emanam sentidos, conceitos e especificidades variegadas e complementárias,
permite o (re)conhecimento da harmonia e unicidade da consciência, da corporeidade e do mundo: a infinita primazia da justa noção de Cosmos que rompe as grandes dicotomias e enlace as teleologias.

Tudo o que se pode conhecer refere, em todas as conjugações, à existência e a nós-mesmo como existentes, presentes e pertencentes. Trata-se da apreciação da
plenitude do estado-de-ser, contexto e selo intuitivo de sabedoria, que, nas asas da apreciação estética e meditação profunda, eleva o existente a uma expressão infinda, paradoxal e jubilosa, nos arcanos do dado-a-ser. Neste contexto, opinar sobre a existência, o mundo, a vida, em todos sentidos e destinos, pesos e graus, é opinar sobre si mesmo, em instância primeira e final: achar-se estranho, banido e indigno, necessitando de guias, só poderá levar a um retumbante fracasso existencial.

DA NATUREZA COGNITIVA DO NÃO-SABER

Em que se diferenciam: a predicação metafísica padrão, ou ortodoxia batismal transcendentetranscendental, equacionada entre as convicções do sujeito e os arcanos da suposição; do não-saber sábio, empíricoexistencial,
autêntico?

O não-saber sábio refere a um exame genuíno do fenômeno existencial, instituído no reconhecimento incontornável dos limites da razão (incerteza racional,
ceticismo), acrescido do conhecimento terminativo, efetivo e empírico, maximamente depurado, referente aos longos alcances do saber intuitivo, onde se comprova a ambiguidade da dicotomia e a unidade paradoxal: busca resultando numa alquimia espagírica, um rebis misterioso, que revela a união do conhecedor e do conhecido, do visionário e da visão.

Trata-se de um encontro existencial em que os atributos, ou substâncias interdependentes, res cogitans e extensa, antinômicas e contrárias, reúnem-se num evento paradoxal, negativamente contido nos potenciais do saber:
tabernáculo pleno e vazio de ser-e-não-ser, ponto de junçãodisjunção, essência e mistério. Assim sendo o não-saber cosmo-existencial institui-se por intuição e confrontações autorais, através de uma busca filosófica dedicada, corajosa,
exemplificando o exercício magno das virtudes cardeais, resultando numa anuência lúcida e humilde frente ao dadoa-ser, no reconhecimento e aceitação do paradoxo e mistério existencial. É mais virtuoso cultivar um bom-senso
justamente contextualizado de que cultuar insensatez, embora esperançosa. Sintetizando: conheço a unidade paradoxal da relação consciência-existência, logo, sei que nada sei, caracterizando um não saber ciente, ou sensato.

O dogma da ‘coisa-em-si’, fiador contemporâneo da ignorância mediévica, institui-se em três eventos: uma credulidade vulgar, fundamentada por mimese, aceita por
imposição simples e ritualizada (acredito porque me foi dito e ensinado nos ritos da tradição); uma problematização de ordem racional, confrontado apenas pelos que pensam e meditam: as dúvidas da razão (incertezas relativas à
natureza dos universais – alicerces da fé), acrescido de uma omissão das veracidades efetivas, autênticas ou experienciais: a desconsideração dos alcances filosóficos profundos da contemplação e saber intuitivo (não querer
saber). Portanto, a ignorância e credulidade dogmáticateológica estruturam-se por mimese, limitação e omissão, configurando um enredo falacioso de preconceitos e tabus; perplexidades que se divulgam e massificam por
convencimento e imposição, sustentando infindas esperanças e predileções de natureza pragmáticas – causa efetiva e final: acredito na minha rica e proveitosa tradição batismal e não quero experimentar ou duvidar.

Logo, a diferença entre não-saber ciente e a credulidade teológica é abissal: um lado se caracteriza por sensatez e anuência, o outro por imprudência esperançosa e tripla rejeição: ser adepto da ortodoxia metafísica implica, a priori, imaginar-se afastado de três lugares, dois reais e um hipotético: o eixo cósmico – nas nossas dimensões: sol & planeta – não é reconhecido como berço original, potencialmente aconchegante, mas desterro indigno, destino dos gentilícios e indígenas; tampouco se reconhece na corporeidade uma estrutura incontornável; por fim, concebe-se um céu-telos factualmente ignoto, extrínseco e sobrenatural, antitético à vida, postulado como esfera cristalizada e imutável de perfeição apenas acessível na
morte.

Ao apostolar aspirar um significado locado num além insensível, para sanar a sensação e ideia obsessiva de um “universo frio e sem sentido”24, a perspectiva metafísica dualista, subjacente às ideologias catequistas, não se adequa
com a experiência e o imaginário vivaz das crianças, adolescentes venturosos, de artistas, pintores impressionistas, ou, ainda, de naturalistas encantados com o mar, os campos, as florestas e montanhas.

O cenário adequado para quem escolhe descrever-se desse modo rompido (aceitando ser assim descrito), é, certamente, rebuscado, como uma clausura barroca, uma torre de marfim. Escolher ser dogmático e autoritário,
ordenar atuações a partir de contextualizações culturalistas obsessivas e hipotéticas, implica três negações: negar a adequação da natureza humana frente aos universais, negar a excelência da luz natural da razão, negar a aptidão de
suportar com lucidez as fronteiras entre saber e não-saber: isto é, renega, em bloco, a grandeza e perfeição cósmica, ao desconhecer ou desprezar a relevância ética do paradoxo, a lucidez do espanto frente à evidente comunhão dos opostos.

Recuar frente as completudes totalizantes, identificações universais e impressões numinosas, é negar e recusar: a convergência paradoxal do estado-de-ser num símbolo inquebrantável onde a consciência discriminadora e a totalidade do discriminado configuram uma unidade que ajunta e colapsa todas as dicotomias num enlace grandioso; é negar a evidência imediata do estado-de-ser unitário, para
advogar uma hipotética desunião da substância e da essência, do existente e do Cosmos; é substituir um círculo cosmo-existencial e dialógico de amizade (symbolon) construído em torno de um ponto central de saber filosófico,
conhecível como cheiro de terra molhada, por uma esfera teórica reservada e privilegiada, impositiva, evocando uma transcendência intangível; é destronar e banir a grandeza e beleza da diversidade e da interdependência, expressões
criativas da teia que reúne o existente e o Cosmos; é trocar uma realidade surpreendente por uma esperança desvitalizada, infinitamente deslocada, conjuminada a um estado-opositivo, uma perdição instituidora de
pusilanimidade e supremacias passageiras e vãs, sustentáculo de cruzadas, violências, aprisionamentos e desamores.

DAS COORDENADAS METAFÍSICAS SECUNDÁRIAS

Uma filosofia, quando universal (e para ser universal), deve permitir o claro reconhecimento das mitologias batismais generatrizes de movimentos civilizatórios que agremiam e estratificam nações em ordenamentos e coordenadas societárias metafísicas secundárias. A hermenêutica filosófica genuína permite a investigação e o reconhecimento das perspectivas metafísicas, subsequentes estruturações civilizatórias secundárias (como instâncias culturais e políticas, contemporâneas ou históricas), transformando a relação e ordenamento do estado-de-ser numa questão sensível, ética e estética, exigindo posicionamento.

As grandes opções e escolhas existenciais do estadode-ser afunilam entre: 1) o posicionamento metafísico dualista, tributário de símbolos e mitos introjetados sem
conhecimento – obediência batismal – e raramente discutidos, decorrentes carências de explicitações; ou, 2) o posicionamento metafísico monista, que reporta a intuições amplas e profundas, focado na meditação própria, paradigma experiencial que exige respeito à natureza e nega entregar lucidez e razão ao altar da ignorância, tampouco deposita fé em agraciamentos elitistas.

Neste ensaio, epiteto os dois eixos de perspectiva metafísica em exame, respetivamente, de ‘primal’ e ‘excêntrico’, acrescendo um qualificador comum, dito
‘generativo’, porque ambos são geradores de ordenamentos civilizatórios e coordenadas societárias metafísicas secundárias – instância da trigonometria societária. Precisamente, o eixo de perspectiva metafísica cosmoexistencial (ePMCE), que explicita o posicionalmente genérico dito monista, é considerado ‘primal’, sendo o eixo de perspectiva metafísica transcendente-transcendental (ePMTT), kantiano, explicitando o posicionalmente genérico dito dualista, considerado ‘excêntrico’ por não incluir o reconhecimento da união fenomênica na sua axiologia, ter sido instituído mais tardiamente, por superestratificação. A qualificação ‘generativa’ é comum, por explicitar o potencial dos eixos como geradores de ordenamentos civilizatórios correspondentes às suas respetivas coordenadas societárias metafísicas secundárias.

COORDENADA COSMO-EXISTENCIAL

A hermenêutica filosófica qualificada, exercitada com todos os valores da inteligência livremente reunidos em bomsenso, serve como instrumento geral, dialogando e marcando intenções a partir do finito existencial e do infinito cósmico, reafirmando um eixo existencial no qual se elabora um lugar em que vive o amor e a arte, uma civítica espiralando da terra aos céus26. O ePMCE, por descrever com realismo e sensatez o contexto fenomênico fundamental, amplamente intuído, natural, não necessita ser imposto por convencimento, bastando ser afirmado e lembrado. O projeto metafísico primal da experiência existencial explicita o que se intui, por isso, encoraja, quando necessário27, a justa relocação da consciência frente à sua destinação cósmica. Um núcleo lúcido, como uma oca,
possibilita a elaboração de uma trigonometria que coordena os arcos vitais do estado-de-ser: as coordenadas metafísicas secundárias típicas do ePMCE configuram uma trindade de eventos sociológicos: as psicogeografias naturais do Logos, do Ethos e do mito – respeito, convivialidade e criatividade.
Trata-se da psicogeografia do bom convívio onde se consideram a natureza, os sentimentos e se honram as visões e os mitos mais virtuosos, cultivando uma terra fértil de sabedoria e coexistências harmoniosas.

  • Psicogeografia do Ethos: acontecimento integrando corpo-mundo e gênero-espécie instalados em nações, isto é: psicogeografia do lugareiro, aldeia hospitaleira onde a humanidade acontece alojada como pássaros justamente aninhados; marco sereno de saber e saúde, como um bastão
    de ouro, ou caduceu, plantado em uma planície rodeada de montanhas e vales por onde rios serpenteiam.
  • Psicogeografia do Logos: sentimento e cognição28, pilares da razão qualificada, tabernáculo do saber: uma rosa ou pinha que não para de florir, um anfiteatro interrogativo, uma mandala que flora e irradia saber na trama infinita que se vislumbra nas malhas vanguardeiras da imaginação própria e coletiva. Uma visão e uma trama que abrange às
    alturas, para repousar e imprimir a marca do Cosmos no contexto vital, glorificando a natureza, respeitando o outro, das cordilheiras aos himalaias: a mãe-terra, Pachamama e todas as suas criaturas
  • Psicogeografia Mítica: desenhando um templo, um
    panteão olímpico e vivo entre nós, onde se aprecia o
    entusiasmo dos poetas e artistas, dos sábios e filósofos,
    visionários inventores, que expressam a esfuziante alegria
    das musas; realização onde se goza o prazer de ser natureza, onde se vive o céu das visões, habitando o templo universal
    das intuições; num voo planado nas alturas, encontra-se o
    portal mítico do saber e do não saber, onde se revela o
    estado-de-ser essencial, suspenso na infinitude dos seus
    potenciais, entre o tudo e o nada.

O humor, a retórica (agregado de poesia intuitiva e saber sensível), a fluidez das pontuações, permitem evocar múltiplos movimentos existenciais; decursos civíticos, compromissos pacíficos construídos à luz de uma hebegerocracia 29 somando o entusiasmo, a criatividade e a força dos jovens à sabedoria e razão qualificada dos anciãos, os dois pilares fundadores do bom governo. Uma estrutura
civítica onde os serviços sociais básicos – a administração e
cuidado das coisas públicas, o urbanismo, os sistemas monetários e de trocas – são praxes e dedicações voluntárias dos jovens, instruídos e orientados ao longo desse rosário incessante de diálogos e reuniões que acontecem nas praças e anfiteatros da cidade.

O posicionamento filosófico-existencial, é, por necessidade, ‘psicointegrador’: por reconhecer a realidade incontornável do embasamento metafísico no mistério fenomênico que se conhece sem se explicitar; por firmar os pareceres finais no arco das apreensões intuitivas. Piscointegrador, mas, igualmente, ‘enteogênico’ por atender e suportar com virtudes numinosas o testemunho metafísico do desmoronamento da cognoscibilidade em incognoscibilidade nos confins do possível, na hora em que rompe a distinguibilidade e colapsam visões e visionários
em unidade silenciosa e serena como amantes reunidos na vida e na morte, no mistério do momento.

As virtudes cardeais, disposições basilares de veracidade, autonomia e responsabilidade, fundamentam as possíveis esperanças teológicas por permitir a irradiação dessa trigonometria comunitária instituidora de amizade e
que guarnece a vitalidade e saúde de uma polis indígena, pré-colombiana, jônica, olímpica e universal. Uma civilização harmoniosa só pode resultar dessa triangulação ponderada (Logos, Ethos e Mythos) instituída como base da
ação civítica: eis o justo assentamento, a intenção natural e fenomênica da consciência nas praxes cotidianas e arrebentos universais, marcando, uma ação humana próspera e feliz.

COORDENADA
TRANSCENDENTE-TRANSCENDENTAL

O ePMTT instituído numa apreensão fracionada das profundidades filosóficas, em todo caso aquém da natureza indígena, deve, para vigorar, ser introjetado por imposição batismal, educação e regime autoritário. Esse dualismo, aqui considerado ‘excêntrico’, mas ‘generativo’, reporta à uma historicidade sectária, instituidora de coordenadas societárias metafísicas secundárias afins – metodológicas, pedagógicas, culturais e políticas.

Tal eixo parece resultar de um intento malogrado de aproximação fenomênica, uma resistência receando a dissolução unitária onde se pode experimentar a certeza
filosófica, socrática30: a concomitância da impermanência e desse rebis indeclinável, pontos terminativos de saber: dois aspetos integrados da unidade existencial, como reconhecido por filósofos de outras tradições, e, expresso na
metáfora da ‘essência aquosa’ de Tales de Mileto e Heráclito (água, sempre presente e necessária, mas sempre fluida; rio continuado de travessias eternamente diversas) fluxo oriundo desse lugar imóvel e perdurante onde Parmênides de Eleia se descobre no centro uno da esfera absoluta.

No eixo dualista de perspectiva metafísica, cuja obsessão amedrontada se afirma numa ânsia messiânica, compreende-se o que é outro como domínio separado, e, a si mesmo como sujeito dubitativo, deslocado do seu ‘subjectum’ verdadeiro. Uma situação equívoca, resultante da não confrontação do mistério, geratriz de insuperáveisaporias, fortes polarizações e enredamentos apertados, onde: a fonte universal, geradora das distinções, se compreende como uma ‘coisa-em-si’ indistinguível, apartada radicalmente da esfera substancial e vital, mas
postulada motor primo e categórico das distinções naturais, isto é, do mundo criado e das criaturas, embora, não por intermédio dos princípios naturais, domínio das causas criadas, mas de acordo com os postulados elencados nas hermenêuticas litúrgicas – in totum, uma proposição dogmática cuja causa substancial é acidental, sendo a causa efetiva o verbum litúrgico e a causa formal o adventoepifenomenal de uma humanidade banida, sendo a coisa final uma agraciação como retorno ao reino da ‘coisa-em-si’.

O desentendimento labiríntico da apreensão terminativa, onde se agregam em união os atributos, é resultante e resultado de uma sub-compreensão do símbolo
reduzido aos seus valores semânticos (sinais de junção entrecoisas e nomes no plano da reflexão), somado a um embotamento da sensibilidade estética a favor dos cálculos e abstrações idealísticas; verdades enlutadas, amordaçadas,
tentando equilibrar significados que permitam a manutenção do status quo32 e das concretudes provedoras do nosso pão de cada dia – frente às fragilidades das ideias, o proveito político, a consolidação do poder, parece ser o motor da perduração e domínio dessa tradição imperial emediévica, a ‘causa substancial’.

Subjugado no ordenamento metafísico dualista não se reconhece que o símbolo, para poder reunir objetos e significados, gerar entendimentos efetivos, deve instituir-se numa lucidez continente e original, uma comunhão cosmoexistencial:
união que reúne a criatura(ser) à criação(estado) num plano primordial sem o qual não se revela a possibilidade de entendimento dos significados evocados. A harmonização e cientificação que se realiza nas simbolizações não pode reportar a outros mundos: em termos pontuais, o juízo estético, amadurecido e clarificado
na experiência numinosa, não pode simbolizar um divino ‘sobrenatural’: ele deve incluir, em enlaces contínuos, a totalidade dos termos relacionados ao arco intencionado do entendimento, isto é, anuir com a validade do processo simbólico.

Idealizar a existência de uma esfera criadora, separada dos gerenciamentos naturais, isto é, além dos potenciais cognitivos que operam distinções, logo, radicalmente ignota, mas postulada antecedente e apriorística, configura uma carência de razão e de fato como afirmaria Leibniz, uma penúria de sensatez. Trata-se da subsunção falaciosa de um não-saber radical, por uma hipótese insensata, necessariamente expressa com retórica elitista e impositiva.

O positivismo filosófico, ou cientificismo, supostamente dito ‘laico’35, configura escola conservadora, em sinergia complementária às delimitações e privilégios instituidores históricos do dogma da ‘coisa em si’, dando suporte e vitalidade relativa a um ‘ente’ exorbitante, gerente das relações abusivas sujeito/objeto, a partir de uma trindade de coordenadas societárias metafísicas secundárias, resultantes incontornáveis dessas praxes elitistas.

O dualismo teológico e cientificismo, desvios de foco, comungantes como mão e luva, coordenam uma trina fantasmagórica, substanciada em retóricas, etiquetas, roupagens e arabescos sociopolíticos fundados em posicionamentos hipotéticos: 1) da ‘sujeição’: o campo fantástico sujeito alheado, ideando-se banido de um espaço
imaginário; 2) da ‘objetificação’ o campo de busca das ‘ciências humanas’, onde os indivíduos transmutam em objetos, recursos e experimentos de laboratórios, 3) da ‘especulação’ campo soberbo dos enviados e supervisores, de alguma forma, ligados à ‘coisa-em-si’, seja alegórica, mítica, ou de gabinetes. Uma sociocracia que coordena e institui um ser tricéfalo, como o guardião mítico das
profundezas, instâncias políticas e expressividades culturais residentes, alinhadas e em conformidade com o posicionamento metafísico reinante: as psicogeografias
subjetivista, objetivista e teorética. Uma triangulação originando movimentos societários conflituosos, com frequência destrutivos, como nessas democracias onde os anseios das maiorias são legisladas por especialistas e portavozes montados em haveres antes conquistados; burocracias, ditaduras e despotismos teocráticos que ainda
vigoram.

  • A psicogeografia objetivista: coisa gravitando em determinismo e fatalismo, terreno seco e neutral da inteligência artificial, da robótica e das engenhocas, logística onde se desconsideram a intuição, a ética e atos de consciência virtuosos, porque imponderáveis: uma antítese e parodia insensata do Ethos, matriculando um ‘ente-objeto’ em estruturas lucrativas e coordenadas estatísticas.
  • A psicogeografia subjetivista: reino desse sujeito sem terra nem céu, perscrutando a si mesmo nos modos husserlianos, uma paródia e antítese egoica do Logos, evocando um ‘ente-sujeito’ enclausurado na cultura vigente, flutuando em brumas, escavando a si mesmo psicanaliticamente em busca de consolos e domínios ilusórios, procurando lastros e fundamentos nos reflexos do cogito.
  • A psicogeografia especulativa: operada por representantes ou observadores entronizados em privilégios; instituída em idealismos e teorias improváveis desenhadas para consolar e guiar uma humanidade
    prostrada: as diversas formas de teologismos e esoterismos
    associado 36 , a hermenêutico da ‘coisa-em-si’, parodia
    idealística do Mythos acenando futuros esperançosos.

Assim triangulada a civilização padece, doente e desunida, depressiva e sem foco. Nos embates em busca de acordos, a não ser excepcionalmente, os filósofos instituídos e instituidores, aparentam assumir a posição confortável de não perceber que seus discursos volitam envolvidos nas esferas de influência das geografias que vitalizam e sustentam as manifestações políticas e possiblidades civilizatórias criticadas, apenas negociando aberturas e lotes ínfimos de facilidades, em meio a um handicap central, jamais abordado, ou raramente desafiado: a ideia elitista de um sujeito radicalmente transcendente, pilar dessa estrutura e edificação metafísica excêntrica e barroca em que vivem e professam.

Superar esses paradigmas constrangedores, em busca de potenciais mais amenos, eco-humanistas, exige grande desapego, uma recolocação criativa do existente frente a si mesmo, à cultura e ao insondável divinal: um feitio apenas exequível na coabitação de uma boa vontade fundamental, serena tolerância, de uma ousadia e resiliência filosófica transgressiva, somadas à realização intuitiva e destemida deuma nova visão.

O NOVO ALVORECER

Senão do ‘ponto de vista da academia’, mas da realidade existencial, existe uma filosofia mais sensata, um autoentendimento melhor ponderado, estruturado a partir de um eixo de perspectiva metafísica mais virtuoso.

Na natureza humana, a necessidade de agir não se institui como um anseio instintivo de nutrição e assimilação operando em situação de penúria consolada na esperança de um além glorioso, ou, numa frenética e reativa acumulação de coisas.

A praxe de uma humanidade digna responde, antes de tudo, a um sentimento poético frente à existência, uma poiese que motiva em direção a uma junção criativa com a natureza-mundo, instituindo coexistências e sentimentos harmoniosos fundamentados num bom humor assentado na fonte unitária e genésica que faz reconhecer o Belo e abraçar o outro – nasce-se nidificado num útero fecundado pela união dos gametas e não extraídos de células depositadas em matrizes robóticas, proveta-mater de laboratório.

Uma experiência sensível e poética, caracteriza o eixo de perspectiva metafísica cosmo-existencial: trata-se da afirmação precisa e esclarecida da ‘luz natural da razão’ dessa forma equacionada. Uma intuição metafísica que gere
uma visão plena não necessita instituir um divino imaginado distante e dogmático, tampouco uma norma forçando um simulacro de justiça e equidade – não há
justiça assentada em privilégios e iniquidade. A visão da grandeza e da perfeição da natureza é instituída no cultivo das virtudes, que, como as quatros direções, orientam o viajante tanto quanto o Cruzeiro do Sul brilhando no céu. Resulta dessa visão, símbolos e mitos consequentes, uma sociedade madura e sã.

Apenas uma perspectiva metafísica que saiba sustentar o exercício eficiente das virtudes cardeais em todos os recintes e ponderações da psique (apreciando e adequando os sentimentos e os pensamentos) é capaz de gerar uma apreensão abrindo em vida digna e pacífica. Essa aspiração em busca de uma praxe elevada a poesia nas correntezas de um sentimento unitário e amoroso, aspira uma visão totalizante onde flores azuis de centro branco e amarelo podem transmutar em céus ensolarados na intuição imaginativa das crianças, consagrando uma enteléquia
gloriosa onde o fracionamento repartitivo do que exista se equaciona em uma generosidade natural que fomenta e alimenta as virtudes cardeais e sociais, temperando a realidade que se vive na direção das ponderações desejadas.

Este é o plano cognitivo essencial a partir de onde é possível desenhar um projeto vital ético e virtuoso: de uma boa filosofia resulta uma boa vida, naturalmente, decorrente da excelência e adequação fundadora. Não há oposição entre filosofia e sabedoria, âmbito gnosiológico e ético; entender o que é metafísico à luz da razão plena, valente de sentimentos, intuição, virtude e decisão, como deve ser a razão do homo sapiente sapiente, demonstra que o caráter relacional do ‘Eu’ não é de estraneidade, mas de união.

O ‘Eu’ não é estranho, mas nativo, natural, ‘terrâneo’, indígena, dilema de fácil resolução: a ‘estraneidade do Eu’, pedra fundamental da filosofia dita ‘ocidental’ é doxa instituída em credulidade e receio, sendo a união do estadode-ser evidência espantosa e poética – uma configuração, ou Gestalt, mais virtuosa, inteligente e sensível.

Baixar o post

O-PARADOXO-UNITARIO

Pôr-do-Sol Limitado – Diálogo existencialista

Comentário filosóficos sobre o filme Sunset limited de Cormac MacCarthy – atores: Tommy Lee
Jones & Samuel L. Jackson

Do enredo

Trata-se de um diálogo existencialista envolvendo dois personagens. Um ex-presidiário, homem que conheceu o inferno, cumpriu sua pena e salvou-se ancorado, como uma ostra nas pedras, em sussurros místicos e palavras bíblicas, e, um professor de meia-idade, desiludido, aspirando à aniquilação, por não encontrar finalidade nas suas infindas, cíclicas e fatais construções e desconstruções, mas, in extremis, salvo de uma tentativa de suicídio
pelo ex-presidiário. No apartamento suburbano do ex-presidiário, os dois homens conversam longamente.

O fiel, regenerado nos arcanos da fé, se esforça para salvar o professor cético e desiludido; com efeito, tentando consolidar e salvar o seu próprio discurso, a sua frágil narrativa e eixo existencial. O diálogo perdura. O liberado, experienteem aliviar iras arcaicas em sangue, até essas rendições semiconscientes, hoje, conformado e contrito, convalescente dessas reatividades compulsivas, esperançoso, mas sem cultura, tenta aprofundar o diálogo, forçando o professor a um exame das suas atitudes e gestos, perscrutando, buscando nas possíveis falhas e insensibilidades do docente algum motivo, ou pecado marcante, para justificar uma demanda crônica e esperançosa de perdão, em si,
capaz de validar a existência.

O professor transparece ser um homem reto e reflexivo, de boa índole, sem essas falhas grosseiras típicas dos ex-condenados – essas quedas e salvações em rotinas tétricas, cinzas, mas suficientes para reluzir alguma flama de vivacidade que vacila e se reaviva acenando cotidianas esperanças de transcendência.

Simplesmente, o professor cansou de viver esses continuados ciclos que se manifestam em ondas, rompem para se recriam: sisifismos exonerando os objetos das dedicações mais viçosas e sinceras a pó, domando a criatividade dos homens sem jamais afirmar um fim – levantar-e-cair como destino imutável.

Depois de muito tentativas, esse liberto cuja condição vinga em fé depauperada de razões, é obrigado a ouvir uma diatribe dilacerante, baudelairiana e professoral, que revela, como o clarão de uma espada afiada e polida, um imenso desespero que, igualmente, aflorou nos seus próprios pensamentos sem jamais ousar ser perscrutado.

Para que, até onde, ser ferida e navalha, vítima e algoz? Revoltar dores e alívios em escalas infinitas? Não existe uma flor que não feneça! Nem mesmo as de plástico que sem vitalidade, ainda começam e terminam levada pelo tempo que jamais finda! Cansei de pendular nesse vazio! Entende!? Não sinto liberdade nem alivio imaginando uma existência obrigada, imutável e eternal: não quero ciclos repetitivos, tampouco eternidade; espero morrer radicalmente! Não dou fé alguma nas sua promessas ingênuas e absurdas de vida sem vitalidade: não pode ser, não é! A vida é um inferno, um mecanismo que cria e descria sem cessar: o que é dado é retirado, o que é gracioso se desgraça: a morte é a cura; aspiro morrer radicalmente, para tudo, sempre, sempre, agora mesmo! Abre essa porta! Quero dar um fim ao tempo meu.

O homem não tem palavra nem razão para sequer esboçar um sentido que possa justificar um começo absoluto engastado num absoluto sem começo, seguido de um porvir esperançoso, mas que jamais finda, igualmente absoluto, igual e perenal.

Por fim, o expresidiário abre a porta, o professor fatigado sai do apartamento deixando os rastros do seu desespero que invade o ânimo do liberado que vacila a ponto de cair, mas, in extremis, encontrando, de novo, esse tênue, obsessivamente relembrado, pensamento esperançoso – apenas uma lembrança abençoada, um signo, uma palavra promissora, bíblica.

Ponderações cosmo-existenciais

Nas junções e enlaces dessas circunstâncias, configuram-se epopeias. Negar a fatalidade da dor e dos ciclos traz uma brisa de esperança aliviadora; mas, igualmente, sendo essa negação uma escolha ativa, pressupondo intenções claras de alivio, igualmente, traz, na força dos anseios e na proporção das eficiências, a necessidade de imaginar e construir vias causais, escrituras e narrativas em que assumir responsabilidades, proporcionar orientação, redirecionamentos e as salvações que, eventualmente, decorrem. Afirmar uma causalidade e responsabilidade é, igualmente, afirmar uma paixão esperando superar o mau destino.

A negação da dor crônica e histórica, enquadrada em configurações inatas e irredimíveis, só pode ser produtiva começando com expressões de responsabilidades culposas e transcendentes. A causalidade culposa e transcendente, introduz afãs esperançosos, reafirmados por adivinhos, reditos em orações silenciosas, missas proferidas ao atacado
pelos representante dos padecentes, enfermos, castigados ou banidos, evocando garantias bem badaladas do alto das tribunas, histórias de milagres consolando os desfavorecidos, até mesmo apresentando a totalidade da vida como uma purga, firmando a credulidade das massas buscando convencer aqueles que, por viver melhor, duvidam e não necessitam dessas histórias: messianismos dantescos, onde, até mesmo as catástrofes naturais se objetificam evocando destinos apocalípticos!

Caso a razão – glória e adereço de quem nasce homo – seja suficiente e precisa, como deve, a ponto de não permitir que hipóteses radicais destituídas de lastros empíricos servem de balsamos, a angústia, toda humana, exacerba: negar a dor atiças esperanças insensatas, negar as esperanças exacerba a dor – de certa forma, confirmando o absurdo. Mas, eventualmente, a dor envelhece e perde o gume, se inscreve no caráter e se traduz em posturas, atitudes, doenças físicas, de certa forma se drena e se cura… Ou, talvez não, extrapola e assenta em desespero crônico apenas aliviado no silêncio sepulcral.

Condicionado a viver num eixo histórico, metrificado e cronometrado, escalando posições, cumprindo metas provisórias, vias apenas ceifadas pela aposentadoria, fim da pena ou exoneração, não fundamenta sossego na trama existencial dos cidadãos.

Existiria uma alternativa? Não tão só a angústia ou esperança resignada, mas outra via? O que faria a angústia serenar?

Envolvidos nessas polarizações civilizatórias e urbanas, os dialogantes não descortinam os caminhos medianos, os pontos neutros da eutimia e eudemonismo dos filósofos.

Não se trataria de exercitar a criatividade mais um pouco? Prezar esse talento inato para vida, aprofundar a concentração e os cogitos? Então, o pavor de deixar de ser será curado pelo pavor de sempre ser, e, no intervalo, separar-se-ão as representações, abstrações e imagens, do real, salvar-se-ão os valores não supositícios e saboreáveis do existente-presente e decorrer dos dias – um simples gosto pela água, a beleza das flores e dos pássaros, o riso das crianças, o brilho dos olhares e da relva orvalhada visitada por borboletas, os sorrisos dos que se amam. É nas escalas medianas, relativamente temperadas, que se encontra vias ponderadas e sensatas, equadores honrando a atualidade na conjugação do presente, dispensando os eixos e polos rigorosos equacionando começos e dos fins, livrando-se das teleologias inférteis.

O uso da razão não se obscurece tampouco degrada, numa utilização mais pragmática, relativa, reservando os pareceres rigorosos e finais para as produtividades técnicas. É que a vida não acontece, exatamente, no tempo que passa e que vem, no tempo dos cronômetros: ela acontece na duração do presente, tempo e verbo soberanos cuja fineza não se condiciona ou predica.

Nos planos profundos a razão-vital não tem razão a priori ou posteriori, é a luz da razão natural. Um agraciado, sendo sensato e profundo até o essencial, não deveria esperar mais do que já possui no momento presente, um desfavorecido em graves dissabores não deve esperar o absoluto, sem também ser capaz de apreciar algo simplesmente, ao menos as rimas e notas das orações, as rimas, as notas…

O ex-presidiário, senão nas coisas do mundo e da cidade, encontrou alguma graça nas palavras utópicas de um único livro, o professor não encontrou sabor nas bibliotecas, tampouco nas flores, borboletas e objetos das suas buscas intermináveis e cíclicas, nada: mundos, cidades e letras vazias. Sendo a razão firme, na bonança e adversidade, ela jamais extrapola diluída em hipóteses insensatas, sabe repousar nas coisas simples da vida, deixar espaço ao que aparece no tempo carregando sabores. A prodigalidade inerente à natureza não deixa de encantar os que sabem ver e viver – uma libélula!

Baixar o post

essencialismo-dialogo_existencialista

ANTROPOLOGIA Ciência e arte existencial – uma nova epopeia

  • A antropologia não pode ser neutra; o antropólogo existe como estado-de-ser situado, inscrito numa cultura, marcado por impressões batismais. Para ser digno, o estudo antropológico deve reportar ao que é universal, coligado ao que é inerente e específico do Homo sapiente, sapiente: a capacidade de enxergar-se como estado-de-ser suspenso no eternal, apto a considerar as decorrências filosóficas atinentes a tal realização, operando no aprimoramento da cosmovisão, na construção de uma comunidade virtuosa, de uma boa vida.

Baixar livro:

121123101320_A4_ANTROPOLOGIA_E_ARTE_EXISTENCIAL_rev

CONJUGAÇÕES METAFÍSICAS E ANACRONISMOS Epicuro e Heidegger

Junho 2012 – Régis Alain Barbier – Aldeia

Onde está a fonte referencial e primeva da filosofia? Ela não se loca em
pergaminhos, mas na experiência vital. Conceitos expressos e gravados em
uma ou outra arte significam-se atualizados na experiência e conhecimento
que opera na primeira voz do estado-de-ser. A primeira voz do presente é a
conjugação nuclear da realidade existencial. Certamente, podemos concordar
com essas premissas; contudo, anuir não significa considerar com prudência
esses entendimentos basilares.
Procurarei demonstrar que condicionamentos ritualísticos, instituídos nos
séculos que separam os antigos e sempiternos filósofos do momento primeiro
dos modernos e contemporâneos, enredam os talentos e potenciais da psique
em malhas progressivamente envolventes, na medida em que mais se cogita
nas sombras desses ritos sem os ter superados e esconjurados.
Para ilustrar esses percursos, convidarei dois ilustres filósofos, um antigo
senhor de um belo jardim filosófico do mediterrâneo, Epicuro (341-270 a.C.),
e, o mago da Floresta Negra, Martin Heidegger (1889-1976). É possível
afirmar que, apesar dos séculos que separam esses pensadores, ambos
dedicaram-se ao exame da conjugação ser-existência, interessados por
questionamentos ontológicos. “O ser humano existe imerso no mundo
cotidiano, entre céu, terra e mar, em meio aos elementos, entre as coisas do
mundo e da cidade” poderia ter afirmado o antigo; sendo palavras típicas de
nosso contemporâneo: “é preciso examinar o ser para o qual ser é um tema:
nós”1; logo, sugerindo uma comunhão de entendimento; a referência final do
filosofar é a experiência existencial, o vivido.
Mas, apesar da temática comum, convergente – uma busca focada na
experiência vital como fonte de conhecimento e saber -, não há garantia que,
nessas conjugações, Heidegger, ‘agraciado’ em ritos e sacramentos decantados
em cultura e historicidade pontuadas em séculos subsequentes, poderá
1 Essa frase exemplifica bem o pensamento de Heidegger, pode não ser citação textual.
2
discursar em sintonia com a filosofia epicuriana, com retórica e declinações
relativas ao tempo, voz, pessoa e modo similarmente congruentes em relação
a premissas fundamentais e compartilhadas. Depois de Sócrates,
exemplarmente, e, de fato, depois das primeiras colunas do estoicismo e dos
primeiros jardins epicurianos, o homo latinizado (in totum, todos os filósofos
e pessoas ‘agraciados’ no poder dos mitos, ritos e sacramentos pertencentes ao
aculturamento referente) evidencia não compreender o saber original, sagital,
e, neste exemplo, ‘antigo’, onde se mira o alvo de acordo com a voz primeira
da experiência vital, coordenada cardeal da busca filosófica-ontológica: se “o
homem é a medida de todas as coisas”, examinar conceitos referentes a existir
e ser exige experimentação vital, reportar a si mesmo. Devastadora, a
revolução cultural apostólica e romana, depois da destruição das escolas de
filosofia, parece desnaturar e desorientar o ser humano, gerando graves
disfunções que estruturam e agudizam um profundo e perdurante estado de
angústia e de crise.
No orbis latinus, esfera existencial e mítica do genus latinum (“a geração
latina… e muralhas da poderosa Roma”, como canta Virgílio em Eneida) a
idade dita da ‘razão’ não mais ilumina a via filosófica, mas refere a um
estranho basculamento da psique nas masmorras reflexivas, lugares
complexos e ilusórios onde não se diferenciam com clareza abstrações teóricas
(ideias, imagens e representações referentes a ordenamentos burocráticos e
hierarquistas, reificações) de entidades volitivas, gerando-se sombras e
cultismos hiperbólicos que ofuscam e desnaturam os potenciais cognitivos no
sentido antes intuído e delineado por Platão: lugares sombrios e inquietantes,
cavernosos, onde, para encontrar uma saída, a astúcia de um Descartes e a
intuição precisa de um Espinosa auxiliam mais de que a erudição de
pensadores como M. Heidegger2.
Na esfera latina, dificilmente se compreendem os eventos de imediato, com
clara intuição, como certas crianças ainda parecem revelar; a amplidão e
sofisticação do pensamento, deslocado, exuberante e barroco, não é mais
garantia de lucidez. Opiniões e interpretações, imagens e escrituras, tradições,
2 Ter-se debruçado sobre o mundo antigo, expressar-se numa linguagem germânica (isto é ser descendente das
tribos dos reis germânicos coroados pelos papas e batizado nesses ritos que desnaturam) não parece relevante para
arbitrar o jus fundamental desse discurso metafísico, em todo caso, não supera o fato de Heidegger ser ‘latinus’ no
sentido usado no texto.
3
como mapas reimpressos, afiliações, historicismos, confundem a justa e
imediata percepção do território filosófico-existencial. Um uso surrealista de
verbos e pronomes parece articular deslizes e erros basilares de conjugação
filosófica, transformando ideias, abstrações e imaginações que correspondem,
em seres sobrenaturais: a demonstração de alguns desses erros poderá
configurar uma linha discursiva apta a auxiliar a escapar dos feitiços.
Certamente, afundado em reflexões que constrangem, de alguma forma
mitificado, é possível anunciar um “exame ontológico” e não poder, ou ousar,
experienciar e verbalizar conceitos com intuição singular e imediata, de modo
autoral e sustentado, constante e desembaraçado, natural, na primeira voz e
pessoa e na força do momento vital, Kairos, único lugar e tempo onde um
sentido existencial sóbrio e basilar pode testemunhar e conhecer o real,
justamente conjugado, com razão e de fato.
A coletivização e objetificação do que é individual exemplificam e configuram
erros filosóficos fenomênicos: ‘nós’ não é um ser, é abstração. Querendo foco
para melhor conhecer, o enunciado mais acertado deverá informar: “a filosofia
deve fazer perguntas profundas sobre o ser, examinando o ser para o qual o
ser é um tema: tu e eu”. ‘Nós seres humanos’, ‘nós humanidade’ não sente e
não conhece: ‘nós’ não pensa. ‘Nós’ é número, coletivo abstrato destituído de
substância; ‘nós’, é voz e pessoa metafórica: só pode pensar e saber ‘eu’ ou ‘tu’,
cada um pode pensar e saber, não ‘eles’, ‘elas’ e ‘nós’. ‘Eles’, ‘elas’ e ‘nós’ não
sabem: eles não sabem o que dizem nem fazem. Se “só há existência na
singularidade”, a diferença entre ‘ser’ e ‘ente’ não pode ser ontológica, mas
hipotética, subjetiva; o que existe é um estado-de-ser original e cósmico,
unitário e paradoxal, que bem se reconhece até ser atingido-batizado,
desfocado, por essa ideia ‘‘ser’ versus ‘ente’’ iniciando-se a queda abissal na
esfera típica da filosofia latina onde se quer confrontar num plano surreal,
idealisticamente nivelado: 1) o que é fenomênico à luz da razão natural e da
sobriedade, com 2) abstrações e retificações idealísticas, desintegrando o bom
senso numa estrutura hipotética onde se quer inscrever (confundir e inverter)
os existentes em personagens de narrativas ditadas por sujeitos excepcionais
que se imaginam reger a partir de um plano intocável, sobrenatural e supremo.
A desestruturação cognitiva da identidade original e posição existencial
primária resultam numa radical perda de sentido-e-conhecimento, um
4
estranhamento cujo efeito resulta na desautorização da primeira voz,
desnaturando o estado-de-ser num elemento impessoal, número integrando
uma soma, formando uma massa destituída de verbum: uma ‘nossifiação’ do
sujeito, uma midiatização da primeira voz.
Objetificar o existente, inclusive a si mesmo, para, numa visada condicionada
e soberba, dogmática ou cientificista, enxergar um coletivo, uma massificação,
um “nós humanidade” deslocado e abstrato, impede a justa apreciação
existencial do estado-de-ser que só se conhece e comprova através da
experiência vital intuitiva e imediata, referente a tu e a mim. Não se pode
entender o que é existir querendo entender ‘nós humanidade’, ‘império
romano’, ‘nação’, ‘cultura’, ‘história’, ‘partido nacional socialista’, etc.: não
existem, são imagens e representações. Não é suficiente enunciar: “já que
existimos em contexto, em meio às coisas, à vida, se quisermos entender o que
é ser humano, temos de examinar a vida humana, a partir do interior dessa
vida…”, a sentença, imprecisamente conjugada, erra o alvo; seria necessário
que se explicite: “…isto é, do interior da vida como se pode conhecer, que para
mim, refere-se a mim, para tu a tu: eu examino a minha vida frente à natureza
dada-a-ser, tu examinas a tua vida, depois conversaremos”. O ofuscamento da
dimensão filosófica mais natural e fundamental, ontológica, faz o pensador de
Messkirch, em busca de autenticidade, afirmar e concluir exemplarmente: “a
maior parte do tempo estamos absortos em projetos, em andamento, e nos
esquecemos da morte. Quando nos tornamos cientes da morte como limite
final de nossas possibilidades, começamos a alcançar uma compreensão mais
profunda do que significa existir. Todo ser é um rumo à morte, nossas vidas
são temporais: somente depois de compreender isso podemos viver uma vida
significativa e autêntica”. Ora, “nós”, generalizado, ideal, afastado das
evidências sensíveis, de certa forma majestoso, não pode conhecer de
imediato e original, na primeira voz, tampouco filosofar incluindo a
perspectiva primeira apontada como ‘antiga’. Por via de uma veracidade
oculta, apesar do que se parece dizer e arrazoar, o discurso significa suas
perspectivas profundas sem saber, apontando e realizando, ‘perlocutando’, o
inverso do sugerido ou imaginado nas premissas: o caminho da
inautenticidade, dos partidos, elitismos e sociocracias que devoram a vida.
Centrado na singularidade, acordado na unicidade, pensa-se o
5
questionamento referente à comunidade, ao pertencimento social, de modo
civítico, jamais como partidarismos guerreiros, por exemplo.
Note-se, o confronto Epicuro-Heidegger, motivo central deste ensaio, não é
‘exatamente’ focado para ilustrar um debate histórico relativo a
‘contemporaneidade versus antiguidade’; esse debate está incluso como
decurso e ilustra o peso do estado-de-crise entendido como flutuação e
inclinação desarmônica e acidental do estado-de-ser nos potenciais da
manifestação; o confronto evocado repercute os grandes motivos filosóficos,
revela considerações existenciais assimétricas e desproporcionadas: 1) um
“estado-original-de-ser”, sagital e esférico, que denomino gentílico, pagão,
indígena, natural, primo, criança, criativo, renovador etc, e 2) um ‘estadodesnaturado-de-ser’,
dissociado, desengajado, frontal como um teatro ou
espetáculo, um desfile uniforme, sociocrata, conservador, coletivizado,
desautorizado. O posicionamento primevo, original, não se exemplifica na
busca ontológica e inscrições partidárias desnaturadas de Heidegger, mas é
profusamente demonstrado e expresso, simplesmente, por selvagens como o
velho cacique de Seattle, os Epicuros, os Sócrates e outros ilustres pagãos.
Antes de estar em algum lugar do tempo passado, fazendo história, como
Martins Heidegger gosta de mensurar, o primevo faz sentido sagital, perene, e
está locado agora e aqui, no coração simples e justo: um sentimento cuja
lógica não se intelectualiza totalmente, mas que opera em harmonia com o
que é e se conhece de imediato numa apreciação e expressividade singela.
A filosofia de Heidegger orbita nesse ‘nós’ dissociado e posto num plano
frontal, enquadrado na bancada de exame de um sujeito observador elitista e
privilegiado: não reporta a um abraço participativo e sagital, autoral, dado à
existência, a um laço que incorpora o vivente ao mundo em que vive. O
discurso heideggeriano surge moldado em cultura não desafiada,
culturalmente, no interior do estado ‘abissal’ consequente à aplicação dos ritos
que desintegram e estranham o ‘eu’: a ruptura e deslocamento histórico e
acidental do ‘eu’ decanta num coletivo, como povo, nação, raça, num ‘nós’
somado a um resíduo angustiado de si, como um pesadelo vagamente
lembrado. Uma cura implica reconhecer a impossibilidade de fundamentar
uma filosofia útil e sensata fracionando o que é um, idealizando ‘entes’ e ‘ser’,
cogitando ‘tudo’ e ‘nada’; isto, é girando em torno dos portais da lucidez e da
6
imaginação, sem sentir e apreciar o belo que exubera no que é e sempre será:
o momento, lugar portentoso e místico, harmonia em que a vida dança,
convida e reúne os indivíduos em cosmos, fundidos num abraço unitário. O
paradoxo, motivo raiz das elucubrações, não é uma dicotomia separando ‘ser’
de ‘ente’, é a própria estrutura do estado-de-ser, em si e por si. Tais
dicotomias, especulações magnas da busca latina, não configuram assuntos
reais de discurso, tampouco cogitos essenciais, senão para um ‘eu’ deslocado,
dissociado da pessoa que é, um ‘eu’ identificado a termos e ideias; logo, presa
fácil de conjugações ideológicas onde coletivos abstratos (‘nós’, ‘a nação’, ‘o
povo’, etc.) pretendem substituir o que apenas existe, o indivíduo: como
exemplarmente escreve Luiz Borges em “O Outro”, “só os indivíduos existem,
se é que existe alguém”.
O que nos reporta aos Epicuros que constroem espaços vitais e filosóficos
(jardins) respondendo com maestria ao questionamento latente: como pensar,
conjuntamente, a singularidade e a necessidade de pertencer à comunidade?
Epicuro poderia ter sido senador, ou preceptor do imperador, quem sabe?
Mas não. O insight epicuriano revela uma distinção filosófica-metafísica que
resulta em afirmação cosmo-existencial e expansão civítica consagradas na
vigência da morte: ponto terminativo do indivíduo, destinado a interromper o
evento vital sem desafiar ou diminuir o seu sentido e grandeza
incomensurável; morte, previsão que apura e destaca o essencial da
existencialidade. Em Epicuro, a morte termina a vida, mas abrilhanta o seu
fulgor e amplia o sentido portentoso da existência: a perspectiva da morte
projeta a vitalidade fundamental numa epifania que integra e celebra a
cosmicidade. Gloriosos, o mistério e a plenitude do momento integram a
morte ao evento vital numa unidade paradoxal e perfeita.
Heidegger exemplifica uma retração subjetivista-transcendental, um
retrocesso no interior da caverna frente a uma visão de vida e morte que
diminui e denigre o sentido e brilho da produção vital: um movimento
retraído do intelecto que, desesperado, não consegue mais apostar em
reinados transcendentes e além; mas, que, apoético, carente de estetismo,
deturpa em direção ao domínio público, ao campo histórico-cultural, levado
no vozeirão das massas e dos líderes, exemplificando uma visão tragada em
narrativas alheias e que não se dominam; espaços desvitalizados e
7
depressivos: simbolicamente, o campo dos ‘nós’. Em Heidegger, a morte
termina e denigre o sentido da existência, aborta a vitalidade essencial,
evapora em historicismos teleológicos frustrantes e hipotéticos. A angústia e a
miséria das horas que passam, lentas ou depressa, carentes de mistério, fazem
da morte um inimigo que desmente a atualidade do singelo e do belo em
histórias que não foram.
Sem dúvida, existem erros mais intensos, como os de Rorty e muitos outros:
“não há como desviar de nossa linguagem descritiva para alcançar o objeto tal
como é em si mesmo – não porque nossas faculdades sejam limitadas, mas
porque a distinção entre “para nós” e “em si mesmo” é uma relíquia de um
vocabulário metafísico, que sobreviveu à sua utilidade”3. Evidente que “para
nós” não pode estabelecer nenhuma relação significativa com “em si mesmo”;
‘nós’ é uma abstração, uma reflexão matematizada e animada numa retórica
soberba relativa a uma soma de indivíduos massificados numa representação
trágica, reflexos carentes de identidade: uma imagem, um reflexo, não têm
profundidade ‘em si’, não se tocam, não têm espessura.
Se ‘nós humanidade’ não veicula consciência e valores filosóficos algum, não
impede que ‘eu posso’, com facilidade, oriente a minha linguagem descritiva
para bem alcançar e sentir a intenção, tal como é, em si mesmo – não porque
as minhas faculdades sejam extraordinárias, mas porque o entendimento
examinado, “para mim” e “em si”, revela e expressa a realidade de um
enraizamento bem enlaçado, unitário e paradoxal, evidente e imediato,
metafísico: uma atualidade, uma fonte, que jamais se objetifica – tampouco
envelhece ou morre.
Novamente, ‘escutamos’ Rorty: “Devemos interpretar a expressão
‘compreender um objeto’ como uma forma equivocada de descrever nossa
capacidade de relacionar velhas descrições com outras novas. Ela é
equivocada porque sugere, como faz a teoria da verdade como
correspondência, que as palavras podem ser confrontadas com não-palavras, a
fim de descobrir quais palavras são adequadas ao mundo”. Não sou uma
descrição, eu não sou uma representação frontal e chapada num quadro negro,
3 RORTY, Richard: Gadamer e sua utopia
http://ghiraldelli.files.wordpress.com/2008/07/rorty_gadamer.pdf
Observação. Texto cedido ao Centro de Estudos em Filosofia Americana para tradução e divulgação – CEFA.
8
não sou função decretada, não sou uma peça ou recurso de robótica instituído
em bancada: eu mesmo sou a pessoa que discrimina, sou evento autopoiético
que examina a mim mesmo, igualmente, existência e Cosmos. As palavras no
sentido pleno, diacrônico, desde um som primitivo e gutural, um grito de
prazer ou dor, e, no seu sentido sincrônico, elaborações de praxes atualizadas,
quanto bem ditas, por mim, para você ouvir e compreender, juntos, talhar a
vida e fazer o momento, as palavras chegam ao alvo com magna e indubitável
precisão; elas correspondem ao que fundamentam e criam com perfeição.
A verdade filosófica que corresponde aos fatos não é frontal, deslocada e
deitada no plano junto com os fatos, desenhando puzzles em arranjos infinitos,
abstrações e matematismos desumanos, produção de observadores
perpendiculares e neutrais; a verdade filosófica é autoral, sagital, põe em
correspondências inelutáveis e enlaçadas o que é para mim, em mim e mundo
em si (ou para tu, em tu). É o sensato e belo em si do estado-de-ser que me
tocam, comovem e espantam: nessa apreciação, as minhas palavras, como
pássaros alados, transportam a minha consciência nas intenções justamente
batizadas e denominadas, sem desvio. Trata-se de uma verdade por
correspondência sagital, verdade que engloba o alvo; uma verdade que não
abre trincheira alguma no cosmos, mas que compreende claramente o estadode-ser,
o espírito das coisas, as coisas do espírito: eu conheço, eu sei.
Esconjurei a totalidade dos ritos que deportam e apartam, e, como Epicuro,
pagãos e indígenas, eu sei que não sou, tão só, uma entidade cronológica, mas
sei que o ser que sou é momento: eu sou, desde sempre, estado-de-ser que
transmuta sem início nem fim, sei, tautologicamente, que o que existe existe
essencial, porque existe. Sei que se deuses e deusas existissem fora do meu
olimpo, não possuiriam substância alguma, tanto quanto esse “nós,
humanidade”. Sei que eu não morre para mim, mas quem sabe para ti, sei que,
para tu, tu não morres tampouco, quem sabe para mim. Sei que não se pode
compreender existencialmente a morte, ela não pode existir para mim: vivo,
vivo, morto, não vivo. Eles morrem para mim, não para eles, eu posso morrer
para eles, mas não para mim. Conheço a infinita unicidade paradoxal do
Cosmos e da existência: Epicuro, as crianças, os antigos, os poetas, os filósofos,
os simples e eu conhecemos com mais lucidez natural e razão filosófica do que
o povo, a nação, o partido, o regime, ‘nós humanidade’. Dizem que na fase
9
final da vida, Heidegger intuiu que a filosofia (dele) não podia cogitar
profundamente em nosso ser. Diz-se que o seu pensamento ‘mais poético’
oferece um modo de pensar sobre o que significa ser um ser humano num
mundo sob ameaça de destruição ambiental! Eu digo que a filosofia dos
antigos, de Epicuro, em específico, demonstra e significa o que é ser e existir,
como mundo e existência, como ser humano, respeitado, florescente e
próspero. Uma filosofia que previne a formação das políticas societárias,
sociocracias coletivistas, que devoram e objetificam pensamentos e
pensadores.
A cura radical da destruição ambiental exige curar o evento perturbador sim.
Como? Deixando as crianças conhecerem as águas dos riachos, as flores que
brilham na chuva, os pássaros que cantam, as cores das borboletas, a música
que nasce nos ouvidos, deixá-las falarem de si para si, em si mesmo e entre si,
escutar e sentir o belo em uma geração abençoada com os ritos mais justos e
que curam a ‘estraneidade do ‘Eu’, que reúnem o estado-de-ser em abraço
radical, acabar-se-á a crise: este planeta voltará a brilhar, curado, à luz plena e
natural da razão filosófica original e plena, caminho, verdade e vida – com
efeito, filosofia jônica, indígena e pré-colombiana; saber que desceu da cruz,
foragido, como nesse Poema do Menino Jesus de Alberto Caeiro. O jardim
existe. Ele é encontrado pelos vanguardistas que, de si e em si, sabem
asseverar e corroborar a perspectiva metafísica que convém a uma virtuosa e
poética apreciação do processo cosmo-existencial – eu sou indivíduo, eu sou
Cosmos.
Agradecimento: agradeço ao Professo Thiago André Moura de Aquino, senão
concordante irrestrito, cujas comunicações esclarecedoras permitiram
auxiliar a prevenção de interpretações imprecisas.

Página 2 de 2

Desenvolvido em WordPress & Tema por Anders Norén